“Dias de Leitura”, de Marcel Proust


Um livro que não vem para modificar não faz sentido. Alguns livros mudaram o mundo, nos desmascararam, nos colocaram um espelho diante dos nossos olhos; há livros que inspiram coisas boas e más, guerra e paz, amores e suicídios, há livros que salvam, há livros que matam. Certas escrituras iluminam, enriquecem as nossas vidas, consolam, fazem companhia. Há livros que sacodem as nossas convicções, que abalam as nossas estruturas, que fazem renascer. Alguns são radicais e visionários, poucos são pioneiros, muitos são cópias das cópias das cópias e algumas vezes superam o original. Um livro para ter vida longa precisa desestruturar, incomodar, inovar, emocionar ou simplesmente nos extasiar de beleza.

proust

Marcel Proust (Auteuil, 10/06/1871 – Paris, 18/11/1922) 

Com Marcel Proust é assim, esse cara realmente é bom e descobri com essa obra, que ele também era muito generoso. Com toda a humildade, colocou- se aos pés de Ruskin, Proust exalta a pessoa e obra do inglês com uma eloquência e riqueza de detalhes, que só as verdadeiras estrelas podem fazer. Eu poderia ter sublinhado “Dias de leitura” inteiro, porque a obra completa merece ser destacada. Terminei a leitura encantada. Esse livro reúne ensaios de Proust, um livro-escola, ensina, nos enriquece. É o tipo de livro que inspira a ler muitos outros. Proust considerava John Ruskin (Londres, 08/02/1819 – 20/01/1900- poeta, pintor, desenhista, crítico social e o crítico de arte mais influente da era vitoriana) um gênio que emprestou seu cérebro para a humanidade e que nos deixou suas obras imortais. Através de Ruskin, Proust nos fala dos principais temas literários e de estética, uma prosa sobre teoria da literatura e das artes. Também pude notar o grande leitor que era Proust (como normalmente acontece com o grandes). As referências de grandes nomes da filosofia, teóricos de arte e literatura, e grandes escritores são inúmeras.

ruskinJohn Ruskin

d1472396xQuadro de John Ruskin, “Lago de Lucerna, Suiça”, à venda por 106.000 euros.

Segundo Proust, “a obra de Ruskin é universal. Procurou a verdade, encontrou a beleza até nas tabelas cronológicas e nas leis sociais” (p. 8), e com grande admiração, fala de Ruskin como crítico de arte, sua grande especialidade, área onde destacou- se. Muito falou- se sobre a natureza contraditória de Ruskin, mas Proust considera a mais familiar e a única religião cultuada pelo artista inglês: a Beleza, “a religião da Beleza” (p.12). E dessa forma, conhecemos a obra de Ruskin baixo o olhar de Proust, mostrando que um ensaio pode ser uma leitura extremamente prazerosa. A citação abaixo pode animar aos que consideram que tudo está feito e que vivemos uma crise de criatividade na pós- modernidade; também aos que pensam que levamos vantagem por causa de todo o conhecimento acumulado. Isso derrubou uns pensamentos que eu mesma tinha:

“(…) na arte não há (ao menos no sentido científico) um iniciador, um precursor. Tudo está no indivíduo, cada indivíduo volta a começar a tentativa artística ou literária. E as obras dos seus predecessores não constituem, como ciência, uma verdade estabelecida que serve de proveito ao que venha depois. Um escritor genial em nossos tempos tem tudo por fazer: não está mais adiantado que Homero.” (p. 122)

Proust explica o seu livro “No caminho de Swann”, que é o primeiro livro da série “Em busca do tempo perdido”, que foi sendo publicado aos poucos e escrito durante 14 anos. Acho interessantíssimo ler Proust como ele mesmo, por isso amei tanto esse ensaio:

“Só publico um volume, ‘No caminho de Swann’, de um romance que terá como título geral ‘Em busca do tempo perdido’. Eu queria publicar tudo junto, mas já não se editam obras em vários volumes. Sou como alguém que tem um tapete grande demais para as moradias atuais e não tenho mais remédio que cortá- las.” (p. 131)

Quem quiser começar a ler essa saga maravilhosa de Proust pode começar já, “No caminho de Swann” está disponível gratuitamente na internet, clica aqui.

Para conhecer mais a obra de Ruskin, veja o Museu de John Ruskin  em Coniston, Cumbria, na Inglaterra.

dias-de-lectura-great-ideas-9788430609338

Proust, Marcel. Días de Lectura, Santillana, Madrid, 2012. 134 páginas