A Feira do Livro de Madri começa nesse mês de maio


A 72ª edição da Feira do Livro de Madri começará no dia 31 de maio e vai até 16 de junho. A lista dos escritores que participarão da Feira já está disponível no site da Feira. Esse ano não vai ter país convidado, o que é uma pena, pois deixamos de conhecer autores de outros países. Será a crise? De todas as formas, podemos visitar 353 stands no Parque del Retiro, pulmão verde bem no centro de Madri.

Esse é o cartaz oficial de 2013 feito pelo desenhista e fotógrafo argentino radicado na Espanha, Juan Gatti:

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Eu amo essa Feira, todos os anos participo ativamente, nela conheci muitos escritores famosos internacionalmente. Estou fazendo uma coleção de livros autografados. Esse ano vou querer autógrafo de Ildefonso Falcones que vai autografar seu último livro “A rainha descalça”, ele é o escritor da bela narrativa “A catedral do mar”. Vou aqui fazendo a minha listinha de desejos!

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“Noite na taverna”, Álvares de Azevedo


Foi poeta – sonhou- e amou a vida. (Álvares de Azevedo)

Manuel Antônio de Azevedo (São Paulo, 12 de setembro de 1831 – Rio de Janeiro, 25 de abril de 1852) foi um escritor romântico bem característico da fase mais “aguda” do Romantismo. Era culto, falava vários idiomas desde criança, precoce, genial, boêmio, pessimista, dramático, vivia o que escrevia, se entregava à literatura, à vida (e à morte) com muita intensidade. Estudou Direito e sua obra quase na íntegra foi publicada postumamente. Morreu muito jovem, tuberculoso, aos 21 anos. Sua grande inspiração: o lindo e ultrarromântico Lord Byron, poeta inglês.

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Álvares de Azevedo

“Noite na taverna” é uma narrativa que acontece, claro, numa taverna. O diálogo entre os personagens, Bertram (nome de um dos personagens trágicos de Byron), Solfieri, Archibald, Johann, Gennaro (todos nomes europeus) acontece regado com muito vinho. A discussão vai desde a imortalidade da alma, à idealização da mulher, ao materialismo, ao ceticismo. A discussão é filosófica, um texto magistral, difícil de acreditar que tenha sido escrito por alguém tão jovem. Azevedo cita Hume, “o fim do homem é o prazer” (p. 17), o epicurismo (Epicuro, filósofo grego, que pregava que a felicidade só pode ser conseguida pelo prazer, pela ausência de dor física e emocional). Só que a filosofia de Epicuro era moderada, os ultrarromânticos não souberam dosar essa busca pelo prazer.

(…) Quem sou eu? Fui poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta- sou um vagabundo sem pátria e sem crença aos quarenta.” (p. 38) Pena que ele não chegou aos trinta nem aos quarenta.

Cada personagem vai contando suas aventuras amorosas inusitadas, impossíveis de acontecer e trágicas. Bem típico da segunda fase do Romantismo, o amor que não pode ter um final feliz. Primeiro, Solfieri, a sua história acontece em Roma; depois, Bertram, que tem uma especial admiração pelas espanholas ( a história dele foi contada com vinho da Espanha) e sua narrativa, claro, tem como cenário a Espanha. As mulheres sempre eram muito pálidas, a atmosfera onírica, irreal, convulsa, febril, doentia, a morte e o pessimismo sempre presentes:

– Por que empalidesceste, Solfieri? a vida é assim. Tu o sabe como eu sei. O que é o homem? é a escuma que ferve hoje na torrente e amanhã desmaia; alguma coisa de louco e movediço como a vaga, de fatal como o sepulcro! O que é a existência? Na mocidade é o caleidoscópio das ilusões: vive- se então da seiva do futuro. Depois envelhecemos: quando chegamos aos trinta anos, e o suor das agonias nos grisalhou os cabelos antes do tempo, e murcharam como nossas faces as nossas esperanças, oscilamos entre o passado visionário, e este amanhã do velho, gelado e ermo- despido como um cadáver que se banha antes de dar à sepultura! Miséria, loucura! (p. 36/37)

Nessa hora dos gritos apareceu um velho poeta, um dos trechos mais interessantes. Sêneca o disse- a poesia é a insânia. (p. 38) Pode ser uma busca de justificativa para os loucos poetas.

