“A estátua e a pedra”, o novo livro de José Saramago


 

 

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A Fundação Saramago (leia- se Pilar del Rio, a viúva) lançou no último mês de abril na Feira do Livro de Bogotá essa nova obra póstuma “A estátua e a pedra”. A edição é bilingue espanhol/ português. O prólogo da editora:

Um texto em que, de forma clara e fluida, José Saramago traça um percurso simples, sem artifícios e bem-humorado, pelos seus diferentes livros para acabar concluindo que até a “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” havia estado descrevendo a estátua e que a partir desse livro, que é fronteira, a sua tentativa foi a de descrever a pedra de que é feita a estátua, fase que se inicia com “Ensaio Sobre a Cegueira”. Tudo isto fica explicado de uma forma clara e o leitor adquire uma nova dimensão sobre os livros de José Saramago que já conhece e um desejo de se aproximar dos que ainda estão por conhecer, revisitados pelo Autor neste texto. “A Estátua e a Pedra” apresenta prefácios de Luciana Stegagno Picchio e Giancarlo Depretis e de um epílogo de Fernando Gómez Aguilera e é publicado em edição bilingue – Português e Espanhol.

Boa pedida desse gênio das letras portuguesas, que no último dia 18 de junho, infelizmente, completou 3 anos da sua morte.

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A flor e a náusea


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O Brasil imerso numa revolução social. A gota d’água foi a subida do preço do transporte público em São Paulo, mas isso foi só o pretexto. Há muito tempo o brasileiro está cansado de pagar tantos impostos e não ter nada em troca. Nada de Segurança, nada de Saúde, nada de Educação. São Paulo sempre foi uma capital revolucionária, sempre serviu como exemplo ao resto do país de como se deve lutar quando o governo nega os direitos básicos. A maré humana saiu às ruas para exigir mudanças sociais e políticas básicas para toda sociedade democrática e próspera. É o mínimo que o brasileiro merece!

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O Brasil é um país belíssimo, cheio de recursos naturais e gente trabalhadora. Esse poema de Carlos Drummond de Andrade cai como uma luva para o atual momento social que o Brasil vive. Ele fala sobre um sujeito que está cansado, cheio de náuseas por viver uma rotina injusta, mas vê numa flor feia e desbotada alguma esperança. A revolta, a revolução é o caminho. A inércia promove a corrupção e o enriquecimento de quem já é rico. A classe trabalhadora cada vez mais pequenininha e sem voz, esmagada na falta de tudo. A flor feia nasceu no meio do asfalto e dessa forma não passou despercebida. A revolução brota na rua! Do livro “A rosa do povo”, o poema “A flor e a náusea”:

Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cinzenta.

Melancolias, mercadorias espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Uma flor nasceu na rua!

Vomitar esse tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.

Estão menos livres mas levam jornais

E soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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Fernando Pessoa: 125 anos do seu nascimento


Hoje completa 125 anos do nascimento do gênio português Fernando Pessoa. Ele que também era António (Fernando António Nogueira Pessoa) nasceu em Lisboa no dia de Santo Antônio, 13 de junho. Se você é um jovem leitor, coloque como prioridade os livros de Fernando Pessoa, conheça a obra de um dos maiores escritores da língua portuguesa. Os poemas são maravilhosos (ele assinava com heterônimos, como se criasse personagens para suas histórias em versos), também era filósofo.

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Suas reflexões filosóficas, confissões, visões de mundo, pequenas crônicas, onde podemos saber um pouco mais do mundo interior do escritor (isto é, se não for fingimento) estão reunidas no “Livro do desassossego”, que eu destacaria na sua totalidade: em qualquer página que você abrir há um texto maravilhoso. Nesse trecho, ele considera a exposição do mundo interior uma fraqueza, algo pequeno, por isso a necessidade de fingir ser outro, de mentir dizendo a verdade (p. 292):

A mais vil de todas as necessidades- a da confidência, a da confissão. É a necessidade de ser exterior. 

Confessa sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos seus segredos, dizendo- os; mas ainda bem que os segredos que diga, nunca os tenhas dito. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.

