Casa do Leitor, Madri- Espanha


Eu participei na última terça e quarta- feira (29 e 30 de janeiro) de um curso intensivo  sobre literatura infantil em Madri, Espanha. “Leer sin saber leer” (“Ler sem saber ler”) voltado para o público de 0 a 6 anos. Fiquei absolutamente surpresa com a riqueza literária existente para essa faixa- etária. Literatura para bebês e pais de bebês também. Fascinante. Nesse post só vou mostrar um pouco o local do curso e depois vou contando as minhas descobertas literárias para a turminha. O curso aconteceu na “Casa del Lector”, no centro cultural “Matadero”, que era um antigo matadouro e mercado de gado do princípio do século XX e que manteve suas características originais nos seus 42 edifícios.

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Não se mate, Carlos Drummond de Andrade


Uma das fotos de Drummond que mais gosto. Drummond jovem:carlos-drummond-de-andrade

Tão difícil escrever o amor, mas ele era Carlos Drummond de Andrade. A inconstância, o desconcerto, o desespero, o desejo de amar, o desamor, a inquietude, num grito abafado…tudo isso é o amor em Drummond:

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

in “Reunião – 10 livros de poesia”. São Paulo: José Olympio, 1969. p. 26

O último poema de Carlos Drummond de Andrade


Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 31 de outubro de 1902 – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) escreveu seu último poema no dia 31 de janeiro de 1987, “Elegia a um tucano morto”, que conta a história real de um tucano que Pedro Drummond ganhou da esposa no dia do seu aniversário e que sofreu alguns “acidentes”.

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O ilustre avô escreveu “Elegia a um tucano morto” e presenteou ao neto num almoço. Veja o poema recitado por Pedro, o neto do grande poeta, além de contar a história real do tucano:

http://youtu.be/bbYTioVMSoE

O poema, que é triste, pessimista, belo, mostra a fragilidade da vida:

Elegia a um tucano morto
Ao Pedro

O sacrifício da asa corta o voo
no verdor da floresta. Citadino
serás e mutilado,
caricatura de tucano
para a curiosidade de crianças
e a indiferença de adultos.
Sofrerás a agressão de aves vulgares
e morto quedarás
no chão de formigas e de trapos.

Eu te celebro em vão
como à festa colorida mas truncada
projeto da natureza interrompido
ao azar de peripécias e viagens
do Amazonas ao asfalto
da feira de animais.
Eu te registro, simplesmente,
no caderno de frustrações deste mundo
pois para isto vieste:
para a inutilidade de nascer.

 Andrade, Carlos Drummond de. Farewell (1996). In: Poesia completa.
Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2002, p.1413

 

Curso: Ler sem saber ler (“Leer sin saber leer”) em Madri, Espanha


A Casa do Leitor, um centro cultural em Madri, Espanha, promove nos dias 29 e 30 de janeiro de 2013, o curso “Ler sem saber ler”, para o fomento da leitura entre as crianças. O curso teórico- prático será ministrado por duas especialistas na área, Teresa Corchete e Sara Iglesias, que pertencem ao Centro Internacional do Livro Infantil e Juvenil. 

Eu quero ler - Vc me ajuda

Teresa Corchete em ação (em espanhol):

Amanhã estaremos lá, vamos?!

Dez possíveis candidatos à cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Letras


Com  falecimento do escritor Lêdo Ivo, a cadeira número 10 da ABL ficou vaga. Possíveis candidatos? Quem você aposta? A minha lista de escritores brasileiros que têm mérito para tal honra, pois são gênios da palavra, da arte literária em prosa e verso:

1. Antônio Torres,  mestre em mostrar o nosso Brasil como ele é, numa linguagem que todos podem entender e sentir.

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2. Manoel de Barros, o melhor poeta do Brasil atualmente (minha opinião).

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3. Ignácio Loyola de Brandão, um maravilhoso contador de histórias.

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4. Adélia Prado, porque ABL é muito machista e não dá destaque para as escritoras, Adélia merece, escritora de prosa e verso, tem uma especial sensibilidade, escreve bonito.

o-prado-de-adelia5. Marina Colasanti, outra escritora incrível, torço por ela!

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6. Ferreira Gullar, não é dos meus escritores favoritos, mas é um forte candidato.

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7. Lia Luft, mais um voto pelas mulheres.

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8. Affonso Romano de Sant’Anna, um dos mais completos escritores na atualidade.

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9. Ruy Espinheira Filho, professor, poeta, ensaísta, está entre os melhores escritores brasileiros.

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10. Luís Fernando Veríssimo, escrever humor é das disciplinas mais difíceis, merece por isso.