Gennaro, o pintor, é o próximo a contar uma história de amor e loucura. Na sua história apareceu Laura, a única mulher “corada como uma rosa” (p. 46), diferenciando- se de todas as outras macilentas e pálidas como o mármore. Gennaro parecia ter- se apaixononado por Laura. Ela era filha do seu mestre de pintura. Essa história também acaba muito mal.

O próximo: Claudius Hermann. Histórias de amor diferentes, mas com um único final: a morte trágica e a dor.

Para Álvares de Azevedo, tudo indica, a vida não tinha solução, a fome e a dor impediam o homem de ser feliz. O lado escuro da vida é o que ficou:

Nessa torrente negra que se chama a vida, e que corre para o passado enquanto nós caminhamos para o futuro, também desfolhei muitas crenças (…) O passado é o que foi, é a flor que murchou, o sol que se apagou, o cadáver que apodreceu. (p. 57)

E a última história é a de Hermann, acontece em Paris num bilhar. O desfecho é parecido com as demais, paixão e final trágico.

Pela representação de um pensamento, um movimento social- artístico-cultural de uma época, pela linguagem trabalhada, riqueza e criatividade da narrativa, a precocidade e genialidade do autor…sem dúvida “Noite na taverna” é uma obra- prima da literatura brasileira.

Poesia! sabeis o que é a poesia? – Meio cento de palavras sonoras e vãs que um pugilo de homens pálidos entende, uma escada de sons e harmonias que àquelas almas loucas parecem ideias e lhes despertam ilusões como a lua as sombras…” (p. 59)

Esse livro eu comprei no aeroporto de Salvador enquanto esperava o meu vôo para Madri em 2012. Feliz por tê- lo trazido comigo!

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Azevedo, Álvares, Noite na taverna. L&PM Pocket, Brasil, 1998. 90 páginas

“O mágico de Oz”, de Frank Baum


Hoje é a data de nascimento do escritor, teósofo, ator e editor  americano Frank Baum (Chittenango, Nova York, 15 de maio de 1856 – Hollywood, Califórnia, 6 de maio de 1919). Ele escreveu várias obras infantis e livros com os pseudônimos, mas sua obra mais conhecida e uma das mais populares no mundo é “O Mágico de Oz”, que encanta crianças e adultos.

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“O Mágico de Oz” passou do papel para diversas outras formas de arte, peças de teatro, musicais, séries de tv, desenhos animados e foi para a telona diversas vezes. A atriz Judy Garland (1922-1969) ficou famosa por interpretar Dorothy de “O Mágico de Oz”, de 1939, e a deliciosa música “Somewhere over the rainbow”:

Frases de “O Mágico de Oz”:

“E você, meu amigo galvanizado, você quer um coração. Você não sabe o quão sortudo és por não ter um. Corações nunca serão práticos enquanto não forem feitos para não se partirem…”

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“- Ainda assim – disse o Espantalho – quero um cérebro em vez de um coração; porque um tolo não saberia o que fazer com um coração se tivesse um. – Fico com o coração – respondeu o Homem de Lata. – Porque cérebro não faz ninguém feliz, e a felicidade é a melhor coisa do mundo.”images

“Agora eu sei que tenho um coração, porque ele está doendo.”

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Resenha: Um táxi para Viena d’Áustria, de Antônio Torres


Longe é qualquer lugar perto do paraíso (p. 219)

Não adianta fugir Watson Rosalveti Campos (Velti ou Veltinho para os íntimos) você saiu lá do Rio Grande do Norte, foi morar no Rio de Janeiro/São Paulo, virou publicitário de sucesso, mas agora está desempregado, está sozinho, os amigos desapareceram, só te resta a parede te cercando. Teu maior medo? Morrer sem dinheiro. E agora?

