Hoje é um bom dia para ler…


…”Spilt Milk”! Isso mesmo, “Leite derramado”, de Chico Buarque. Aqui é assim, a gente não tem cão, caça com gato mesmo, já que livros em português na Espanha estão cada vez mais escassos. Nada como ler no original, acho que todo mundo concorda com isso, o sabor é mais intenso e saboroso, mas aqui a realidade é essa. Andando pela Fnac em Madri encontrei esse livro do Chico em inglês, trouxe comigo, assim pratico a leitura em inglês, que também estou precisando.

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A Fnac espanhola completa 20 anos e eles estão presenteando os sócios (quer dizer, a gente paga só 1 euro) com canecas literárias, que eu adoro! Eu achei essa muito bacana, é de um carinha chamado Aleix Saló, ele é um cartunista de Barcelona, “hoje é um bom dia para ler”, não?!

IMG_9281“Usar marca- páginas é de covardes. Você gosta de viver perigosamente.” (Aleix Saló)

canecaE você, também gosta de “viver perigosamente” ou prefere marcar a página que está lendo para não se perder na leitura? 😀

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A grande Hilda Hilst


Andei lendo essa grande escritora brasileira e acabei fascinada. Coisa linda a escritura dessa mulher. Hilda Hilst era uma mulher à frente do seu tempo, transgressora, inovadora, corajosa, uma mulher admirável. Quebrar regras moralistas na conservadora sociedade brasileira não é fácil. Descendente de portugueses por parte de mãe e de germano- franceses por parte de pai, filha única de um fazendeiro, ela foi uma das representantes mais importantes da literatura brasileira do século XX, uma Guimarães Rosa de saia.

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Hilda Hilst, Jaú, 21 de abril de 1930 — Campinas, 4 de fevereiro de 2004


“Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.”

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Original do poema “Amavisse” (10-12-1987)

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Veja o poema do livro “Do desejo”:

Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

I
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

II

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.


III

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

IV

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Esse da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

DA NOITE

III

Vem dos vales a voz. Do poço.
Dos penhascos. Vem funda e fria
Amolecida e terna, anêmonas que vi:
Corfu. No mar Egeu. Em Creta.
Vem revestida às vezes de aspereza
Vem com brilhos de dor e madrepérola
Mas ressoa cruel e abjeta
Se me proponho ouvir. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem do Nada.
Dos vínculos desfeitos. Vem dos ressentimentos.
E sibilante e lisa
Se faz paixão, serpente, e nos habita.

IV

Dirás que sonho o dementado sonho de um poeta
Se digo que me vi em outras vidas
Entre claustros, pássaros, de marfim uns barcos?
Dirás que sonho uma rainha persa
Se digo que me vi dolente e inaudita
Entre amoras negras, nêsperas, sempre-vivas?
Mas não. Alguém gritava: acorda, acorda Vida.
E se te digo que estavas a meu lado
E eloqüente e amante e de palavras ávido
Dirás que menti? Mas não. Alguém gritava:
Palavras… apenas sons e areia. Acorda.
Acorda Vida.

V

Águas. Onde só os tigres mitigam a sua sede.
Também eu em ti, feroz, encantoada
Atravessei as cercaduras raras
E me fiz máscara, mulher e conjetura.
Águas que não bebi. Crespusculares. Cavas.
Códigos que decifrei e onde me vi mil vezes
Inconexa, parca. Ah, toma-me de novo
Antiqüíssima, nova. Como se fosses o tigre
A beber daquelas águas.

VI

O que é a carne? O que é esse Isso
Que recobre o osso
Este novelo liso e convulso
Esta desordem de prazer e atrito
Este caos de dor dobre o pastoso.
A carne. Não sei este Isso.

O que é o osso? Este viço luzente
Desejoso de envoltório e terra.
Luzidio rosto.
Ossos. Carne. Dois Issos sem nome.

Veja o vídeo do Programa Entrelinhas na época dos 80 anos de Hilda Hilst, onde podemos conhecer mais sobre a complexa vida e obra da escritora. Também podemos ver a chácara onde ela morava em Campinas, “A casa do sol”, que foi tombada pelo patrimônio histórico e virou museu.

