O que é ser intelectual?


Nos comentários de um post recente, Rosângela Neres, professora na Universidade Estadual da Paraíba, escreveu o seguinte: “(…) a intelectualidade de uns também é questionável. Nunca fui muito fã desse termo, afinal o que quer dizer ser intelectual, não é mesmo? Todos não temos propensão ao intelecto? Tem gente que só porque leu muitos livros e falou sobre eles já se denomina assim.” E eu fiquei pensando…afinal, o que é ser intelectual na pós- modernidade?

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Em primeiro lugar, na minha opinião, existem pessoas que são intelectuais e outras que não são. Nem todas as pessoas, aliás, a maioria, não é. Apesar dessa “propensão ao intelecto”, como citou Rosângela, que é um pensamento difundido pelo filósofo italiano Antonio Gramsci  (Ales, 22 de janeiro de 1891 – Roma, 27 de abril de 1937). Para o filósofo, “intelectual” não se refere, como costumamos fazer, a certos indivíduos particularmente dotados, distantes da massa, que normalmente são filósofos, artistas, literatos ou cientistas. Para ele, o intelectual só pode ser entendido pela sua base histórica e seu meio social. Cada pessoa é diferente e deve ser “analisada” individualmente. Até aí  estou de acordo. Mas, para ele, todos os seres humanos são filósofos, médicos, advogados, todo mundo pode ser tudo. Ser intelectual é algo orgânico para Gramsci, já nasce inerente ao sujeito. Meritocracia.. o sujeito pode ser tudo? Não existem condições financeiras e/ou sociais que te impeçam de ser o que quiseres? Sim, claro que existem impedimentos, sabemos que na prática é assim. Uma pessoa pode estar apta fisiologicamente para desenvolver atividades mentais, mas a maioria da população mundial não desenvolve essas faculdades. A maioria exerce funções mecânicas, repetitivas, braçais. Não falo desse tipo de intelectual orgânico.  A minha referência nesse post é para os letrados despreparados que criticam sem fundamento, que não aprenderam o suficiente nos seus anos de estudo e deveriam voltar às salas de aula ao invés de serem os professores. É indignante ler erros ortográficos gritantes, professores universitários que mal sabem escrever. Minha crítica é para esse tipo de pseudo- intelectual, que tem a obrigação de saber as regras gramaticais elementares e também as complexas, mas escrevem como crianças de 8 anos. Somado a isso, uma pessoa letrada deveria aceitar a opinião alheia, já que faz parte da intelectualidade a pluralidade. Gente que ocupa cadeiras nas universidades brasileiras, mas que deveria voltar para a alfabetização, ser aluno e não professor. Vamos às definições para o termo intelectual:

 Dicionário Priberam

1. Que é do domínio da inteligência.

2. Relativo à inteligência.

3. Espiritual.

4. Que ou quem tem gosto predominante pelas coisas do espírito.

5. Que ou quem tem uma atividade intelectual permanente ou predominante.

6. Que ou quem tem grande cultura.

Ou seja, todas as faculdades mentais e espirituais, gente que trabalha com alguma atividade intelectual (há exceções, gente que não tem preparação para exercer atividades desse gênero, mas atuam na área por outros motivos, muitas vezes políticos ou administrativos, nepotismo e afins, portanto, há ressalvas) e gente que não trabalha com isso, mas que detêm cultura variada e informação, pessoas que viajam muito, que tratam com gente diversificada, pessoas que leem, que escrevem, que têm um nível de retórica superior, que se preocupam com o bem falar, com a linguagem de um modo geral, que falam mais de um idioma, que têm uma boa cultura geral em áreas que as pessoas mais “simples” muitas vezes não ousam tocar, enfim, as pessoas cultas e os auto- didatas. Todos esses ítens juntos ou alguns deles. Não é necessário ter frequentado uma universidade para ser intelectual.

Um artigo de Jean Paulo Pereira de Menezes, Mestre em História pela FCH/UFGD-MS, docente do curso de Serviço Social e Pedagogia da Unilago-SP, diz o seguinte:

A palavra intelectual passou a ser empregada a partir de 1898 em Paris para se referir a Emille Zola e seus correligionários que buscavam inferirem através da crítica no espaço público da política francesa. De início a palavra intelectual foi carregada de uma depreciação, pois os intelectuais de Zola eram entendidos pelo governo francês como alguma espécie de bisbilhoteiros da política do tempo presente. Assim mesmo, o termo intelectual pegou e passou a ser um designativo nada pejorativo, uma vez que o intelectual buscava a preservação dos valores burgueses universais como liberdade, justiça etc.

Graças a Emile Zola, o termo “intelectual” passou a ser usado, a princípio como algo negativo, porque atacava o governo francês, e logo, como um elogio. Ser intelectual era atribuído ao sujeito que lutava publicamente através da retórica pelo bem da sociedade. Com o marxismo, esse termo mudou de forma e segundo Antonio Gramsci,  “todo mundo é intelectual” (como acha a professora Rosângela):

O conceito de intelectual em Gramsci é muito mais amplo. O intelectual no sentido gamsciano não é necessariamente apenas o palestrante, o literato, os homens das letras diante de seus posicionamentos. Para Gramsci, intelectual é todo sujeito que exerce uma intelecção. Assim, todos os sujeitos são intelectuais.

Um encanador pode ler um livro e um professor de física quântica pode trocar um cano furado eventualmente. Mas Gramsci faz uma ressalva: ele diz que há “graus” de intelectualidade. A grosso modo: há intelectuais medíocres, médios e brilhantes.

Jean Paulo continua explicando que as universidades são fábricas de arquétipos de intelectuais que são movidos por interesses político- administrativos do Estado, comodismo ou interesses próprios. Leia artigo. Tais arquétipos podem ser altamente nocivos, já que se afastam muito do termo intelectual original de Zola, no sentido de usar e trabalhar com a mente para o “bem geral”.

A modo de conclusão: nem sempre a profissão que o sujeito exerce o transforma num intelectual. Há professores que não deveriam ser professores, mas pode existir algum mecânico que é um exímio leitor e entende mais de gramática e literatura que muitos letrados. Todo professor e todo aquele que trabalha com o intelecto deveria ser um intelectual, mas nem sempre é assim; todas as pessoas (exceto as que nasçam com alguma doença) nascem com as suas faculdades mentais prontas para serem desenvolvidas, mas a maioria não tem a oportunidade/ vontade de o fazer e partem para as profissões braçais e mecânicas, já que o estudo e uma boa preparação têm um custo financeiro muito alto, além de outras exigências pessoais, como a constância e tenacidade, que nem todos os indivíduos possuem. Ou seja, a propensão ao intelecto existe, mas nem todos a desenvolvem, mesmo os que têm um canudo na mão. É bem típico dessa nossa “pós- modernidade líquida” (termo do sociólogo Zygmunt Bauman) a falta de definições mais contundentes, o caos social e a falta de clareza, impedem a categorização precisa dos fatos sociais.

De certa forma, esse discurso é um apelo a não- propagação da ignorância. As redes sociais vieram para denunciar o que antes só ficava entre os muros dos centros de ensino: alunos e professores universitários (de Letras e outras áreas) que não sabem gramática básica. Professores universitários que formam outros profissionais deveriam ser escolhidos com critérios mais exigentes. Professores merecem receber um salário condizente com a importância da profissão, mas também têm que fazer um exame de  consciência e averiguar se estão fazendo um bom trabalho. Estão? Todo mundo pode melhorar, basta deixar a poltrona do comodismo e arregaçar as mangas! Se os resultados estão sendo ruins (principalmente na Educação pública) algo falha.