Desemprego. Ai, que horror. Até parece sinônimo de Lepra. (p.138)

Corre na escadaria, foge, voa num táxi, escreve para se despedir da mãe. “Não matarás”, mas você matou Cabralzinho, matou seu amigo de 25 anos. Agora o rosto dele vai contigo, a culpa vai na sua cacunda gritando no seu ouvido, não adianta fugir de táxi para Viena D’Áustria, só porque lá tem música nas ruas.

Porque só a morte é perfeita. A vida é que é cheia de imperfeições. (p. 93)

O fluxo de consciência do narrador- personagem, Watson, nos remete a uma sensação onírica, o fantástico mistura- se com a realidade, não sabemos se é sonho, alucinação ou se entramos no pensamento de um psicopata assassino. A narrativa não é lineal, vai e volta no tempo, e assim, podemos ir colocando forma no personagem. Ele lembra da infância, do pai morto, assassino e ex- policial que foi preso por plantar maconha. A linguagem é coloquial, escrachada, sexual (sem a finura do erotismo), enfim, um homem comum (o cara pensa muito em sexo) ou melhor, um homem que parece ser comum, mas que de repente, sem querer, sem planejar, converteu- se num assassino. Instinto assassino, temos todos? Cuidado, o assassino mora ao lado.

Táxi levanta vôo. Ganha altura com uma rapidez de sonho. Entra numa nuvem pesada. Táxi em zona de turbulência, sacolejando assustadoramente. (p. 78)

Você não resistiu, viu seu velho amigo escritor na tv, envelhecido e… bum…bum! Acabou com a vida dele. Matar é tão doce, não é Watson? Quem disse que é díficil… Hitchcock? Você sentiu um prazer inenarrável matando.

Não deu para fugir dessa interação dialógica com o personagem Watson. Intriga pura durante a narrativa, mas “por quêêê, Watson!”. A personalidade de Cabralzinho também foi sendo construída, eita Cabralzinho sem vergonha, beberrão, caloteiro!

Um burro velho de carga e ainda dependendo da caridade pública ou privada. É, bolsa me cheira à filantropia, esmola, por aí vai. (p. 144)

E esse papo de morte, de assassinato é tabu, não? “Não matarás” é um dos mandamentos que Jesus nos deixou, fora que pode ser caro, você pode ir preso e o conjunto de seus princípios morais te fazem acreditar que matar não compensa, afinal, quem suporta carregar o peso de ter cometido um crime hediondo? Mas, surpreenda- se: segundo o maior estudo realizado sobre fantasias homicidas, 91% dos homens e 84% das mulheres admitiram já ter pensado (em minúcias) como se livrar de outra pessoa. Essa pesquisa foi coordenada por David Buss, do Departamento de Psicologia Evolutiva da Universidade do Texas e virou o livro The Murderer Next Door. Exceto os psicopatas, ninguém admitiu que o assassinato é algo aceitável socialmente. Ufa! Mas você, Watson, qual é a sua? Você está sonhando, está delirando, tem problemas mentais? Sua consciência pesada indica que não é um psicopata.

– Pai, por que está demorando tanto de você arranjar um emprego? (p. 171)

Quem é você, Watson? Por que matou Cabralzinho? Mesmo sabendo, eu não acredito, deve ter outra razão! Cabralzinho ficava insuportável quando bebia:

No primeiro copo, começava a crescer e ficar com os cabelos louros e lisos. No segundo, começava a se achar um homem alto, de olho azul. No terceiro, estava convencido de que nenhuma mulher resistia a seus dotes físicos. (p.105)

Uma narrativa surreal, com um final inusitado.