Veja essa maravilhosa entrevista que a Hilda concedeu, ela dá uma “banana” aos editores, ela disse que escreveu um livro pornográfico para agredir, “Lori Lamby”, um livro “repugnante, de humor”, um livro pra incomodar, pra ser lido, porque ela estava cansada de ser uma “maravilhosa escritora” não lida. Faz uma crítica duríssima aos editores, que “cuspiram na sua cara”, não tem como não ajoelhar- se aos pés da Hilda assistindo essa entrevista. Ela era um barato, o off da entrevista é engraçado:

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Esse post é só o primeiro de uma série que pretendo fazer sobre Hilda Hilst, muito material fascinante para falar num post só. Hilda faria 83 anos no dia 21 de abril, uma pena ela não estar mais aqui. Como ela previu na entrevista acima, que ia ser um barato quando ela estivesse na cova e super famosa. Sim, Hilda, você conseguiu.

23 de abril: Dia Mundial do Livro


Hoje é um dia delicioso para os amantes dos livros. Há muitos eventos literários espalhados pelo mundo, é um bom dia para comprar livros, já que a maioria das livrarias fazem descontos e na Espanha, país onde moro, há comemorações muito especiais: na Catalunha a tradição é presentear livros e rosas. Em Madri há a leitura ininterrupta do livro mais famoso da língua espanhola, “Dom Quixote”, de Cervantes. O mesmo acontece em outros países de língua espanhola.

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A data de hoje foi escolhida pela UNESCO por causa do falecimento de dois dos mais importantes escritores mundiais: Miguel de Cervantes e William Shakespeare.

Um feliz dia, com muitas leituras e flores!

“Dias de Leitura”, de Marcel Proust


Um livro que não vem para modificar não faz sentido. Alguns livros mudaram o mundo, nos desmascararam, nos colocaram um espelho diante dos nossos olhos; há livros que inspiram coisas boas e más, guerra e paz, amores e suicídios, há livros que salvam, há livros que matam. Certas escrituras iluminam, enriquecem as nossas vidas, consolam, fazem companhia. Há livros que sacodem as nossas convicções, que abalam as nossas estruturas, que fazem renascer. Alguns são radicais e visionários, poucos são pioneiros, muitos são cópias das cópias das cópias e algumas vezes superam o original. Um livro para ter vida longa precisa desestruturar, incomodar, inovar, emocionar ou simplesmente nos extasiar de beleza.

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Marcel Proust (Auteuil, 10/06/1871 – Paris, 18/11/1922) 

Com Marcel Proust é assim, esse cara realmente é bom e descobri com essa obra, que ele também era muito generoso. Com toda a humildade, colocou- se aos pés de Ruskin, Proust exalta a pessoa e obra do inglês com uma eloquência e riqueza de detalhes, que só as verdadeiras estrelas podem fazer. Eu poderia ter sublinhado “Dias de leitura” inteiro, porque a obra completa merece ser destacada. Terminei a leitura encantada. Esse livro reúne ensaios de Proust, um livro-escola, ensina, nos enriquece. É o tipo de livro que inspira a ler muitos outros. Proust considerava John Ruskin (Londres, 08/02/1819 – 20/01/1900- poeta, pintor, desenhista, crítico social e o crítico de arte mais influente da era vitoriana) um gênio que emprestou seu cérebro para a humanidade e que nos deixou suas obras imortais. Através de Ruskin, Proust nos fala dos principais temas literários e de estética, uma prosa sobre teoria da literatura e das artes. Também pude notar o grande leitor que era Proust (como normalmente acontece com o grandes). As referências de grandes nomes da filosofia, teóricos de arte e literatura, e grandes escritores são inúmeras.

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d1472396xQuadro de John Ruskin, “Lago de Lucerna, Suiça”, à venda por 106.000 euros.

