Anotações sobre o livro “Essa terra”, de Antônio Torres


Foi então que comecei a me sentir perdido, desamparado, sozinho. Tudo o que me restava era um imenso absurdo. Mamãe Absurdo. Papai Absurdo. Eu Absurdo. ‘Vives por um fio de puro acaso’. E te sentes filho desse acaso. A revolta, outra vez e como sempre, mas agora maior e mais perigosa. Não morrerás de susto, bala ou vício. Morrerás atolado em problemas, a doce herança que te legaram. (p. 168)

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Juracy Dórea, “Histórias do Sertão III” – carvão e PVA s. placa, 1983

Essas anotações são de um dos meus livros favoritos, porque ele me faz rir e chorar: “Essa terra”, do baiano Antônio Torres, publicado pela primeira vez no ano de 1976.

Antônio Torres (Sátiro Dias, Bahia, Brasil, 13-09-1940) escritor e jornalista, é um dos melhores autores da nossa língua portuguesa na atualidade. O amável escritor tem até um perfil no Facebook. O escritor tem uma publicação na Espanha, você pode comprar o livro “Mi querido canibal” na Casa del Libro, por exemplo. Os meus exemplares em português foram comprados em Portugal pessoalmente e também na Wook, uma livraria online muito confiável. No Brasil, você pode consultar na web de Antônio Torres todas as livrarias que vendem sua obra, inclusive e-books.

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                                                       Adeus.
                                                      Desatem a corda.
                                                      Danem- se sozinhos. (p.43)
 

O cenário de “Essa terra” é uma pequena população na Bahia, o “Junco” (hoje, Sátiro Dias). Junco entrou no mapa pelas mãos do “deputado federal dr. Dantas Junior”, “Junco agora era uma cidade, leal e hospitaleira.” (p. 10) São Paulo, Alagoinhas e Feira de Santana são cidades coadjuvantes. Antônio Torres narra a história de uma família humilde do Junco, casal com doze filhos, que tinha uma roça, mas perdeu tudo. Um dos filhos, Nelo, foi viver em São Paulo, voltou anos depois e suicidou- se pendurado numa corda. O irmão de Nelo num mau presságio:

A alpercata esmaga minha sombra, enquanto avanço num tempo parado e calado, como se não existisse mais vento no mundo. Talvez fosse um agouro. Alguma coisa ruim, muito ruim, podia estar acontecendo. (p. 12)

Pronto. Eu nunca mais iria querer subir por uma corda até Deus. (p.13)

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Sátiro Dias, Bahia

A narrativa é cheia de imagens belas e tristes, que nos transportam às paragens baianas, de sol tórrido e de gente sofrida, engraçada e “desbocada”. A narrativa recolhe a linguagem oral do povo do Junco, que é sui generis. Esse povo baiano no livro é trabalhador, cheio de arte, humor, mas também encontramos a traição, o racismo, o preconceito, o machismo, a violência doméstica, o alcoolismo, a loucura, a intolerância política e religiosa no desenrolar da história. Como dizia André Gide, “não se pode fazer boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos.” Concorda? Uma das traições:

IMG_7921O mestre Antônio Torres toca em sentimentos comuns a todos: a dor, a perda, a luta pela sobrevivência diária, os dramas pessoais e psicológicos. Gostei muito de ter tido a possibilidade de entrar no pensamento dos personagens, pois todos eles têm espaço para contar as suas mazelas em “Essa terra”.

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É um livro que corre fácil e que dá muita pena quando acaba. Uma obra indispensável para os amantes da literatura brasileira (e para quem não, também). Antônio Torres, como o mestre da linguagem que é, conseguiu captar a alma das pessoas, não digo do povo baiano, porque a própria Bahia “são muitas”. Antônio Torres ultrapassa a fronteira das naturalidades, qualquer um pode se identificar e empatizar com os personagens de “Essa terra”. Um dos trechos mais emocionantes, que sempre me escapam umas lágrimas, é quando Nelo apanha da polícia em São Paulo, porque corre atrás do ônibus que leva a esposa e filhos. Foi confundido com um ladrão, espancado e humilhado. Enquanto apanha vê imagens do Junco, do pai…

Uma narrativa que toca na dor do migrante, que sai do conforto de tudo o que é conhecido em busca de utopias, quase sempre. E das famílias que vão se desmanchando, desmoronando… as despedidas, que levam a dor e a esperança consigo: “Olhar para trás era perder tempo.” (p.100)

Mundo Novo adeus
adeus minha amada.
Eu vou pra Feira de Santana
Eu vou vender minha boiada.
 

No capítulo “Essa terra me enlouquece” (da p. 103 a 109) é de puro lirismo, uma obra- de arte de uma beleza ímpar (recomendo prestar atenção). E o doido, o doido Alcino, o doido de todas as praças a dizer verdades…

 “O que eu acho é que os parentes são nossos primeiros inimigos (…)” (p.113)

Será que a capa foi inspirada em Pedro Infante, o dono do bar, que só andava de guarda- chuva para proteger- se do sol?

6780154g1Torres, Antônio. Essa Terra. 16ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2004. 188 páginas

E aí, vai ler?

