“Requiem: uma alucinação”, do italiano Antonio Tabucchi


réquiem
ré.qui.em
sm (lat requiem) 1 Repouso. 2 Liturg Ofício que se faz pelos mortos: Missa de réquiem. 3 Cantochão ou música do ofício de defuntos. (Michaelis)

Antonio Tabucchi (Vecchiano, Pisa, Itália 24/ 09/ 1943 – Lisboa, Portugal 25/ 03/ 2012) foi o italiano mais português que existiu (ele nacionalizou- se português). Tabucchi faleceu no ano passado de câncer, era professor, escritor e tradutor de Fernando Pessoa. O seu último trabalho foi o livro de contos “O tempo envelhece depressa”.

(…) talvez tenha um ataque de melancolia, tenho saudades daqueles tempos em que andávamos assim pela cidade, lembras- te?, naquela época tudo era diferente tudo tinha mais brilho, como se estivesse mais limpo. Era a juventude, disse eu, eram os nossos olhos.” (p. 37)

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Requiem: uma alucinação foi o único livro que Tabucchi escreveu em português. A obra é uma homenagem a Portugal e ao escritor Fernando Pessoa; também podemos ver os diálogos sem pontuação, o que faz lembrar ao grande José Saramago. A gastronomia portuguesa se faz presente em toda a obra, inclusive com receitas tradicionais como o sarrabulho, além de lugares famosos de Lisboa. Comida cura todos os males na cultura lusa?

Todos os medicamentos para a alma são uma porcaria, disse o Tadeus, a alma cura- se com a barriga. (45)

“Tabacaria”, poema de Fernando Pessoa, foi o responsável pela ida de Tabucchi a Portugal há 50 anos: “Se há uma pessoa no mundo escreveu um poema assim, eu quero aprender essa língua”. A língua, a literatura, têm esse poder: o poder de mudar a vida das pessoas. A literatura salva (e mata, às vezes). Veja o vídeo- homenagem de uma tv portuguesa na altura da morte de Tabucchi, onde podemos ouvir o escritor e saber mais da sua história:

Confie em mim: se você ler essa obra não vai se arrepender, é um dos livros mais bacanas, interessantes e bem escritos que li na minha vida! Sinceramente? Não esperava tanto.

A narrativa desenvolve- se ao longo de um dia, de 12 horas, começa com um italiano que falava vários idiomas (o próprio Tabucchi, personagem de si mesmo) que marca um encontro com um grande poeta (sabemos que é Fernando Pessoa) chamado o “Convidado”, tal encontro só vai acontecer no final do livro. O cenário é a Lisboa em pleno verão escaldante. Durante a narrativa, o italiano vai encontrando diversos personagens como se pairasse num sonho, numa alucinação, vai reecontrando pessoas já falecidas e acertando contas do passado. Encontra com o Rapaz Drogado, Tadeus, um velho amigo falecido, o Chauffeur de Táxi, Casimiro e a esposa, donos de um restaurante, o Meu Pai Jovem (que conta a história real do seu pai que estava com câncer na garganta e por um erro médico perfuraram o seu esôfago), o Maître da Casa do Alentejo, o Pintor Copiador, o Revisor do Comboio, entre outros. Todos envoltos numa atmosfera onírica, misturando sonho com realidade.

Já não tenho alma, repliquei eu, agora tenho o Inconsciente, apanhei o vírus do Inconsciente (…) (p. 37)

Nessa edição portuguesa da Dom Quixote, acrescentaram um texto de Tabucchi escrito originalmente em francês em fevereiro de 1998; nele, o escritor explica muitas coisas sobre essa obra, como o sonho que teve com o seu pai, onde o mesmo falava português e a dificuldade de escrever um livro numa língua que não era sua, pois tinha medo que soasse artificial. Não é o caso desse livro, pois o sotaque dele é completamente português.

Adeus e boa noite a todos, repeti. Encostei a cabeça para trás e pus- me a olhar para a lua. (p. 123)

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Tabucchi, Antonio. Requiem: uma alucinação. Dom Quixote, Lisboa, 2006. 154 páginas

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