Andei lendo essa grande escritora brasileira e acabei fascinada. Coisa linda a escritura dessa mulher. Hilda Hilst era uma mulher à frente do seu tempo, transgressora, inovadora, corajosa, uma mulher admirável. Quebrar regras moralistas na conservadora sociedade brasileira não é fácil. Descendente de portugueses por parte de mãe e de germano- franceses por parte de pai, filha única de um fazendeiro, ela foi uma das representantes mais importantes da literatura brasileira do século XX, uma Guimarães Rosa de saia.

capa

Hilda Hilst, Jaú, 21 de abril de 1930 — Campinas, 4 de fevereiro de 2004


“Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.”

Amavisse3

Original do poema “Amavisse” (10-12-1987)

CapaDoDesejo

Veja o poema do livro “Do desejo”:

Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

I
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

II

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.


III

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

IV

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

DA NOITE

III

Vem dos vales a voz. Do poço.
Dos penhascos. Vem funda e fria
Amolecida e terna, anêmonas que vi:
Corfu. No mar Egeu. Em Creta.
Vem revestida às vezes de aspereza
Vem com brilhos de dor e madrepérola
Mas ressoa cruel e abjeta
Se me proponho ouvir. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos.
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente, e nos habita.

IV

Dirás que sonho o dementado sonho de um poeta
Se digo que me vi em outras vidas
Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?
Dirás que sonho uma rainha persa
Se digo que me vi dolente e inaudita
Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas?
Mas não. Alguém gritava: acorda, acorda Vida.
E se te digo que estavas a meu lado
E eloqüente e amante e de palavras ávido
Dirás que menti? Mas não. Alguém gritava:
Palavras… apenas sons e areia. Acorda.
Acorda Vida.

V

Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscara, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crespusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiqüíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.

VI

O que é a carne? O que é esse Isso
Que recobre o osso
Este novelo liso e convulso
Esta desordem de prazer e atrito
Este caos de dor dobre o pastoso.
A carne. Não sei este Isso.

O que é o osso? Este viço luzente
Desejoso de envoltório e terra.
Luzidio rosto.
Ossos. Carne. Dois Issos sem nome.

Veja o vídeo do Programa Entrelinhas na época dos 80 anos de Hilda Hilst, onde podemos conhecer mais sobre a complexa vida e obra da escritora. Também podemos ver a chácara onde ela morava em Campinas, “A casa do sol”, que foi tombada pelo patrimônio histórico e virou museu.

Veja essa maravilhosa entrevista que a Hilda concedeu, ela dá uma “banana” aos editores, ela disse que escreveu um livro pornográfico para agredir, “Lori Lamby”, um livro “repugnante, de humor”, um livro pra incomodar, pra ser lido, porque ela estava cansada de ser uma “maravilhosa escritora” não lida. Faz uma crítica duríssima aos editores, que “cuspiram na sua cara”, não tem como não ajoelhar- se aos pés da Hilda assistindo essa entrevista. Ela era um barato, o off da entrevista é engraçado:

CapaCadernoRosaLoriLamby

Esse post é só o primeiro de uma série que pretendo fazer sobre Hilda Hilst, muito material fascinante para falar num post só. Hilda faria 83 anos no dia 21 de abril, uma pena ela não estar mais aqui. Como ela previu na entrevista acima, que ia ser um barato quando ela estivesse na cova e super famosa. Sim, Hilda, você conseguiu.

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7 comentários »