O autor: romancista, contista e cronista, o baiano Antônio Torres (Sátiro Dias, 13 de setembro de 1940) foi publicitário e jornalista, Antônio Torres publicou sua primeira obra, “Um cão uivando para a Lua” em 1972 e foi muito bem aceita pela crítica e público.  O escritor é o autor de uma obra- prima da literatura brasileira, “Essa Terra”, que é um dos  meus livros preferidos, uma fantástica história, emotiva, de uma família nordestina, onde um dos seus filhos migra para São Paulo, retorna à sua terra natal e acaba suicidando- se. Torres é um escritor versátil, também escreveu o livro “Meu querido canibal”, obra que ganhou tradução na Espanha, é uma mistura de história do Brasil com ficção, muito diferente de “Um táxi para Viena D’Áustria”, que é um romance urbano. Uma das qualidades da escritura de Antônio Torres é que não sofremos para ler seus livros. Temos a possibilidade de aprender, nos emocionar, mas também de rir e evadir da realidade. Não são nada chatos e aborrecidos seus livros, como há “grandes” obras por aí. Ler Antônio Torres é ler com prazer. Aprendi com o mestre Antônio um termo que não conhecia ainda: “literatice” (p. 108), que parece literatura com chatice, mas é “Literatura ridícula; mania ridícula da literatura”, dava um bom nome para blog, não?!

– O normal não tem graça- ele disse. (p. 109)

Antônio Torres reside hoje em Petrópolis, Rio de Janeiro. Casado com a professora doutora Sônia Torres desde 1972, ela é escritora do livro “America Íbrida” (publicado na Itália), eles têm um filho que também é escritor e mora nos Estados Unidos, Gabriel Torres (7 de julho de 1974). Ele já escreveu 22 livros sobre informática. E o caçula, Tiago Torres (29 de março de 1977), parece que não gosta de aparecer nas redes sociais.

487434_608122575864889_93359484_nAntônio Torres num evento literário em Salvador, Bahia, no último dia 07 de maio, “Conversas Plugadas”, no TCA. (foto: Cristiana Alves)

Antônio Torres é um escritor brilhante, mas é muito acessível, de uma simpatia ímpar, ele tem uma página web, um perfil pessoal no Facebook, uma fan page (administrada por mim e pelo próprio autor, que responde perguntas e interage com as pessoas).

Eu tive o prazer e o privilégio de ganhar de Antônio Torres um exemplar autografado de “Um táxi para Viena D’Áustria”, um verdadeiro tesouro. Muito obrigada, mestre Antônio!

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Torres, Antônio. Um táxi para Viena D’Áustria. Record, SP- RJ, 2005. 222 páginas

O que é ser intelectual?


Nos comentários de um post recente, Rosângela Neres, professora na Universidade Estadual da Paraíba, escreveu o seguinte: “(…) a intelectualidade de uns também é questionável. Nunca fui muito fã desse termo, afinal o que quer dizer ser intelectual, não é mesmo? Todos não temos propensão ao intelecto? Tem gente que só porque leu muitos livros e falou sobre eles já se denomina assim.” E eu fiquei pensando…afinal, o que é ser intelectual na pós- modernidade?

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Em primeiro lugar, na minha opinião, existem pessoas que são intelectuais e outras que não são. Nem todas as pessoas, aliás, a maioria, não é. Apesar dessa “propensão ao intelecto”, como citou Rosângela, que é um pensamento difundido pelo filósofo italiano Antonio Gramsci  (Ales, 22 de janeiro de 1891 – Roma, 27 de abril de 1937). Para o filósofo, “intelectual” não se refere, como costumamos fazer, a certos indivíduos particularmente dotados, distantes da massa, que normalmente são filósofos, artistas, literatos ou cientistas. Para ele, o intelectual só pode ser entendido pela sua base histórica e seu meio social. Cada pessoa é diferente e deve ser “analisada” individualmente. Até aí  estou de acordo. Mas, para ele, todos os seres humanos são filósofos, médicos, advogados, todo mundo pode ser tudo. Ser intelectual é algo orgânico para Gramsci, já nasce inerente ao sujeito. Meritocracia.. o sujeito pode ser tudo? Não existem condições financeiras e/ou sociais que te impeçam de ser o que quiseres? Sim, claro que existem impedimentos, sabemos que na prática é assim. Uma pessoa pode estar apta fisiologicamente para desenvolver atividades mentais, mas a maioria da população mundial não desenvolve essas faculdades. A maioria exerce funções mecânicas, repetitivas, braçais. Não falo desse tipo de intelectual orgânico.  A minha referência nesse post é para os letrados despreparados que criticam sem fundamento, que não aprenderam o suficiente nos seus anos de estudo e deveriam voltar às salas de aula ao invés de serem os professores. É indignante ler erros ortográficos gritantes, professores universitários que mal sabem escrever. Minha crítica é para esse tipo de pseudo- intelectual, que tem a obrigação de saber as regras gramaticais elementares e também as complexas, mas escrevem como crianças de 8 anos. Somado a isso, uma pessoa letrada deveria aceitar a opinião alheia, já que faz parte da intelectualidade a pluralidade. Gente que ocupa cadeiras nas universidades brasileiras, mas que deveria voltar para a alfabetização, ser aluno e não professor. Vamos às definições para o termo intelectual:

