Meu querido canibal/ Mi querido caníbal, de Antônio Torres


Bons livros são sempre excelentes companhias.

Antônio Torres (Sátiro Dias, 13 de setembro de 1940) nos apresenta, com muita erudição, “Meu querido canibal” (na Espanha: “Mi querido canibal”), conhecimentos profundos sobre o Brasil em fase de colonização. Um livro perfeito para professores de literatura, artes e história fazerem um trabalho conjunto, excelente para ser dramatizado. Nesse livro o índio é o protagonista. “Meu querido canibal” é vivo, rico em informações, com movimento e repleto de reflexões a modo de ensaio, além de muitas curiosidades que, possivelmente, a maioria dos leitores nunca ouviu falar. Exemplo do embaixador da França em Portugal naquele tempo*:

Jean Nicot: de ahí la palabra nicotina, ‘nicotiana tabacum’, que viene de Nicot. (p.38)

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Foto: Rascunho, do jornal Gazeta do Povo

Essa obra começa assim “Era uma vez”, como se fosse um conto de ficção, que poderia ser, mas é a nossa história. “Meu querido canibal” é um livro histórico que convence, que nos aproxima à verdadeira realidade da colonização do Brasil, muito mais que aquela contada às crianças da minha geração, espero que não mais. Aprendemos na escola (as nascidas na década de 70 e as outras anteriores também, suponho) que os portugueses eram os heróis, o padre José de Anchieta era tão bonzinho! Os índios eram selvagens e primitivos, precisavam ser domados, catequizados e tinham que aprender a língua portuguesa. Não nos contaram sobre o extermínio e a escravização indígena pelos portugueses e espanhóis, não nos contaram o Brasil já tinha sido “descoberto” há milênios, que os índios eram povos organizados, inteligentes e que lutaram para defender sua gente e suas terras, tinham cultura própria e viviam em comunidades auto- sustentáveis em harmonia com a natureza; também pouco se falou da tentativa falida de colonização francesa. Os índios eram pintados com tintas de inferioridade.

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Esses brasileirinhos de pura estirpe, essas fofuras, são índios do Amazonas

 O índio Cunhambebe, apresentado no livro como o primeiro herói do Brasil, sujeito com dois metros de altura (coisa rara num índio) e quatorze mulheres, temido pelos portugueses, respeitado por todos, tinha uma voz potente, talvez pela ingesta massiva de cinco mil inimigos. Cunhambebe chamava os portugueses de “perós” (ferozes), ele  gostava dos franceses, porque não eram tão violentos como os portugueses e tentaram integrar- se na sociedade indígena (pelo menos tentaram bastante com a ala feminina), apesar de vê- los (os índios) como animais. O vice- almirante Villegagnon ansiava converter o Brasil num reino francês, a França Antártica, que chegou a existir durante cinco anos:

Los índios le parecieron ‘bestias de apariencia humana’, bichos con forma de personas. (p. 32)

E se o Brasil falasse francês? Nicolas Durand de Villegagnon, mal chegou ao Rio de Janeiro e mandou construir um forte, o Coligny, na Baía de Guanabara. Villegagnon era um homem austero e violento contra os seus próprios homens e contra as índias, que seduzidas pelos seus soldados, eram marcadas a ferro, o que acabou provocando uma fuga massiva dos seus homens, que preferiram o amor das índias à castidade imposta pelo almirante, que acabou tendo que voltar para Europa. Ou seja, o Brasil não fala francês por causa da luxúria francesa (e principalmente, porque foram expulsos e dizimados pelos portugueses).

Cunhambebe resistiu, lutou contra os portugueses, achava melhor morrer a ser escravizado, mas pouca gente ouviu falar nele, seu nome é citado em livros de história com pouca importância e em pequenas notas:

Tenía na fuerza y una estatura y una corpulencia de Cíclope, un valor de bruto obcecado, una dureza y ferocidad de monstruo. En otras condiciones habría dado un Atila, quizá todavía más devastador. Desaparecía con su tribu como si lo tragara la tierra. Nunca se apiadó de ningún portugués. (p. 40)

