Fernando Pessoa: 125 anos do seu nascimento


Hoje completa 125 anos do nascimento do gênio português Fernando Pessoa. Ele que também era António (Fernando António Nogueira Pessoa) nasceu em Lisboa no dia de Santo Antônio, 13 de junho. Se você é um jovem leitor, coloque como prioridade os livros de Fernando Pessoa, conheça a obra de um dos maiores escritores da língua portuguesa. Os poemas são maravilhosos (ele assinava com heterônimos, como se criasse personagens para suas histórias em versos), também era filósofo.

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Suas reflexões filosóficas, confissões, visões de mundo, pequenas crônicas, onde podemos saber um pouco mais do mundo interior do escritor (isto é, se não for fingimento) estão reunidas no “Livro do desassossego”, que eu destacaria na sua totalidade: em qualquer página que você abrir há um texto maravilhoso. Nesse trecho, ele considera a exposição do mundo interior uma fraqueza, algo pequeno, por isso a necessidade de fingir ser outro, de mentir dizendo a verdade (p. 292):

A mais vil de todas as necessidades- a da confidência, a da confissão. É a necessidade de ser exterior. 

Confessa sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos seus segredos, dizendo- os; mas ainda bem que os segredos que diga, nunca os tenhas dito. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.

Ele fala sobre o mesmo tema no célebre poema “Autopsicografia”, confessa o que sente fingindo ser outro:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Hoje eu não poderia deixar de registrar essa data de aniversário tão importante. Pessoa escreveu um poema sobre o dia de hoje, sobre Santo António (em Portugal a grafia é com acento agudo). Ele confessa que não é seu santo de devoção (era ateu), mas fez uma bela reflexão de quem poderia ter sido Santo Antônio (que por coincidência nasceu Fernando e depois mudou de nome quando se converteu). Considera que o santo é a imagem que fizemos dele, interessante, leia:

SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia —

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir…

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!

 

Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Católico, apostólico e romano.

 

(Reflecti.

Os cravos de papel creio que são

Mais propriamente, aqui,

Do dia de S. João…

Mas não vou escangalhar o que escrevi.

Que tem um poeta com a precisão?)

 

Adiante … Ia eu dizendo, Santo António,

Que tu és o meu santo sem o ser.

Por isso o és a valer,

Que é essa a santidade boa,

A que fugiu deveras ao demónio.

És o santo das raparigas,

És o santo de Lisboa,

És o santo do povo.

Tens uma auréola de cantigas,

E então

Quanto ao teu coração —

Está sempre aberto lá o vinho novo.

 

Dizem que foste um pregador insigne,

Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,

Etcetera…

Mas qual de nós vai tomar isso à letra?

Que de hoje em diante quem o diz se digne

Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

 

Qual santo! Olham a árvore a olho nu

E não a vêem, de olhar só os ramos.

Chama-se a isto ser doutor

Ou investigador.

 

Qual Santo António! Tu és tu.

Tu és tu como nós te figuramos.

 

Valem mais que os sermões que deveras pregaste

As bilhas que talvez não concertaste.

Mais que a tua longínqua santidade

Que até já o Diabo perdoou,

Mais que o que houvesse, se houve, de verdade

No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,

Vale este sol das gerações antigas

Que acorda em nós ainda as semelhanças

Com quando a vida era só vida e instinto,

As cantigas,

Os rapazes e as raparigas,

As danças

E o vinho tinto.

 

Nós somos todos quem nos faz a história.

Nós somos todos quem nos quer o povo.

O verdadeiro título de glória,

Que nada em nossa vida dá ou traz

É haver sido tais quando aqui andámos,

Bons, justos, naturais em singeleza, Que os descendentes dos que nós amámos

Nos promovem a outros, como faz

Com a imaginação que há na certeza,

O amante a quem ama,

E o faz um velho amante sempre novo.

Assim o povo fez contigo

Nunca foi teu devoto: é teu amigo,

Ó eterno rapaz.

 

(Qual santo nem santeza!

Deita-te noutra cama!)

Santos, bem santos, nunca têm beleza.

Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? …

Tira lá essa capa!

Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico

Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

 

És o que és para nós. O que tu foste

Em tua vida real, por mal ou bem,

Que coisas, ou não coisas se te devem

Com isso a estéril multidão arraste

Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,

Essa prolixa nulidade, a que se chama história,

Que foste tu, ou foi alguém,

Só Deus o sabe, e mais ninguém.

 

És pois quem nós queremos, és tal qual

O teu retrato, como está aqui,

Neste bilhete postal.

E parece-me até que já te vi.

 

És este, e este és tu, e o povo é teu —

O povo que não sabe onde é o céu,

E nesta hora em que vai alta a lua

Num plácido e legítimo recorte,

Atira risos naturais à morte,

E cheio de um prazer que mal é seu,

Em canteiros que andam enche a rua.

 

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!

Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,

Esquece a doutrina e os sermões.

De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,

Foste Frei António —

Isso sim.

Porque demónio

É que foram pregar contigo em santo?