“O tempo envelhece depressa”, Antonio Tabucchi


Perguntei- lhe por aquele tempo, de quando éramos ainda realmente jovens, ingénuos*, arrebatados, patetas, incautos. Alguma coisa ficou, a juventude não- respondeu. (p. 11)

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O escritor italiano morava em Lisboa e era apaixonado pela língua portuguesa. Tabucchi morreu no ano passado de câncer.

Conheci a obra de Tabucchi depois de sua partida no ano passado (Vecchiano, Pisa, Itália 24/ 09/ 1943 – Lisboa, Portugal 25/ 03/ 2012). O primeiro livro que li foi Requiem: uma alucinação, uma obra muito interessante, sobrenatural, mística. Fiquei com vontade de conhecer mais e comprei “O tempo envelhece depressa”, um título que me identifico muito, porque ultimamente é uma preocupação e luta constantes na minha vida essa briga com o tempo mais veloz que eu. Trata- se de uma obra composta por nove contos que falam disso, do tempo que passa rápido demais em diversos contextos e esferas, o tempo real e o psicológico, a memória e a consciência. São histórias que existiram na realidade antes da ficção, como diz o próprio autor no final do livro. Veja essa interessante passagem:

– Nefelomancia, respondeu o homem, é uma palavra grega. nefelos significa nuvem e mancia adivinhar, a nefelomancia é a arte de adivinhar o futuro observando as nuvens, ou melhor, a forma das nuvens, porque nesta arte a forma é a substância (…) ( “Nuvens”, p. 59)

Adoro essa capa bela e triste, dois palhaços de partida para nenhum lugar, já que observam o mar. O tempo envelheceu cedo, esgotou cedo demais para Tabucchi, esse foi o seu último livro. O nome do autor era cogitado para o prêmio Nobel de Literatura, ele nos deixou 25 livros traduzidos no mundo todo. “O tempo envelhece depressa” é um livro bonito com uma ponta de tristeza…mas, sem dúvida, belo.

‘Nunca acreditei que a vida imitasse a arte’, é uma daquelas frases que pegaram porque é fácil, a realidade ultrapassa sempre a imaginação, por isso é impossível escrever certas histórias, pálida evocação daquilo que de facto* aconteceu. (“Entre generais”, p.85)

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Tabucchi, Antonio. O tempo envelhece depressa. Dom Quixote, Portugal, 2012. 145 páginas

*português de Portugal

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3 Comments »

  1. Não li este livro. Quanto ao “estojo”, ou seja, à capa, é de uma beleza atroz, a síntese de uma tristeza intensa e indelévelmente ligada a um novo “levantar-se do chão” (isto está na tez de ambos), com discreto orgulho; é de tal forma sublime que dispensa muletas psicanalíticas quase sempre mal postas e, pior, retiradas sem o respaldo do fluxo vital que move o indivíduo em questão – mas esta é outra história. Sim, eis uma capa mais do que capa de livro. O inconsciente me trouxe aqui e agora, num vu, três títulos: Funilaria no ar (Armindo Trevisan), Ternura (Gabriela Mistral) e A fabricação da loucura (Thomas S. Szasz).

    Um abraço. Bom domingo.
    Darlan

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