  1. Hilda sempre mexe comigo. De todas as maneiras. Era minha “irmã mais velha”, amiga, sábia, briguenta às vezes. Olho as fotos da casa, em frente da qual havia, não sei se ainda existe, um pé de manga-espada, meu prazer quando ia lá. Ela, por especial deferência, afastava uns sessenta cães, deixando apenas trinta e latir ao meu redor, para que eu pudesse descer do carro. Isso mesmo. Trinta cães em sua volta eram muita condescendência – e eu tinha que dar conta do medo de enfrentá-los. Arrumei a biblioteca de Hilda, imensa biblioteca, o que não era fácil – junto com pelo menos dez cães em volta, sobre as camas etc. Uma época, Hilda queria que eu morasse lá com ela, mas não daria certo. Tenho três filhos, que eram pequenos na época, e Hilda nem dava tchum pras crianças. Trocávamos ideias. Isso era a parte boa. Ela recitava o pai nosso em latim e me falava: Leia Proust!
    Hilda está no meu livro “TANGO PARA OS LOBOS – Cantos proibidos de uma Aspie”, que não existe em livrarias, só existe conosco e é edição limitada. Quem quiser conhecer, pode escrever para villa.aspie@gmail.com. Hilda Hilst era uma Aspie (apelido carinhoso de pessoas na condição (os Bwanas dizem “síndrome”) de Asperger, um grau leve dentro do espectro do autismo. Ninguém percebeu isso, exceto que eu revelo isso agora, pois como Aspie descobri outros amigos que eram ou são. Gente que olha, vê e sente o mundo de forma diferente.
    O resto deste texto irá ser colocado na minha página Villa Aspie, no facebook, pois meu blog nunca fica definitivamente pronto (só escrevo, mas preciso de ajuda em coisas de webdesign).
    Hilda era uma mulher muito legal e generosa para com os amigos. Mas se quisesse continuar sua amiga, teria que almoçar na Casa do Sol com pelo menos dois cães de cada lado, tentando pegar comida do seu prato. Se um amigo tentasse enxotar “os meninos”, surgia Hilda Furacão. Ai de quem se atrevesse… […]
    Ana Parreira – Campinas SP 2013

    • Ana,

      que prazer ler o seu depoimento! Muito legal você ter conhecido a Hilda, sua “irmã mais velha” e contar um pouco da sua experiência.
      Lembro que você comentou uma vez sobre o seu livro, se quiser, divulga lá na página do Falando em Literatura (na barra lateral direita tem o link pra lá).
      Muito obrigada, obrigada pela partilha!

      Fernanda

      • Oi Fernanda
        Muito obrigada pelo comentário, há muito tempo leio o que você posta, tudo muito lindo, mas como Aspie eu sinto você longe, queria falar com você ao menos por telefone. Como fazer? Assim, deste jeito, é “virtual demais”… rs Em que cidade está mesmo?
        Estou com umas ideias aqui, quem sabe podemos trocar. Hilda fez-me o grande “favor” de morrer justamente no dia do meu aniversário, 4 de fevereiro, e pior, eu soube apenas uma semana depois (não tenho TV e quase não leio jornais). Até hoje não me recuperei desta hecatombe. Abraço e obrigada por remexer minhas memórias sempre abafadas e silentes.

      • Obrigada, Ana, por acompanhar o blog, fico muito feliz por você ter escolhido esse espaço para remexer suas memórias e contar suas experiências.
        Quem sabe a coincidência da morte de Hilda justo no seu aniversário não seja uma coisa ruim…vai ver o destino escolheu justamente esse dia, o dia do seu aniversário, para ela renascer num lugar muito melhor.
        Podemos sim falar quando você quiser, eu moro em Madri, podemos marcar um dia pra falar pela webcam, estou disponível e será um prazer.
        Abraços,

        Fernanda

  2. Errata ao meu texto:
    1. Ela, por especial deferência, afastava uns sessenta cães, deixando apenas trinta latindo ao meu redor…
    2. Hilda era uma mulher muito leal e generosa para com os amigos.
    (desculpe a nossa falha)

  3. Encontrei-me com o trabalho dela – já faz muito, muito tempo – do mesmo modo como me encontrei com a numéricamente escassa obra do Raduan Nassar, pois nunca ninguém me tinha falado nada sobre ambos. Nos dois casos, lembro-me bem disso, farejando bibliotecas, numa delas, ainda de pé frente a estante, instintivamente eu disse: “É isso aí.” Desde então, desde aquelas priscas eras andamos juntos, farejando a inenarrável algazarra. Raramente eu chamo alguém de grande escritor. Uma e um aqui estão.

    Abraço. Beleza de postagem, coisa para casa do sol.
    Darlan

  4. Fernanda, eu sempre gostei da Hilda, principalmente pela fama de rebelde que sempre teve. Pena que ela ainda é pouco conhecida. Eu estava passeando aqui no blog e vi esse post. Corri para ler e adorei tudo que foi postado. Esse vídeo é uma raridade e se a gente voltar a ver isso daqui a 50 anos, tudo o que ela disse terá sabor de atualidade.
    Muito bacana, Fernanda.
    Manoel

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