Tudo tem um fim. Nascemos, crescemos e nos acabamos. O que restou? A saudade. Assim nos vemos. Quietos, calmos, encobertos por milhões de mandamentos que nos impedem de dizer o que somos.” (p.105)

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Contos de Natal


Sim, criança tem que ganhar brinquedo no Natal, mas também deveria ganhar um livro. O resultado pode ser uma surpresa agradável, os livros agradam muito mais do que os pais podem imaginar. Livro é um mistério para os pequenos que eles querem desvendar, são lúdicos e divertidos. Os pais são os primeiros responsáveis, antes que a escola, de formar os pequenos grandes leitores. O exemplo e incentivo são fundamentais.

Quem sabe, entre a ceia, o amigo- secreto e a troca de presentes, exista um momento da noite ou do dia de Natal para reunir a criançada e ler um conto de Natal…que tal fazer um Natal um pouco diferente?

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Os contos, as lendas, as fábulas geralmente deixam mensagens para refletir, que emocionam, que nos fazem estar atentos às coisas fundamentais da vida, como o amor, o esforço pessoal, a retidão de caráter, a caridade e a solidariedade…os contos natalinos são escritos para educar, sonhar e ter esperança. Que tal ler ao menos um trecho de “Um conto de Natal”, de Charles Dickens, por exemplo?

Aqui deixo uma história de Natal da Turma da Mônica:

Feliz Natal!

Falece na Espanha o poeta Lêdo Ivo


Esse é o tipo de post que não gostaria de escrever. Faleceu nessa madrugada em Sevilha (Espanha), o poeta brasileiro Lêdo Ivo (Alagoas, Maceió, 18 de fevereiro de 1924- Sevilha, Espanha, 23 de dezembro de 2012). Ele começou a passar mal depois do almoço de ontem, foi levado para o hospital, mas não resistiu, provavelmente de um enfarte.

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Minha filha, o grande poeta e eu. Um dia emocionante, que nos deixou lindas lembranças. 

Estive com ele no ano passado, na apresentação do seu livro “Calima”, onde tive a honra de conversar com o poeta que é membro da Academia Brasileira de Letras. Muito gentil, carinhoso, disse que a minha filha parecia uma “pintura de Velásquez”, frase que jamais irei esquecer.

O coração pregou- lhe uma peça. Ele que também falou da fugacidade das coisas no seu livro “Calima”:

Coração presunçoso

De nada adianta

negar a verdade.

Não temos passagem

para a eternidade

 

O mormaço avança

e envolve a cidade.

Tudo é provisório.

Nada é realidade. (…)

Descanse em paz, mestre! Já estamos sentindo saudades…

“A maior flor do mundo”, história infantil de José Saramago



E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? 
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar? (José Saramago)

José Saramago escreveu essa linda história infantil (que ele disse que não sabia escrever), ” A maior flor do mundo” nos conta a história de um menino que não mediu esforços para salvar uma flor que estava morrendo e esse gesto foi enorme! Clique aqui para ler o livro na íntegra.

a maior flor do mundoTambém fizeram uma animação com a história, que foi narrada pelo próprio José Saramago, mas eu gostei muito mais da história escrita. Vejam e comparem com o livro depois:

Memorial do convento, José Saramago


(…) morando o riso tão perto da lágrima, o desafogo tão cerca da ânsia, o alívio tão vizinho do susto, nisto se passando a vida das pessoas e das nações. (p. 60)

Engraçado: sinto- me tão próxima de José Saramago, que parece que o conheci pessoalmente. Ler um livro é também entrar no pensamento de alguém. Ainda sinto a sua morte e tenho saudades dele. “Saudades”, para mim, sempre será uma palavra no plural. Saudades no singular não existe em nenhuma hipótese (perdão aos colegas gramáticos, este vocábulo precisa ser revisto). Jorge Amado e José Saramago, adoráveis escritores:

Porque, enfim, podemos fugir de tudo, não de nós próprios. (p. 72)

O português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura em 1998, narra nesse livro ambientado na época das cavalarias, a história de um rei e uma rainha com problemas de fertilidade, D. João e D. Maria Ana Josefa da Áustria. O rei fez uma promessa: se a rainha ficasse grávida, construíria um convento de frades na cidade de Mafra; também nos conta a história do soldado mutilado Baltasar Sete- Sóis, que perdeu a mão na guerra entre Espanha e Portugal. O homem apaixona- se por Blimunda Sete- Luas, uma jovem de olhos cinzas de 19 anos, cuja mãe foi desterrada para Angola pela Santa Inquisição, porque tinha poderes paranormais. Blimunda comia pão antes de abrir os olhos quando acordava, porque em jejum, ela podia ver as pessoas por dentro. E ainda, o padre Bartolomeu Lourenço que sonhava em voar, que queria aprisionar o éter que sustenta as estrelas, mas descobriu que, na verdade, ele podia voar só com a vontade. Ele achava que Deus era maneta, tal como Baltasar:

Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua mão direita, à sua mão direita, que sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem nas Sagradas Escrituras (…) (p. 69)