O capítulo da antropofagia é o que mais me choca, sou muito sensível ao imaginar tal cena. Cunhambebe era extremamente vingativo e devorava seus inimigos numa espécie de ritual que demorava meses, era a tradição da tribo: período de engorda para depois devorá-los gordinhos, os tratavam bem, emprestavam mulheres e tudo. Mas era uma sociedade machista, as mulheres prisioneiras não tinham os mesmos privilégios. E se alguma índia ficasse grávida de branco, o bebê era devorado também, porque tinha sangue do inimigo. Com essa informação já fiquei cismada com Cunhambebe, não gostei muito dele não. Comer bebezinhos é monstruoso para qualquer povo, em qualquer sociedade e em qualquer tempo. Repulsa total a esse tipo de “cultura”. Os inimigos eram executados com danças, como se fosse um carnaval. Canibalismo é sim uma selvageria, é igualar- se aos animais. Não, má comparação: nem os animais  devoram sua própria espécie. Estaria tão errada, portanto, a qualificação de “selvagens” dada pelos portugueses aos indíos do Brasil na época da colonização? Não, está correta. Os indígenas eram desprovidos de qualquer tipo de moral ou ética parecidas às que conhecemos. Em sociedades africanas também é cultural mutilar os genitais femininos, outra selvageria; em sociedades árabes, mulheres adúlteras são apedrejadas até a morte, outra selvageria. Esses episódios considerados “culturais” são abomináveis. O problema é que os portugueses eram selvagens também, porque os matavam com crueldade, a ordem era exterminar quem colocasse obstáculos aos seus objetivos, esqueceram da moralidade católica- cristã, do civismo e civilidade, sabiam que era errado, mas ainda assim fizeram por ganância, por dinheiro, pelo poder, porque era também a “cultura” na época, consideravam os índios animais- mas eles esqueceram de contar essa parte.

As tribos brasileiras unificaram- se para lutar contra os portugueses, formaram a “Confederação dos Tamoios”, que durou 12 anos e foi organizada por Aimberê. Cunhambebe era o chefe de todos, mas não morreu em combate, morreu por uma epidemia junto com outros 300 índios, provavelmente por carne humana em má estado, contaminada. O gigante derrubado por uma bacteriazinha…que pena morrer assim!

O jesuíta José de Anchieta foi um dos responsáveis pela derrota final dos índios e Araribóia foi um índio miserável, traidor, foi determinante para o êxito luso contra a sua gente, ficou do lado dos brancos, vestia- se como eles, ganhou terras e até mudou de nome: Martim Afonso.

Os fatos históricos são muito relativos, podem ter várias versões, depende de quem conta, não são verdades absolutas, e essas “verdades” tão particulares são repassadas de geração em geração, não sendo necessariamente a exata realidade (se é que isso existe). No caso dos cronistas portugueses, franceses, espanhóis, as narrações podem ter mil e umas interferências por conta de interesses, crenças, interpretações, que podem ter modificado os fatos. Tudo o que está escrito vira ficção, uma imitação da realidade. E “Meu querido canibal” é a versão que mais me convenceu até agora, porque conta o outro lado menos conhecido e que parece muito verídico. Nessa guerra, indíos e europeus foram vítimas e algozes. Os índios conheciam as terras, seus segredos e venenos, estavam em maior número, mas os portugueses tinham canhões (lembram da Guerra do Vietnã? Os vietnamitas conseguiram resistir e vencer os americanos, com muito mais recursos bélicos que eles, porque tinham esses recursos que os americanos não dominavam). Aconteceu com todos os países colonizadores e colonizados. Muitos brasileiros sentem raiva dos portugueses, mas era a “cultura” européia na época, era o modo de vida do povo europeu naquele tempo, o de desbravar e conquistar territórios custasse o que custasse, além do mais, somos o que somos (os brasileiros), por causa deles também. Não acho saudável o ressentimento histórico. O que ficou para trás não tem mais conserto, mas o que se faz hoje em dia, sim. Dois episódios recentes, o da Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, onde 20 índios serão desalojados do terreno ao lado do estádio; ou a situação muito mais grave dos índios Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul, que são 45 mil e iriam ser expulsos das suas terras ancestrais. Depois de ameaças de suicídio coletivo e uma grande mobilização nas redes sociais, tudo indica que não serão despejados (por enquanto). Em pleno ano de 2013, parece que ainda não há lugar para os índios nesse imenso Brasil, eles sobraram em 1500 e continuam sobrando agora… e os portugueses já não mandam  no Brasil desde 1822. E agora, a culpa é de quem? A história, a memória, servem para isso: para não cometer os mesmos erros do passado.

 Não vou contar mais, agora é com vocês! Esse livro me fez refletir, conhecer e desfrutar bastante. Recomendadíssimo!

Veja essa excelente entrevista concedida por Antônio Torres, feita por Edney Silvestre para a Globo News, onde o autor fala sobre “Meu querido canibal” e sobre a literatura histórica.

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Torres, Antônio. Mi querido caníbal. Poliedro, Barcelona, 2003.

190 páginas.Tradução: José Luis Sánchez

*Conservei as citas em espanhol como curiosidade, para que os leitores lusos vejam como ficou o livro na Espanha, além de dar uma oportunidade aos buscadores virtuais hispano- falantes de encontrarem essa obra brasileira em espanhol.