 Dicionário Priberam

1. Que é do domínio da inteligência.

2. Relativo à inteligência.

3. Espiritual.

4. Que ou quem tem gosto predominante pelas coisas do espírito.

5. Que ou quem tem uma atividade intelectual permanente ou predominante.

6. Que ou quem tem grande cultura.

Ou seja, todas as faculdades mentais e espirituais, gente que trabalha com alguma atividade intelectual (há exceções, gente que não tem preparação para exercer atividades desse gênero, mas atuam na área por outros motivos, muitas vezes políticos ou administrativos, nepotismo e afins, portanto, há ressalvas) e gente que não trabalha com isso, mas que detêm cultura variada e informação, pessoas que viajam muito, que tratam com gente diversificada, pessoas que leem, que escrevem, que têm um nível de retórica superior, que se preocupam com o bem falar, com a linguagem de um modo geral, que falam mais de um idioma, que têm uma boa cultura geral em áreas que as pessoas mais “simples” muitas vezes não ousam tocar, enfim, as pessoas cultas e os auto- didatas. Todos esses ítens juntos ou alguns deles. Não é necessário ter frequentado uma universidade para ser intelectual.

Um artigo de Jean Paulo Pereira de Menezes, Mestre em História pela FCH/UFGD-MS, docente do curso de Serviço Social e Pedagogia da Unilago-SP, diz o seguinte:

A palavra intelectual passou a ser empregada a partir de 1898 em Paris para se referir a Emille Zola e seus correligionários que buscavam inferirem através da crítica no espaço público da política francesa. De início a palavra intelectual foi carregada de uma depreciação, pois os intelectuais de Zola eram entendidos pelo governo francês como alguma espécie de bisbilhoteiros da política do tempo presente. Assim mesmo, o termo intelectual pegou e passou a ser um designativo nada pejorativo, uma vez que o intelectual buscava a preservação dos valores burgueses universais como liberdade, justiça etc.

Graças a Emile Zola, o termo “intelectual” passou a ser usado, a princípio como algo negativo, porque atacava o governo francês, e logo, como um elogio. Ser intelectual era atribuído ao sujeito que lutava publicamente através da retórica pelo bem da sociedade. Com o marxismo, esse termo mudou de forma e segundo Antonio Gramsci,  “todo mundo é intelectual” (como acha a professora Rosângela):

O conceito de intelectual em Gramsci é muito mais amplo. O intelectual no sentido gamsciano não é necessariamente apenas o palestrante, o literato, os homens das letras diante de seus posicionamentos. Para Gramsci, intelectual é todo sujeito que exerce uma intelecção. Assim, todos os sujeitos são intelectuais.

Um encanador pode ler um livro e um professor de física quântica pode trocar um cano furado eventualmente. Mas Gramsci faz uma ressalva: ele diz que há “graus” de intelectualidade. A grosso modo: há intelectuais medíocres, médios e brilhantes.