Uma curiosidade: o padre brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão  (Santos, 1685 – Toledo, 18 de novembro de 1724) é um personagem real. Bartolomeu, tal como na história, inventou a “passarola”, essa engenhoca (abaixo) que está exposta no Museu aeronáutico e espacial do Chile:

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Amado e odiado por muitos, Saramago (falecido em 2010) tocou em temas espinhosos como a fragilidade religiosa e os usos e costumes do povo português. Conta- nos sobre o catolicismo hipócrita e coloca Lisboa como uma cidade imunda e o povo “alfacinha” (apelido dado aos lisboetas) simplório, infiel, de uma falsa religiosidade (p.28):

Agora é tempo de pagar os cometidos excessos, mortificar a alma para que o corpo finja arrepender- se, ele rebelde, ele insurrecto, este corpo parco e porco da pocilga que é Lisboa. 

Lisboa cheira mal, cheira a podridão, o incenso dá um sentido à fetidez, o mal é dos corpos, que a alma, essa, é perfumada.

(…) Domingos Afonso Lagareiro, natural e morador que foi em Portel, que fingia visões para ser tido como um santo, e fazia curas usando bençãos, palavras e cruzes, e outras semelhantes superstições, (…) por culpas de solicitar mulheres, maneira canónica de dizer que as apalpava e fornicava, decerto começando na palavra do confessionário e terminando no acto recato da sacristia (…) (p. 52)

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As mulheres na Quaresma ficavam excitadas ao ver passar os penitentes senhores que se auto- lesionam:

(…) enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. (p. 29)

Vejo um Saramago muito bem humorado em “Memorial do convento”, existe um tom cômico, parece divertir- se contando as peripécias das beatas, da rainha católica, espeta os costumes portugueses e ainda debocha do catolicismo:

Se Deus é maneta e fez o universo, este homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão de voar. (p. 69)

Não há em Portugal trigo que baste ao perpétuo apetite que os portugueses têm de pão, parece que não sabem comer outra coisa (…) (p. 59)

Há algumas ideias que fazem lembrar o futuro livro “Ensaio sobre a cegueira”: Amanhã Blimunda terá seus olhos, hoje é dia de cegueira. (p. 164)

Este livro  tem a marca registrada de Saramago: a escrita sem pontuação. Em Memorial do convento, os diálogos estão escritos sem travessão, o que separa a fala de um personagem e outro é uma letra maiúscula. O livro percorre, principalmente, o desejo dos três personagens, Blimunda, Baltazar e o padre Bartolomeu, em contruir uma máquina de voar. Há também o fantástico, a magia, o sonho e uma linda história de amor… nos deixa uma mensagem de que com vontade suficiente tudo pode acontecer.

Porque o que a pele esconde nunca é bom de ver- se. (Blimunda, p. 80)

Saramago, José. Memorial do convento, Lisboa, Caminho, 42ª edição. 373 páginas

Crie seu próprio blog literário


Uma forma gostosa e interativa de anotar tudo o que lemos é a criação de um blog literário. Serve como memória, como troca de ideias e uma maneira de conhecer gente que gosta do mesmo que você: literatura. É também uma forma barata de divulgar seu trabalho literário, uma boa plataforma para escritores(as) novatos(as).

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Há infinidade de blogs literários pela rede, una- se a essa corrente de amantes da literatura.

Você conseguiu cumprir a sua meta de leitura para 2012?


Eu não, consegui ler muito menos do que pretendia, mas na verdade, isso é bem imprevisível. Há livros que amarram, que precisam de mais tempo e concentração; também há outras obrigações, trabalho, família, filhos, estudo…enfim, minha lista vai ficar entre 19 ou 20 livros até o final do mês, menos que em 2011 que foram 22 livros.

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Ler é muito pessoal, a velocidade da leitura também. Há leitores e leitores. Há leitores que passam o olho, que viram página sem fazer a leitura completa; há leitores que lêem o final da história logo no princípio; há leitores que saboreiam cada palavra, que não deixam passar nada, que mastigam o livro inteiro. Há leituras profundas e leituras superficiais. Há quem leia lento e mal, há quem leia veloz e muito bem, ou o contrário.  Há quem goste dos clássicos, outros só de best- sellers; há leitores que colecionam livros, outros só pegam emprestado. Há os que riscam as páginas e outros leitores que gostam de ter seus livros imaculados. Há os leitores caçadores de autógrafos e os que não ligam o mínimo pra isso. Há os leitores- escritores, os leitores ocasionais, os leitores iniciantes, os leitores enciclopédicos. Há leitores amantes de bibliotecas, outros de livrarias. Há leitores que fazem da leitura um verdadeiro ritual, já outros consideram uma moda. Há leitores que levam um livro consigo para todos os lugares e ocasiões, outros só pegam um livro nos fins de semana. Há os leitores noturnos e os matutinos. Todos esses, com um livro na mão só podem sair ganhando. O importante é ler e aprender algo de cada livro.

Que tipo de leitor(a) você é? Como ficou a sua lista de leituras em 2012? A minha por enquanto está assim, veja.