“O último encontro”, Sándor Márai


Você também acredita que o sentido da vida não é outro que a paixão, que um dia transborda nosso coração, nossa alma e nosso corpo, e que depois arde para sempre, até a morte, aconteça o que acontecer? E que se tivermos vivido essa paixão, talvez não tenhamos vivido em vão? Que assim de profunda, assim de malvada, assim de grandiosa, assim de desumana é uma paixão? (p. 186)

Sándor Marai ( Kassa, hoje Eslováquia, 11/ 04/ 1900 – San Diego, E.U.A, 22/ 02/ 1989), escritor e jornalista húngaro. Defensor da liberdade de pensamento, criticou o comunismo no seu país e pagou as consequências por isso. Era muito respeitado na Hungria, mas depois caiu no ostracismo, possivelmente por problemas políticos. Passou por vários países até chegar nos Estados Unidos, onde suicidou- se com um tiro na cabeça. Ninguém consegue ser livre (totalmente).

O protagonista do romance, o general Henrik, recebeu uma carta de Kónrad depois de 41 anos e 43 dias. Eles foram amigos na Academia Militar durante a infância/juventude e Márai conta a história dos dois.

A amizade entre os dois meninos era tão séria e tão calada como qualquer sentimento importante que dura toda uma vida. E como todos os sentimentos grandiosos, também continha elementos de pudor e de culpa. Uma pessoa não pode apropriar- se de uma pessoa e afastá- la de todos os demais sem ter remorso. (p. 38)

O general vivia na mansão de sua fazenda com vinhedos junto com uma empregada de 91 anos que o havia criado e amamentado. Nini era a alma boa e invisível da casa, sempre sorridente e prestativa. Invisível, mas imprescindível, tanto que salvou a vida de Henrik quando ele tinha 8 anos. Ele recordou a sua infância: teve umas febres terríveis, chamaram até um padre para dar- lhe a extrema- unção, mas Nini só com o seu “hálito” o salvou. Ele odiava ficar sozinho, Nini e Kónrad faziam com que ele se sentisse melhor, tossia menos até.

Sua educação- que havia recebido na mansão do bosque em Paris, através de sua mãe, e que levava no sangue- proibia- lhe de falar o que lhe doía, e obrigava- lhe a suportar tudo sem queixar- se. (…) No entanto, ele não podia viver sem ser amado: esta também era sua herança. (p. 40-41)

A amizade dos rapazes já durava quatro anos, faziam tudo juntos, compartilhavam as mesmas roupas e livros. O amor entre os dois começou a incomodar a família de Henrik, mas na Academia Militar os colegas já haviam se acostumado a vê- los juntos. Os moços não permitiam nenhuma brincadeira sobre a amizade deles, pois era algo desinteressado, verdadeiro, altruísta, puro. O tempo todo justificando e negando uma possível relação amorosa entre os meninos/rapazes:

Em toda a comunidade humana tem- se ciúmes desse tipo de relações. (42)

Kónrad era de família muito pobre, seus pais faziam sacrifícios enormes para que o menino estudasse na escola dos ricos. A página 46 é uma ode ao sacrifício paterno, uma beleza de texto, comovente. Formados, os dois jovens oficiais foram morar juntos num apartamento em Viena, como irmãos. Kónrad era diferente, era diferente porque amava a música, a literatura erudita, cuidava da sua família, jantava ovos todos os dias, envelheceu aos 25 anos; Henric, boêmio, farrista, cheirava a cigarro e só lia livros sobre cavalos e viagens:

Como se amavam, perdoavam- se mutuamente seu pecado original: Kónrad perdoava a fortuna de seu amigo e o filho do guarda imperial perdoava a pobreza de Kónrad. (p. 58)

Uma passagem ‘interessante’ é a afirmação do narrador que (…) além das mulheres, dos diferentes papéis, além do mundo, entrevia- se um sentimento mais forte que nenhum outro. Um sentimento que só os homens conhecem. Chama- se amizade. (p. 62)

Só os homens podem ser amigos de verdade? Não há amizade sincera entre mulheres?!

Krisztina, faltava Krisztina, a esposa falecida do general. Kónrad e Henrik já idosos, ambos com 75 anos, iriam se reencontrar para revelar toda a verdade de todas as suas dúvidas e perguntas, que eles mesmos já sabiam as respostas:

Os dois sentiam que o tempo de espera das últimas décadas lhes havia dado forças para viver. Como quando alguém repete o mesmo exercício durante toda a vida. Kónrad sabia que tinha que voltar e o general sabia que aquele momento chegaria algum dia. Isto lhes havia mantido com vida. (p. 72)

Este é um livro de fala de sensações, de sentimentos, recordações, cheiros, do movimento interior, da alma, da felicidade proibida, de remorço. Uma obra que explica o verdadeiro conceito da amizade. Tem uma beleza melancólica, lírica, uma prosa poética. Também é um murro no estômago.

Como foi o reencontro entre os dois amigos depois de mais de quarenta anos? Como foi O último encontro? Agora é com você!

A amizade é uma lei humana muito severa. (p. 127)

A pessoa sempre conhece a verdade, a outra verdade, a verdade oculta atrás das aparências, atrás das máscaras, atrás das diferentes situações que nos apresenta a vida. (p 53)

Em húngaro, estas duas palabras, ‘matança’ e ‘beijo’, ‘ölés’ e ‘ölelés’, são parecidas e têm a mesma raiz. (p. 114)

Márai, Sándor. El último encuentro. Salamandra, Barcelona, 2012. 189 páginas

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