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O acordo ortográfico entrará em vigor em 2016


Segundo a Academia Brasileira de Letras, o acordo ortográfico só entrará em vigor no Brasil em 2016. A nota da ABL lamenta tal decisão, leia a nota na íntegra:

Adiamento da definitiva entrada em vigor do Acordo Ortográfico frustra projeto da ABL de oficializar o idioma nas Nações Unidas

“A ABL e o adiamento do Acordo Ortográfico

Nas últimas horas de dezembro, quando o ano de 2012 estava terminando, o governo surpreendeu o país com a decisão de adiar para 2016 a entrada em vigor do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Só nos resta lamentar esse retrocesso – como observou o acadêmico Arnaldo Niskier em recente artigo.

Nos primeiros dias de 2013, tão logo a obrigatoriedade da unificação ortográfica passasse a vigorar plenamente, a Academia Brasileira de Letras pretendia iniciar um amplo movimento para que o idioma fosse adotado como língua de trabalho oficial na ONU e outros organismos internacionais. Não haveria mais desculpas para que os fóruns oficiais de política exterior continuassem a passar ao largo de um idioma de mais de 260 milhões de falantes, a pretexto das discrepâncias de grafia entre os países que compõem seu universo. Consequência lógica da simplificação da escrita consagrada no Acordo seria um reconhecimento da crescente importância da lusofonia no cenário internacional e o coroamento natural de um longo processo, amadurecido sem qualquer açodamento.

Convém recapitular suas principais etapas. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi assinado em 1990. Uma criança então nascida já seria hoje um cidadão adulto. No decorrer do extenso período de debates e discussões internas e externas sobre os problemas e as diferentes propostas dessa unificação, tal Acordo foi dissecado por especialistas, aprovado pelo Congresso de diferentes países, sancionado por chefes de estado. Finalmente, o Presidente Lula firmou em 2008 um documento decretando que a partir de 1 de janeiro de 2013 o Acordo entraria definitivamente em vigor no Brasil.

O país a ele aderiu sem traumas e com entusiasmo, desde esse momento em 2008, mesmo sem ser obrigatório e sem que houvesse chegado o final do prazo. Imediatamente, jornais, revistas e livros passaram a segui-lo. Há quatro anos nossas crianças estão sendo alfabetizadas com o uso dessa grafia e lendo livros e revistinhas que seguem essa orientação. Centenas de concursos públicos o adotaram, inclusive o ENEM. Nossas 200.000 escolas o aceitaram – incluindo as do interior – e o fato pode ser atestado na Olimpíada de Língua Portuguesa.

A Academia Brasileira de Letras, por decreto presidencial de 1972, como lembra Niskier, tem, entre nós, “as prerrogativas de ser a última palavra em matéria de grafia”. Ao longo de todos esses anos, jamais negou sua colaboração à sociedade, mas sempre procurou ouvi-la amplamente. O acadêmico Antonio Houaiss, filólogo respeitado no mundo inteiro, dedicou intensos esforços e grande parte de sua vida à cuidadosa construção dessa obra delicada, até ela poder ser amplamente aceita. Seu trabalho foi continuado pelo acadêmico Evanildo Bechara, com idêntica dedicação.

Ao longo desse processo, houve bastante tempo e oportunidade para que os descontentes se manifestassem. É uma pena que tenham deixado para forçar um adiamento unilateral nas últimas horas do prazo. Nem há o que comentar, os fatos falam por si. Só resta mesmo lamentar.”

 

A sala dos livros mortos, de Ignácio Loyola de Brandão


O jornalista e escritor Ignácio Loyola de Brandão (Araraquara, SP, 31 de julho de 1936) é um craque! Sou fã dos seus textos, suas crônicas. A partir de agora quero ler e estudar mais profundamente a sua obra.5918438899_689c1dc64b_zFoto: Nelson Toledo

Uma biblioteca com livros esquecidos, mutilados. Há pessoas que usam livros públicos e os riscam, sujam, arrancam páginas. Usuários de bibliotecas públicas deveriam aprender a respeitar e a amar os livros.  Nessa biblioteca, os livros que não foram lidos por 5 anos e os livros incompletos iam para a sala dos livros mortos:

A sala dos livros mortos

No seu primeiro dia como funcionária daquela biblioteca pública, Ana Lygia foi levada pela diretora para conhecer o prédio. Subiram e desceram escadas, o elevador há muito tinha sido desativado por falta de verba de manutenção, por sorte eram apenas três andares, mais o porão. Secretaria, diretoria e salas e salas repletas de livros em estantes de metal, uma pequena sala de convívio, uma saleta para os jornais. Existia até uma quantidade razoável de volumes, ainda que o acervo estivesse desatualizado em relação à atual literatura brasileira. Quanto à mundial, a atualização era sentida pelos best-sellers, por aqueles que tinham sido os mais vendidos nas revistas semanais. Finalmente, desceram ao porão, havia montes de caixas com doações de livros ainda em fase de estudos, o que valia e o que não valia a pena, porque os doadores em geral entregam à biblioteca o que não querem em casa e o que ninguém quer e não presta para nada.

 Duas saletas com material de limpeza e uma sala com porta de ferro, trancada.

– E aqui?

