“Um táxi para Viena d’Áustria”, de Antônio Torres


Longe é qualquer lugar perto do paraíso (p. 219)

Não adianta fugir Watson Rosalveti Campos (Velti ou Veltinho para os íntimos) você saiu lá do Rio Grande do Norte, foi morar no Rio de Janeiro/São Paulo, virou publicitário de sucesso, mas agora está desempregado, está sozinho, os amigos desapareceram, só te resta a parede te cercando. Teu maior medo? Morrer sem dinheiro. E agora?

Desemprego. Ai, que horror. Até parece sinônimo de Lepra. (p.138)

Corre na escadaria, foge, voa num táxi, escreve para se despedir da mãe. “Não matarás”, mas você matou Cabralzinho, matou seu amigo de 25 anos. Agora o rosto dele vai contigo, a culpa vai na sua cacunda gritando no seu ouvido, não adianta fugir de táxi para Viena D’Áustria, só porque lá tem música nas ruas.

Porque só a morte é perfeita. A vida é que é cheia de imperfeições. (p. 93)

O fluxo de consciência do narrador- personagem, Watson, nos remete a uma sensação onírica, o fantástico mistura- se com a realidade, não sabemos se é sonho, alucinação ou se entramos no pensamento de um psicopata assassino. A narrativa não é lineal, vai e volta no tempo, e assim, podemos ir colocando forma no personagem. Ele lembra da infância, do pai morto, assassino e ex- policial que foi preso por plantar maconha. A linguagem é coloquial, escrachada, sexual (sem a finura do erotismo), enfim, um homem comum (o cara pensa muito em sexo) ou melhor, um homem que parece ser comum, mas que de repente, sem querer, sem planejar, converteu- se num assassino. Instinto assassino, temos todos? Cuidado, o assassino mora ao lado.

Táxi levanta vôo. Ganha altura com uma rapidez de sonho. Entra numa nuvem pesada. Táxi em zona de turbulência, sacolejando assustadoramente. (p. 78)

Você não resistiu, viu seu velho amigo escritor na tv, envelhecido e… bum…bum! Acabou com a vida dele. Matar é tão doce, não é Watson? Quem disse que é díficil… Hitchcock? Você sentiu um prazer inenarrável matando.

Não deu para fugir dessa interação dialógica com o personagem Watson. Intriga pura durante a narrativa, mas “por quêêê, Watson!”. A personalidade de Cabralzinho também foi sendo construída, eita Cabralzinho sem vergonha, beberrão, caloteiro!

Um burro velho de carga e ainda dependendo da caridade pública ou privada. É, bolsa me cheira à filantropia, esmola, por aí vai. (p. 144)

E esse papo de morte, de assassinato é tabu, não? “Não matarás” é um dos mandamentos que Jesus nos deixou, fora que pode ser caro, você pode ir preso e o conjunto de seus princípios morais te fazem acreditar que matar não compensa, afinal, quem suporta carregar o peso de ter cometido um crime hediondo? Mas, surpreenda- se: segundo o maior estudo realizado sobre fantasias homicidas, 91% dos homens e 84% das mulheres admitiram já ter pensado (em minúcias) como se livrar de outra pessoa. Essa pesquisa foi coordenada por David Buss, do Departamento de Psicologia Evolutiva da Universidade do Texas e virou o livro The Murderer Next Door. Exceto os psicopatas, ninguém admitiu que o assassinato é algo aceitável socialmente. Ufa! Mas você, Watson, qual é a sua? Você está sonhando, está delirando, tem problemas mentais? Sua consciência pesada indica que não é um psicopata.

– Pai, por que está demorando tanto de você arranjar um emprego? (p. 171)

Quem é você, Watson? Por que matou Cabralzinho? Mesmo sabendo, eu não acredito, deve ter outra razão! Cabralzinho ficava insuportável quando bebia:

No primeiro copo, começava a crescer e ficar com os cabelos louros e lisos. No segundo, começava a se achar um homem alto, de olho azul. No terceiro, estava convencido de que nenhuma mulher resistia a seus dotes físicos. (p.105)

Uma narrativa surreal, com um final inusitado.

O autor: romancista, contista e cronista, o baiano Antônio Torres (Sátiro Dias, 13 de setembro de 1940) foi publicitário e jornalista, Antônio Torres publicou sua primeira obra, “Um cão uivando para a Lua” em 1972 e foi muito bem aceita pela crítica e público.  O escritor é o autor de uma obra- prima da literatura brasileira, “Essa Terra”, que é um dos  meus livros preferidos, uma fantástica história, emotiva, de uma família nordestina, onde um dos seus filhos migra para São Paulo, retorna à sua terra natal e acaba suicidando- se. Torres é um escritor versátil, também escreveu o livro “Meu querido canibal”, obra que ganhou tradução na Espanha, é uma mistura de história do Brasil com ficção, muito diferente de “Um táxi para Viena D’Áustria”, que é um romance urbano. Uma das qualidades da escritura de Antônio Torres é que não sofremos para ler seus livros. Temos a possibilidade de aprender, nos emocionar, mas também de rir e evadir da realidade. Não são nada chatos e aborrecidos seus livros, como há “grandes” obras por aí. Ler Antônio Torres é ler com prazer. Aprendi com o mestre Antônio um termo que não conhecia ainda: “literatice” (p. 108), que parece literatura com chatice, mas é “Literatura ridícula; mania ridícula da literatura”, dava um bom nome para blog, não?!

– O normal não tem graça- ele disse. (p. 109)

Antônio Torres reside hoje em Petrópolis, Rio de Janeiro. Casado com a professora doutora Sônia Torres desde 1972, ela é escritora do livro “America Íbrida” (publicado na Itália), eles têm um filho que também é escritor e mora nos Estados Unidos, Gabriel Torres (7 de julho de 1974). Ele já escreveu 22 livros sobre informática. E o caçula, Tiago Torres (29 de março de 1977), parece que não gosta de aparecer nas redes sociais.

487434_608122575864889_93359484_nAntônio Torres num evento literário em Salvador, Bahia, no último dia 07 de maio, “Conversas Plugadas”, no TCA. (foto: Cristiana Alves)

Antônio Torres é um escritor brilhante, mas é muito acessível, de uma simpatia ímpar, ele tem uma página web, um perfil pessoal no Facebook, uma fan page (administrada por mim e pelo próprio autor, que responde perguntas e interage com as pessoas).

Eu tive o prazer e o privilégio de ganhar de Antônio Torres um exemplar autografado de “Um táxi para Viena D’Áustria”, um verdadeiro tesouro. Muito obrigada, mestre Antônio!

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Torres, Antônio. Um táxi para Viena D’Áustria. Record, SP- RJ, 2005. 222 páginas