Resenha: Pobre gente, de Fiódor M. Dostoievski


Dostoievski (Moscou,11-11-1821/São Petesburgo, 09-02-1881) era engenheiro e militar, mas foi a literatura que o fez conhecido e o transformou em um dos maiores escritores mundiais. Foi preso, acusado por conspirar contra o governo russo, e na prisão, começou a desenvolver uma doença no cérebro, até hoje não confirmada, epilepsia ou uma doença histérica como afirmou Freud. Dostoievski morreu, tudo indica, por um acidente vascular cerebral aos 59 anos.dostoyevski

Esse é o tipo de livro que modifica algo na gente. “Pobre gente” foi o primeiro romance de Dostoievski, começou a escrever em 1844 e terminou no ano seguinte.  O personagem Makar Dévushkin, um auxiliar administrativo que leva trinta anos copiando documentos, mora numa pensão humilde, seu pequeno quarto fica ao lado da cozinha, é o que pode pagar com o seu salário também minúsculo. Vivendo dessa forma humilde sobrava dinheiro para o chá, “inclusive com açúcar”, um luxo que não renuncia. Escritores transportaram muitas vezes as suas próprias vidas à literatura, esse quadro de Carl Spitzgweg (que também era poeta, além de pintor), “O poeta pobre”, de 1839, mostra esse tipo de ambiente paupérrimo e insalubre que muitos escritores viveram, onde surgiram pequenas e grandes obras da literatura mundial. O guarda-chuva é o telhado, a cama enfermiça é a escrivaninha; dos livros, a sobrevivência e a salvação. Dostoievski disse que “a pobreza e a miséria formam o artista”, um pensamento que pode ser verdadeiro, já que a falta de recursos, de ócio, de prazeres, de viagens, de relações sociais, faz com que o escritor humilde centre- se mais em si mesmo, no seu mundo interior e seja mais engenhoso e criativo, afinal, a imaginação ainda é grátis.

A literatura é uma coisa magnífica, Várenka, uma coisa extraordinária; graças a essa gente, desde o primeiro dia deu para perceber. É algo profundo! Serve para fortalecer o coração das pessoas, para instruí- las… e para muitas coisas mais que eles escreveram um livro. (…) A literatura é um quadro, ou seja, a seu modo é um quadro e um espelho; é expressão de paixões, crítica sutil, instrução edificante e documento. Tudo isso aprendi com essa gente. (p. 93)

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          “Nós, homens, que vivemos sumidos na preocupação e desassossego, também deveríamos invejar a despreocupada e inocente felicidade dos pássaros celestiais.” (p. 13)

Essa é uma obra epistolar (narrativa escrita em forma de carta), onde Makar Dévushkin escreve para uma parente distante, a jovem Varvara, que mora perto dele, mas para não dar lugar às más línguas, eles não se visitam, comunicam- se através de cartas, viam- se quase que exclusivamente nos domingos de missa. Ela é órfã e também muito pobre, ganha a vida fazendo bordados. Eles são pobres, mas dignos, conseguem manter a auto- estima, não permitem que a falta de recursos os destruam como indivíduos “insignificantes” que são. Makar tem um amor paternal por ela, não é um amor romântico.

Makar sentia- se resignado e até feliz com a sua vida simples: Tenho para comer, para vestir, para calçar- me; para que agora vou complicar a minha vida? (p. 24). Ele vai descrevendo os moradores da pensão: a família de casal e três filhos que vivem num quartinho, uma família doente, triste e silenciosa, que chora na madrugada.

O que me impressionou dessa obra é o realismo que consegue comover sem ser dramático, a palavra justa, Dostoievski não é prolixo nem repetitivo. Ele conta uma só vez e marca, fica na memória, na emoção. Apesar de todo esse realismo impressionante, houve espaço para uma prosa poética na voz de Varvara ao recordar a morte de seu amor platônico, o pobre professor apaixonado por livros, Pokrosvski:

As recordações, sejam amargas ou felizes, sempre nos fazem sofrer. Ao menos é o que acontece comigo. Mas esse sentimento também é doce. Por isso, quando me deprimo, quando passo mal, quando estou angustiada, quando estou triste, as recordações me animam e refrescam, igual que depois de um dia sufocante as gotas vespertinas de orvalho reanimam e refrescam a pobre flor murcha, seca pelo calor do sol.

Os dois personagens, Varvara e Makar, trocam presentes com os escassos recursos que possuem, cuidam- se mutuamente, dividem dores, dissabores, recordações, tristezas, coisas do cotidiano, sentimentos, incertezas e também falam sobre literatura. É a verdadeira amizade, existe um real interesse pelo bem estar mútuo, existe uma necessidade de querer comovente.  Mas na ficção como vida, tudo tem um fim…a realidade é dura.

Triste, bela e poética a capa dessa edição espanhola:

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Dostoievski, M. Fiódor. Pobre gente. Alba, España, 2010.  220 páginas

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6 comentários em “Resenha: Pobre gente, de Fiódor M. Dostoievski Deixe um comentário

  1. Olá, Boa tarde… tenho aqui em minhas mãos um exemplar de Gente Pobre, onde diz que Dostoièvski nasceu no dia 30.10.1821, sendo a data de seu falecimento 28.01.1881. O exemplar é da EDITORA 34. Gostaria de lhe perguntar se este ai em cima é de fato o autor quando jovem, e onde foi sua fonte para a imagem, por gentileza???
    grata pela atenção. Abs!

      1. Então, obrigada pela resposta… acerca das datas, vai de acordo com o calendário Juliano… : “Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (em russo Фёдор Миха́йлович Достое́вский) (Moscou, 30 de Outubro (c. juliano) / 11 de Novembro de 1821 — São Petersburgo, 28 de Janeiro (c. juliano) / 9 de Fevereiro de 1881) .”
        Bom Dia.

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