 – Ninguém entra. É a sala dos mortos.

– Mortos?

– Sim, a sala dos livros retirados de circulação.

 – Retiram? E qual o critério?

– Se em cinco anos ninguém retirou o livro, ele é descartado do mundo dos livros vivos.

– E ficam aqui? Quanto tempo?

– Para sempre.

– Não podem ser doados a outras bibliotecas, ao público? Avisam: quem quiser livros venha buscar? Assim talvez continuem vivos!

 – A lei não permite. É um bem público. Pertence ao patrimônio. É a situação mais complicada que existe, porque a burocracia impede essa doação, é preciso montar um processo jurídico e, como todo processo jurídico, se eterniza. Nem vale a pena, o melhor é esquecer.

 – Posso ver a sala?

– Melhor não entrar. Aliás, tem um problema, a chave foi perdida, para mandar fazer outra monta-se um processo administrativo.

 – Talvez tenha livros interessantes que eu queira ler.

 – Não adianta, a lei diz que devemos inutilizar. Quando o livro vem para cá, tem uma determinada página arrancada, ou duas, uma do começo, outra do final.

 Leitora desde a infância, Ana Lygia lembrou-se do Barba-Azul e do famoso cômodo no qual suas esposas não podiam entrar e quando entravam eram assassinadas. Sua curiosidade aumentou. Ela começou a trabalhar e meses mais tarde foi designada para um plantão de domingo, uma experiência nova. Aconteceu de ser dia chuvoso e ninguém foi à biblioteca. Ana Lygia lembrou-se da sala dos mortos, desceu, experimentou, trancada. Subiu, perguntou a uma auxiliar se sabia onde estava a chave, ela apontou para uma gaveta, disse que ali havia umas cem chaves, talvez fosse uma delas. Ana Lygia colocou-as em uma caixa e desceu. Começou a experimentar uma a uma.

 Algumas ela descartou pelo tamanho, outras entravam, não giravam, ela não forçava, com medo de quebrar. Exercício de paciência. Também, ela não tinha nada a fazer. Finalmente, a chave 83 funcionou. Veio de dentro um cheiro abafado de mofo e umidade, ela abriu totalmente a porta, esperou. Procurou o interruptor e uma luz amarelada inundou o cômodo de fantasmas. Havia pilhas de livros amontoados até o teto. E, em volta, junto à parede, uma coleção de extintores de incêndio. Contou 35, cada um de um modelo, percebeu que alguns eram velhos, outros pré-históricos. Poderiam ser alinhados em um museu, ali estava a evolução dos extintores, os mais antigos enormes, desajeitados, para manobrar aquilo seriam necessárias duas pessoas.

Havia ainda relógios de ponto, alguns estapafúrdios, palavra que ela associou à idade do equipamento. Também fariam o encanto do velho Dimas de Melo Pimenta, um ícone da relojoaria nesta cidade. Ela experimentou mexer nas alavancas, umas travadas pela ferrugem, outras funcionaram com um ruído seco. Quantos teriam sido pontuais, quantos o relógio teria punido? Gostava de imaginar coisas assim, afinal, havia um quê de ficcionista dentro dela, daí sua paixão pelos livros e por ter escolhido a profissão. Ana Lygia percorreu aquele porão empoeirado contemplando escovas, vassouras, rodos, baldes furados, panos de chão podres, latas de cera, tubos de desinfetantes, detergentes, latas com pedacinhos de sabão, escovões. Nossa, há quantas décadas o escovão desapareceu da cena doméstica, quem ainda encera a casa? Tudo que devia ser descartado, porém era impossível, tratava-se de patrimônio.

Afinal, dedicou-se aos livros. Estendeu a mão, curiosa, puxou um. A Menina Morta, de Cornélio Penna. Puxa, esqueceram o Cornélio? Ninguém o leu por cinco anos? Foi folheando, livro grosso, talvez isso tenha assustado. Lendo. De repente percebeu a página arrancada. Apanhou outro livro, A Montanha Mágica, de Thomas Mann. EJosé de Alencar, Lúcio Cardoso, Ibiapaba Martins, Osman Lins, Mário Donato (puxa, fez tanto sucesso nos anos 50), José Geraldo Vieira, John dos Passos, Romain Gary, Malcolm Lowry, Oscar Wilde, Maria Alice Barroso. Todos mutilados. Apanhou um deles, escondeu debaixo da blusa. Levou para casa. Na biblioteca de um amigo encontrou um exemplar completo, digitou a página faltante, colou dentro do volume doente. A cada semana, leva um embora, recupera. Ela imagina que em alguns anos terá recuperado todos. Leva para bibliotecas comunitárias, existem várias. A simples idéia de ver um livro reciclado, ou queimado, a deixa doente.

Mais fácil comprar outro? Sim. Mas e o prazer de salvar um livro?

(Fonte: O Estado de São Paulo – Sexta-Feira, 04 de Julho de 2008)

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