Segundo Proust, “a obra de Ruskin é universal. Procurou a verdade, encontrou a beleza até nas tabelas cronológicas e nas leis sociais” (p. 8), e com grande admiração, fala de Ruskin como crítico de arte, sua grande especialidade, área onde destacou- se. Muito falou- se sobre a natureza contraditória de Ruskin, mas Proust considera a mais familiar e a única religião cultuada pelo artista inglês: a Beleza, “a religião da Beleza” (p.12). E dessa forma, conhecemos a obra de Ruskin baixo o olhar de Proust, mostrando que um ensaio pode ser uma leitura extremamente prazerosa. A citação abaixo pode animar aos que consideram que tudo está feito e que vivemos uma crise de criatividade na pós- modernidade; também aos que pensam que levamos vantagem por causa de todo o conhecimento acumulado. Isso derrubou uns pensamentos que eu mesma tinha:

“(…) na arte não há (ao menos no sentido científico) um iniciador, um precursor. Tudo está no indivíduo, cada indivíduo volta a começar a tentativa artística ou literária. E as obras dos seus predecessores não constituem, como ciência, uma verdade estabelecida que serve de proveito ao que venha depois. Um escritor genial em nossos tempos tem tudo por fazer: não está mais adiantado que Homero.” (p. 122)

Proust explica o seu livro “No caminho de Swann”, que é o primeiro livro da série “Em busca do tempo perdido”, que foi sendo publicado aos poucos e escrito durante 14 anos. Acho interessantíssimo ler Proust como ele mesmo, por isso amei tanto esse ensaio:

“Só publico um volume, ‘No caminho de Swann’, de um romance que terá como título geral ‘Em busca do tempo perdido’. Eu queria publicar tudo junto, mas já não se editam obras em vários volumes. Sou como alguém que tem um tapete grande demais para as moradias atuais e não tenho mais remédio que cortá- las.” (p. 131)

Quem quiser começar a ler essa saga maravilhosa de Proust pode começar já, “No caminho de Swann” está disponível gratuitamente na internet, clica aqui.

Para conhecer mais a obra de Ruskin, veja o Museu de John Ruskin  em Coniston, Cumbria, na Inglaterra.

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Proust, Marcel. Días de Lectura, Santillana, Madrid, 2012. 134 páginas

“Ulisses”, de James Joyce


Sabe esses livros que provocam amor ou ódio? Então, creio que esse é um assim: eu ODIEI “Ulisses”! Eu tenho que contar para vocês o drama que foi ter que engolir esse livro. Sim, foi engolido a seco, travando, engasgando, na marra. “Ulisses” ficou marcado como a minha pior experiência literária. Eu fiquei aprisionada nela, não avançava, mas não conseguia deixá- la, porque sou uma leitora kamikaze, morro se não chegar na última página de um livro, não consigo abandonar a leitura, não me rendo! Fiquei quatro meses com esse livro queimando na minha cabeceira, incomodando, irritando, “maldito livro!”. A sensação que tive é que minha vida inteira ficou truncada: “se eu não terminar de ler ‘Ulisses’ ficarei inerte eternamente!”. Exageros à parte, foi um livro daninho, não me trouxe nada de positivo, não me divertiu, não me disse nada, não me identifiquei. Um livro sem pé nem cabeça, aborrecido. Infelizmente, tenho que concordar com Paulo Coelho: esse livro é uma droga, mas uma droga dessas pesadas que te provocam uma ressaca horrível, enjôo, dor de cabeça e a sensação de inutilidade. Mas eu não vou falar para você não ler. Sua percepção pode ser totalmente diferente da minha (tomara!). Vai arriscar?

James Joyce era uma tremendo “chato de galochas”. O cérebro do homem jorrava palavras “a torto e a direito”. Alguns trechos são poéticos, com certa beleza, isso eu destacaria como algo positivo, mas mesmo assim pareciam desconexos. As longas descrições, como se o narrador ou personagem sofressem de alguma patologia mental, curaram a minha insônia crônica. É um livro esquisito, sem dúvida.

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Decepção, James Joyce!

Juro que a cada página eu desejei mudar de opinião, “vamos lá Joyce, mostra porque essa obra é considerada ‘pelos críticos’ (se é que leram) uma das maiores da literatura mundial”. Mas Joyce escreveu algo que ele mesmo precisou explicar, porque seria muito difícil alguém entender o livro “monstro” (termo do autor) que ele escreveu durante sete anos. Vou tentar explicar um pouco a parte técnica:

O livro inteiro é uma solene bobagem, mas uma bobagem arquitetada intencionalmente pelo autor, embora incompreensível, um trabalho sem nenhum sentido ou porquê. Ele escreveu vários capítulos, uma epopéia (israelita- irlandesa) e o ciclo do corpo humano e também a história de um único dia na vida. Uma enciclopédia. Cada aventura é uma pessoa, que o autor acha que está conectada num conjunto (que só ele deve ter entendido). O nome “Ulisses” só aparece quatro vezes na extensa obra e é melhor esquecer o personagem “Ulisses” de Homero, porque não tem nada a ver. Um livro que precisou ser explicado pelo próprio autor já é um mau sinal.

