Memorial do convento, José Saramago


(…) morando o riso tão perto da lágrima, o desafogo tão cerca da ânsia, o alívio tão vizinho do susto, nisto se passando a vida das pessoas e das nações. (p. 60)

Engraçado: sinto- me tão próxima de José Saramago, que parece que o conheci pessoalmente. Ler um livro é também entrar no pensamento de alguém. Ainda sinto a sua morte e tenho saudades dele. “Saudades”, para mim, sempre será uma palavra no plural. Saudades no singular não existe em nenhuma hipótese (perdão aos colegas gramáticos, este vocábulo precisa ser revisto). Jorge Amado e José Saramago, adoráveis escritores:

Porque, enfim, podemos fugir de tudo, não de nós próprios. (p. 72)

O português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998, narra nesse livro ambientado na época das cavalarias, a história de um rei e uma rainha com problemas de fertilidade, D. João e D. Maria Ana Josefa da Áustria. O rei fez uma promessa: se a rainha ficasse grávida, construíria um convento de frades na cidade de Mafra; também nos conta a história do soldado mutilado Baltasar Sete- Sóis, que perdeu a mão na guerra entre Espanha e Portugal. O homem apaixona- se por Blimunda Sete- Luas, uma jovem de olhos cinzas de 19 anos, cuja mãe foi desterrada para Angola pela Santa Inquisição, porque tinha poderes paranormais. Blimunda comia pão antes de abrir os olhos quando acordava, porque em jejum, ela podia ver as pessoas por dentro. E ainda, o padre Bartolomeu Lourenço que sonhava em voar, que queria aprisionar o éter que sustenta as estrelas, mas descobriu que, na verdade, ele podia voar só com a vontade. Ele achava que Deus era maneta, tal como Baltasar:

Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua mão direita, à sua mão direita, que sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem nas Sagradas Escrituras (…) (p. 69)

Uma curiosidade: o padre brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão  (Santos, 1685 – Toledo, 18 de novembro de 1724) é um personagem real. Bartolomeu, tal como na história, inventou a “passarola”, essa engenhoca (abaixo) que está exposta no Museu aeronáutico e espacial do Chile:

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Amado e odiado por muitos, Saramago (falecido em 2010) tocou em temas espinhosos como a fragilidade religiosa e os usos e costumes do povo português. Conta- nos sobre o catolicismo hipócrita e coloca Lisboa como uma cidade imunda e o povo “alfacinha” (apelido dado aos lisboetas) simplório, infiel, de uma falsa religiosidade (p.28):

Agora é tempo de pagar os cometidos excessos, mortificar a alma para que o corpo finja arrepender- se, ele rebelde, ele insurrecto, este corpo parco e porco da pocilga que é Lisboa. 

Lisboa cheira mal, cheira a podridão, o incenso dá um sentido à fetidez, o mal é dos corpos, que a alma, essa, é perfumada.

(…) Domingos Afonso Lagareiro, natural e morador que foi em Portel, que fingia visões para ser tido como um santo, e fazia curas usando bençãos, palavras e cruzes, e outras semelhantes superstições, (…) por culpas de solicitar mulheres, maneira canónica de dizer que as apalpava e fornicava, decerto começando na palavra do confessionário e terminando no acto recato da sacristia (…) (p. 52)

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As mulheres na Quaresma ficavam excitadas ao ver passar os penitentes senhores que se auto- lesionam:

(…) enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. (p. 29)

Vejo um Saramago muito bem humorado em “Memorial do convento”, existe um tom cômico, parece divertir- se contando as peripécias das beatas, da rainha católica, espeta os costumes portugueses e ainda debocha do catolicismo:

Se Deus é maneta e fez o universo, este homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão de voar. (p. 69)

Não há em Portugal trigo que baste ao perpétuo apetite que os portugueses têm de pão, parece que não sabem comer outra coisa (…) (p. 59)

Há algumas ideias que fazem lembrar o futuro livro “Ensaio sobre a cegueira”: Amanhã Blimunda terá seus olhos, hoje é dia de cegueira. (p. 164)

Este livro  tem a marca registrada de Saramago: a escrita sem pontuação. Em Memorial do convento, os diálogos estão escritos sem travessão, o que separa a fala de um personagem e outro é uma letra maiúscula. O livro percorre, principalmente, o desejo dos três personagens, Blimunda, Baltazar e o padre Bartolomeu, em contruir uma máquina de voar. Há também o fantástico, a magia, o sonho e uma linda história de amor… nos deixa uma mensagem de que com vontade suficiente tudo pode acontecer.

Porque o que a pele esconde nunca é bom de ver- se. (Blimunda, p. 80)

Saramago, José. Memorial do convento, Lisboa, Caminho, 42ª edição. 373 páginas

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