Jean Paulo continua explicando que as universidades são fábricas de arquétipos de intelectuais que são movidos por interesses político- administrativos do Estado, comodismo ou interesses próprios. Leia artigo. Tais arquétipos podem ser altamente nocivos, já que se afastam muito do termo intelectual original de Zola, no sentido de usar e trabalhar com a mente para o “bem geral”.

A modo de conclusão: nem sempre a profissão que o sujeito exerce o transforma num intelectual. Há professores que não deveriam ser professores, mas pode existir algum mecânico que é um exímio leitor e entende mais de gramática e literatura que muitos letrados. Todo professor e todo aquele que trabalha com o intelecto deveria ser um intelectual, mas nem sempre é assim; todas as pessoas (exceto as que nasçam com alguma doença) nascem com as suas faculdades mentais prontas para serem desenvolvidas, mas a maioria não tem a oportunidade/ vontade de o fazer e partem para as profissões braçais e mecânicas, já que o estudo e uma boa preparação têm um custo financeiro muito alto, além de outras exigências pessoais, como a constância e tenacidade, que nem todos os indivíduos possuem. Ou seja, a propensão ao intelecto existe, mas nem todos a desenvolvem, mesmo os que têm um canudo na mão. É bem típico dessa nossa “pós- modernidade líquida” (termo do sociólogo Zygmunt Bauman) a falta de definições mais contundentes, o caos social e a falta de clareza, impedem a categorização precisa dos fatos sociais.

De certa forma, esse discurso é um apelo a não- propagação da ignorância. As redes sociais vieram para denunciar o que antes só ficava entre os muros dos centros de ensino: alunos e professores universitários (de Letras e outras áreas) que não sabem gramática básica. Professores universitários que formam outros profissionais deveriam ser escolhidos com critérios mais exigentes. Professores merecem receber um salário condizente com a importância da profissão, mas também têm que fazer um exame de  consciência e averiguar se estão fazendo um bom trabalho. Estão? Todo mundo pode melhorar, basta deixar a poltrona do comodismo e arregaçar as mangas! Se os resultados estão sendo ruins (principalmente na Educação pública) algo falha.

Virgínia Woolf também não gostou de “Ulisses”, de James Joyce


Eu fico extremamente irritada quando algum intelectual (ou pseudo- intelectual) insinua que não sou uma boa leitora porque não gosto de Ulisses. Eu respeito que eles gostem do livro, mas eles  não aceitam uma opinião contrária, um ponto- de- vista diferente, porque já têm uma visão tendenciosa e “maria-vai-com-as-outras”. A onda de que “Ulisses é genial” está arraigada e nenhuma opinião contrária é válida, é considerada inferior. Mas muitos desses defensores ferozes, devem ter lido muita crítica mastigada para emitir suas opiniões 100% inconsistentes. Até agora nenhum desses pseudos conseguiu emitir uma crítica válida sobre a obra. Corto um dedo quando algum falar algo diferente do que não está nas mil e uma resenhas e críticas espalhadas na internet (díficil falar de algo que não entenderam ou que nem leram). Afinal, quem diz que Ulisses é genial, tem que dizer o porquê dessa genialidade toda…e não dizem! Por que inovou a linguagem? Nem toda inovação é boa, a de Joyce é totalmente dispensável, não precisava existir. Por que fez uma adaptação da “Odisséia” de Homero? Quem inventou essa falácia devia estar drogado, de Homero o livro não tem nada! Eu acho que a Irlanda precisava de um grande ídolo literário no século XX e escolheram essa obra e esse escritor, e todo mundo ( “toda unanimidade é burra”) foi na onda ou têm mau gosto mesmo. O livro é cansativo, com trilhões de referências, a história de um dia na vida de um homem contada de uma forma esquizofrênica, doentia. Tentativas de humor sem- graça. Mas gosto é gosto, não?

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Virgínia Wollf que era muito inteligente e uma grande escritora, também não gostou de ler “Ulisses”. Leia. Nossa, Virgínia e eu, que “bichos” estranhos! Temos opinião própria.