Ele fala sobre o mesmo tema no célebre poema “Autopsicografia”, confessa o que sente fingindo ser outro:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Hoje eu não poderia deixar de registrar essa data de aniversário tão importante. Pessoa escreveu um poema sobre o dia de hoje, sobre Santo António (em Portugal a grafia é com acento agudo). Ele confessa que não é seu santo de devoção (era ateu), mas fez uma bela reflexão de quem poderia ter sido Santo Antônio (que por coincidência nasceu Fernando e depois mudou de nome quando se converteu). Considera que o santo é a imagem que fizemos dele, interessante, leia:

SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia —

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir…

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!

 

Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Católico, apostólico e romano.

 

(Reflecti.

Os cravos de papel creio que são

Mais propriamente, aqui,

Do dia de S. João…

Mas não vou escangalhar o que escrevi.

Que tem um poeta com a precisão?)

 

Adiante … Ia eu dizendo, Santo António,

Que tu és o meu santo sem o ser.

Por isso o és a valer,

Que é essa a santidade boa,

A que fugiu deveras ao demónio.

És o santo das raparigas,

És o santo de Lisboa,

És o santo do povo.

Tens uma auréola de cantigas,

E então

Quanto ao teu coração —

Está sempre aberto lá o vinho novo.

 

Dizem que foste um pregador insigne,

Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,

Etcetera…

Mas qual de nós vai tomar isso à letra?

Que de hoje em diante quem o diz se digne

Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

 

Qual santo! Olham a árvore a olho nu

E não a vêem, de olhar só os ramos.

Chama-se a isto ser doutor

Ou investigador.

 

Qual Santo António! Tu és tu.

Tu és tu como nós te figuramos.

 

Valem mais que os sermões que deveras pregaste

As bilhas que talvez não concertaste.

Mais que a tua longínqua santidade

Que até já o Diabo perdoou,

Mais que o que houvesse, se houve, de verdade

No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,

Vale este sol das gerações antigas

Que acorda em nós ainda as semelhanças

Com quando a vida era só vida e instinto,

As cantigas,

Os rapazes e as raparigas,

As danças

E o vinho tinto.

 

Nós somos todos quem nos faz a história.

Nós somos todos quem nos quer o povo.

O verdadeiro título de glória,

Que nada em nossa vida dá ou traz

É haver sido tais quando aqui andámos,

Bons, justos, naturais em singeleza, Que os descendentes dos que nós amámos

Nos promovem a outros, como faz

Com a imaginação que há na certeza,

O amante a quem ama,

E o faz um velho amante sempre novo.

Assim o povo fez contigo

Nunca foi teu devoto: é teu amigo,

Ó eterno rapaz.

 

(Qual santo nem santeza!

Deita-te noutra cama!)

Santos, bem santos, nunca têm beleza.

Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? …

Tira lá essa capa!

Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico

Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

 

És o que és para nós. O que tu foste

Em tua vida real, por mal ou bem,

Que coisas, ou não coisas se te devem

Com isso a estéril multidão arraste

Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,

Essa prolixa nulidade, a que se chama história,

Que foste tu, ou foi alguém,

Só Deus o sabe, e mais ninguém.

 

És pois quem nós queremos, és tal qual

O teu retrato, como está aqui,

Neste bilhete postal.

E parece-me até que já te vi.

 

És este, e este és tu, e o povo é teu —

O povo que não sabe onde é o céu,

E nesta hora em que vai alta a lua

Num plácido e legítimo recorte,

Atira risos naturais à morte,

E cheio de um prazer que mal é seu,

Em canteiros que andam enche a rua.

 

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!

Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,

Esquece a doutrina e os sermões.

De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,

Foste Frei António —

Isso sim.

Porque demónio

É que foram pregar contigo em santo?

Cinco anos do Falando em Literatura


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O “Falando em Literatura” começou como auxiliar para os meus alunos de língua portuguesa na Espanha. Todos tinham acesso ao blog e faziam postagens livres sempre escritas em português. O blog chamava “A última flor do Lácio”, fazendo referência ao verso do poema “Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac:     

Última flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura;

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela…

 

Amo-te assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela

E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

 

Em que da voz materna ouvi: “Meu filho!”

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

O curso com os alunos acabou e o blog ganhou outro teor. Comecei a escrever sobre os livros que lia, coisa que faço até hoje, e a falar sobre temas literários. Esse blog é também uma forma de uma expatriada tentar manter o seu português em dia. Vivendo fora tantos anos, acaba sendo inevitável as palavras escaparem e o Falando me ajuda nesse sentido. Jamais pensei que fosse durar tanto! Obrigada a todos que acompanham o blog e vamos para mais 5 anos!