E como esse post já deu mais de um tweet, vou parar por aqui, porque não vou perder mais um segundo com esse livro quebra- cabeças inútil e sem- graça. Um livro “pegadinha de mau gosto”. Esse livro não merece o status que tem.

Paulo Coelho, você tem razão!

de

Joyce, James. Ulises. Debolsillo, Barcelona, 2012. 974 páginas

Update: relendo essa resenha em 25/12/2017 (Natal!), fiquei com vontade de reler. Li com má vontade…quase cinco anos depois…acharia a mesma coisa?

Literatura infantil grátis para baixar


E nesse Dia Nacional do Livro Infantil, que tal você ler alguma história com seu(sua) filho(a)? O site do governo brasileiro Domínio Público disponibiliza obras que já perderam direitos autorais ou que foram cedidas pelos próprios autores, portanto, podemos baixá- las sem temor, não é ilegal. Aqui nesse link você vai encontrar 22 livros de literatura infantil, é só escolher a opção “literatura infantil” e “português”. E no site da Biblioteca de São Paulo, você vai achar mais 20 títulos disponíveis. Aproveita!

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18 de abril: Dia Nacional do Livro Infantil


Hoje comemora- se o Dia Nacional do Livro Infantil no Brasil por causa do escritor Monteiro Lobato, que nasceu no dia 18 de abril de 1882, em Taubaté, interior de São Paulo e faleceu no dia 4 de julho de 1948.

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A obra infantil de Lobato começou a ser questionada pelo seu teor racista, onde ele compara a tia Anastácia (que é afro- descendente) com uma  “macaca” em “As caçadas de Pedrinho” (1933), mas não só: foram descobertas 20 cartas de conteúdo fortíssimo e chocante, cartas trocadas com outros escritores, que mostram a afinidade que os escritores tinham com as ideias nazistas e com a defesa do Ku Klux Klan, uma espécie de seita americana que tinha o objetivo de excluir e dizimar a raça negra:

Uma ideia unia Monteiro Lobato, Renato Kehl e Arthur Neiva. Os três eram adeptos de um conceito esdrúxulo chamado eugenia. A ideia, surgida na França na metade do século 19 e sistematizada pelo médico François Galton, era definida pelo próprio como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer qualidades raciais das futuras gerações, física ou mentalmente” – e na prática representava, entre outras coisas, uma exaltação da superioridade da raça “branca” em relação às outras. Ou seja, racismo. 
Ele tocou várias vezes, por exemplo, no tema da Ku Klux Klan, o grupo fundado logo após o fim da Guerra Civil Americana (1861-1865) no estado do Tennessee e que tinha como principal objetivo impedir a integração social dos negros recém-libertados – proibindo-os, por exemplo, de adquirir terras e também promovendo assassinatos traiçoeiros como uma forma de “higiene racial”. Escreve Lobato a Neiva, em 1938: “Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”.

O Conselho Federal de Educação classificou a obra de Monteiro Lobato como racista, mas o Ministério da Educação vetou o parecer, mas houve alguns estados do Brasil que excluíram suas obras da grade curricular. Independente dos seus pensamentos (lamentáveis, claro) a obra do escritor é um retrato social da época, além de ter sim um grande valor literário. As histórias do Sítio do Pica- pau Amarelo estão acima de qualquer ideologia ou pensamento político. A Arte tem que estar acima disso tudo, afinal, que grande escritor passaria no teste da moralidade? Que devemos fazer, encerrar num porão toda a produção cultural que não for politicamente correta? A minha resposta é não, apesar de achar Lobato um sujeito desprezível. A data de hoje é uma comemoração agridoce, talvez não seja muito adequada tal honraria para um sujeito que desprezava os negros e os considerava inferiores num país de maioria negra. Eu mudaria essa data sim, retiraria a homenagem, mas não a sua obra, essa nunca deve ser proibida.

E você, que acha dessa polêmica toda?