O homem que queria eliminar a memória


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 O conto “O homem que queria eliminar a memória” foi usado numa das questões do vestibular da UNESP em 2012. O texto é interessante, nos faz pensar e refletir sobre a memória, o tempo e suas consequências. As lembranças de perdas, de traumas, de dores, essas são ruins por si mesmas; mas as lembranças boas também provocam sensações negativas: uma infância feliz, o primeiro amor, a juventude, a beleza, qualquer coisa boa que tivemos e perdemos provocam melancolia, saudade, e esses sentimentos são doloridos. A perda da memória eliminaria isso tudo, e consequentemente, a dor. Mas, claro, a memória tem sua utilidade prática, que nem preciso explicar. Uma pessoa sem memória é uma pessoa sem história, sem experiência, uma tábula rasa. A dor também é necessária,  o sofrimento faz parte da existência, por pior que seja, a dor também nos ensina e humaniza. Leia o texto:

(…)
Estava na sala diante do doutor. Uma sala branca, anônima. Por que são sempre assim, derrotando a gente logo de
entrada?
O médico:
— Sim?
— Quero me operar. Quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro.
— Um pedaço do cérebro? Por que vou tirar um pedaço do seu cérebro?
— Porque eu quero.
— Sim, mas precisa me explicar. Justificar.
— Não basta eu querer?
— Claro que não.
— Não sou dono do meu corpo?
— Em termos.
— Como em termos?
— Bem, o senhor é e não é. Há certas coisas que o senhor está impedido de fazer. Ou melhor; eu é que estou impedido
de fazer no senhor.
— Quem impede?
— A ética, a lei.
— A sua ética manda também no meu corpo? Se pago, se quero, é porque quero fazer do meu corpo aquilo que desejo.
E se acabou.
— Olha, a gente vai ficar o dia inteiro nesta discussão boba. E não tenho tempo a perder. Por que o senhor quer cortar
um pedaço do cérebro?
— Quero eliminar a minha memória.
— Para quê?
— Gozado, as pessoas só sabem perguntar: o quê? por quê? para quê? Falei com dezenas de pessoas e todos me perguntaram: por quê? Não podem aceitar pura e simplesmente alguém que deseja eliminar a memória.
— Já que o senhor veio a mim para fazer esta operação, tenho ao menos o direito dessa informação.
— Não quero mais me lembrar de nada. Só isso. As coisas passaram, passaram. Fim!
— Não é tão simples assim. Na vida diária, o senhor precisa da memória. Para lembrar pequenas coisas. Ou grandes.
Compromissos, encontros, coisas a pagar, etc.
— É tudo isso que vou eliminar. Marco numa agenda, olho ali e pronto.
— Não dá para fazer isso, de qualquer modo. A medicina não está tão adiantada assim.
— Em lugar nenhum posso eliminar a minha memória?
— Que eu saiba não.
— Seria muito melhor para os homens. O dia a dia. O dia de hoje para a frente. Entende o que eu quero dizer? Nenhuma
lembrança ruim ou boa, nenhuma neurose. O passado fechado, encerrado. Definitivamente bloqueado. Não seria engraçado?
Não se lembrar sequer do que se tomou no café da manhã? E para que quero me lembrar do que tomei no café da manhã?
(Ignácio de Loyola Brandão. Cadeiras proibidas: contos. Rio de Janeiro: Codecri, 1984, p. 32-34.)

E você, se pudesse eliminaria a memória?

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