Não se mate, Carlos Drummond de Andrade


Uma das fotos de Drummond que mais gosto. Drummond jovem:carlos-drummond-de-andrade

Tão difícil escrever o amor, mas ele era Carlos Drummond de Andrade. A inconstância, o desconcerto, o desespero, o desejo de amar, o desamor, a inquietude, num grito abafado…tudo isso é o amor em Drummond:

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

in “Reunião – 10 livros de poesia”. São Paulo: José Olympio, 1969. p. 26

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