“Noite na taverna”, Álvares de Azevedo


Foi poeta – sonhou- e amou a vida. (Álvares de Azevedo)

Manuel Antônio de Azevedo (São Paulo, 12 de setembro de 1831 – Rio de Janeiro, 25 de abril de 1852) foi um escritor romântico bem característico da fase mais “aguda” do Romantismo. Era culto, falava vários idiomas desde criança, precoce, genial, boêmio, pessimista, dramático, vivia o que escrevia, se entregava à literatura, à vida (e à morte) com muita intensidade. Estudou Direito e sua obra quase na íntegra foi publicada postumamente. Morreu muito jovem, tuberculoso, aos 21 anos. Sua grande inspiração: o lindo e ultrarromântico Lord Byron, poeta inglês.

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Álvares de Azevedo

“Noite na taverna” é uma narrativa que acontece, claro, numa taverna. O diálogo entre os personagens, Bertram (nome de um dos personagens trágicos de Byron), Solfieri, Archibald, Johann, Gennaro (todos nomes europeus) acontece regado com muito vinho. A discussão vai desde a imortalidade da alma, à idealização da mulher, ao materialismo, ao ceticismo. A discussão é filosófica, um texto magistral, difícil de acreditar que tenha sido escrito por alguém tão jovem. Azevedo cita Hume, “o fim do homem é o prazer” (p. 17), o epicurismo (Epicuro, filósofo grego, que pregava que a felicidade só pode ser conseguida pelo prazer, pela ausência de dor física e emocional). Só que a filosofia de Epicuro era moderada, os ultrarromânticos não souberam dosar essa busca pelo prazer.

(…) Quem sou eu? Fui poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta- sou um vagabundo sem pátria e sem crença aos quarenta.” (p. 38) Pena que ele não chegou aos trinta nem aos quarenta.

Cada personagem vai contando suas aventuras amorosas inusitadas, impossíveis de acontecer e trágicas. Bem típico da segunda fase do Romantismo, o amor que não pode ter um final feliz. Primeiro, Solfieri, a sua história acontece em Roma; depois, Bertram, que tem uma especial admiração pelas espanholas ( a história dele foi contada com vinho da Espanha) e sua narrativa, claro, tem como cenário a Espanha. As mulheres sempre eram muito pálidas, a atmosfera onírica, irreal, convulsa, febril, doentia, a morte e o pessimismo sempre presentes:

– Por que empalidesceste, Solfieri? a vida é assim. Tu o sabe como eu sei. O que é o homem? é a escuma que ferve hoje na torrente e amanhã desmaia; alguma coisa de louco e movediço como a vaga, de fatal como o sepulcro! O que é a existência? Na mocidade é o caleidoscópio das ilusões: vive- se então da seiva do futuro. Depois envelhecemos: quando chegamos aos trinta anos, e o suor das agonias nos grisalhou os cabelos antes do tempo, e murcharam como nossas faces as nossas esperanças, oscilamos entre o passado visionário, e este amanhã do velho, gelado e ermo- despido como um cadáver que se banha antes de dar à sepultura! Miséria, loucura! (p. 36/37)

Nessa hora dos gritos apareceu um velho poeta, um dos trechos mais interessantes. Sêneca o disse- a poesia é a insânia. (p. 38) Pode ser uma busca de justificativa para os loucos poetas.

Gennaro, o pintor, é o próximo a contar uma história de amor e loucura. Na sua história apareceu Laura, a única mulher “corada como uma rosa” (p. 46), diferenciando- se de todas as outras macilentas e pálidas como o mármore. Gennaro parecia ter- se apaixononado por Laura. Ela era filha do seu mestre de pintura. Essa história também acaba muito mal.

O próximo: Claudius Hermann. Histórias de amor diferentes, mas com um único final: a morte trágica e a dor.

Para Álvares de Azevedo, tudo indica, a vida não tinha solução, a fome e a dor impediam o homem de ser feliz. O lado escuro da vida é o que ficou:

Nessa torrente negra que se chama a vida, e que corre para o passado enquanto nós caminhamos para o futuro, também desfolhei muitas crenças (…) O passado é o que foi, é a flor que murchou, o sol que se apagou, o cadáver que apodreceu. (p. 57)

E a última história é a de Hermann, acontece em Paris num bilhar. O desfecho é parecido com as demais, paixão e final trágico.

Pela representação de um pensamento, um movimento social- artístico-cultural de uma época, pela linguagem trabalhada, riqueza e criatividade da narrativa, a precocidade e genialidade do autor…sem dúvida “Noite na taverna” é uma obra- prima da literatura brasileira.

Poesia! sabeis o que é a poesia? – Meio cento de palavras sonoras e vãs que um pugilo de homens pálidos entende, uma escada de sons e harmonias que àquelas almas loucas parecem ideias e lhes despertam ilusões como a lua as sombras…” (p. 59)

Esse livro eu comprei no aeroporto de Salvador enquanto esperava o meu vôo para Madri em 2012. Feliz por tê- lo trazido comigo!

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Azevedo, Álvares, Noite na taverna. L&PM Pocket, Brasil, 1998. 90 páginas