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“Os girassóis cegos” (“Los girasoles ciegos”), de Alberto Méndez


“Superar exige assumir, não passar página ou jogar no esquecimento.” 

A guerra civil espanhola (1936- 1939, e posterior ditadura que durou 37 anos) deixou muita dor e feridas (ainda) abertas. Há literatura variada a respeito, os escritores não deixam o tema cair no esquecimento com histórias baseadas em fatos históricos ou não, que chacoalham a sociedade espanhola. Quem sabe, escrever seja uma forma de diminuir a dor. Acho que Alberto Méndez “assumiu”, não quis passar a página e nem esquecer. Esse livro trata de fatos plantados na memória coletiva, quatro histórias que abrem as feridas. O escritor não teve a oportunidade de colher o grande êxito que teve esse livro, ele faleceu dez meses depois de sua publicação, mas deixou seu recado.

Alberto Méndez nasceu e passou a infância em Madri (27 de agosto- 30 de dezembro de 2004); adolescente, viveu em Roma e retornou à Madri para estudar na Universidade Complutense. Sua obra mais famosa, “Os girassóis cegos”, foi publicada quando o autor tinha 63 anos. Faleceu de câncer em 2004 e foi incinerado pouco tempo antes de virar o ano de 2005.

Alberto Méndez  (foto: El País)

Em “Os girassóis cegos”, Alberto Méndez conta quatro histórias ambientadas na Espanha: a primeira, “Primeira derrota: 1939 ou Se o coração pensasse deixaria de bater”,  assim, com dois títulos. O conto fala do capitão Alegria, que rendeu- se na guerra civil espanhola, na verdade ele desertou.  Entregou- se ao bando contrário, que não acreditou que ele havia desertado e foi considerado um traidor pelo seu próprio bando. Ele tinha uma namorada chamada Inês, escreveu pra ela quando soube que foi condenado à morte por traição ao general Franco, uma carta pouco apaixonada, um lamento (p. 29):

“Não tive tempo para fazer planos porque outros horrores suspenderam o meu futuro, mas tenha certeza que, se tivessem acontecido, você teria sido a coluna vertebral do meu projeto.”

Fuzilado, levou uma bala na cabeça, mas esta não conseguiu perfurar o seu crâneo. Foi enterrado vivo numa vala, sobreviveu por causa das bolsas de ar entre cadáveres e terra, e a própria terra serviu para reter o sangue no seu corpo. Começa a luta de Alegria para sair da sua sepultura e escapar dos inimigos. Uma narração de mestre, que descreve aquele homem nauseabundo, cheio de excrementos e sangue, meio morto, mas que ainda sentiu vontade de sorrir quando uma idosa colocou um pouco de água na sua boca. O ser humano é uma fonte de esperança, mesmo em situações extremas poucos desistem da vida, mesmo quando a morte parece um bálsamo. No final, a verdadeira derrota: a luta vã, a guerra inútil, sem vencedores nem vencidos, todos perdem.

A segunda história: Segunda derrota: 1940 ou Manuscrito encontrado no esquecimento” é um murro no estômago, é forte, é dura, é triste, emociona…um manuscrito encontrado que conta a história de uma família socialista que fugia dos fascistas que haviam acabado de ganhar a guerra na Espanha. O pai e o filho bebê foram encontrados mortos, abraçados numa espécie de ninho num refúgio na montanha entre Asturias e León. Elena, a mãe, morreu antes, no parto; o pai desistiu de viver e também pensou em deixar o bebê morrer. A carta encontrada muitos anos depois conta em 1ª pessoa o dilema do homem que não tem opção diante da morte iminente. Ele só tem que escolher entre morrer lentamente com o filho, ou acabar com tudo rapidamente. O cadáver da mulher morta há três dias e o bebê recém- nascido que chora de fome, de frio, mas resiste, a vida com toda a sua força. A falta de alimentos, o inverno duro que chega, a neve e a sensação de derrota. O pai, se tivesse ganhado a guerra, não teria condenado ninguém, era um poeta. Ele anotava seus pensamentos num caderno, era uma forma de matar a solidão. Economizava o lápis, o único. O medo, o desespero (p. 49):

“Só tenho o medo que tanto medo me dava. Tenho medo que o menino adoeça, tenho medo que morra a vaca a qual mal alimento desenterrando as raízes e a pouca grama que a neve surpreendeu ainda viva. Tenho medo de adoecer. Tenho medo que alguém descubra que estamos aqui em cima da montanha. Tenho medo de tanto medo. Mas o menino não sabe. Elena!

Sem alimento, a vaca, o bebê e o homem, até então sem nome, foram ficando muito fracos. O bebê, que ganhou o nome de Rafael como o seu avô, perdeu também a guerra. O “homem”, o que escreveu essa espécie de diário, era um rapaz de 18 anos, um poeta que havia saído do seu povoado com apenas 16 anos para lutar na guerra civil.

Se chamava Eulalio Ceballos Suárez (…) creio que essa não é idade para tanto sofrimento.” (p. 57)

Em a “Terceira derrota: 1941 ou O idioma dos mortos”, o professor de chelo Juan Senra  Sama, maçon, comunista, nascido em Miraflores de la Sierra (comunidade de Madri) é um prisioneiro e está sendo julgado por um tribunal de guerra. Vai ser condenado à morte quando diz que conheceu o filho do coronel Eymar, falou com ele muitas vezes até o dia em que Miguelito foi fuzilado.

Nos primeiros meses, quando ainda o frio estava fora dos ossos, havia sempre alguém que, com a cara entre as grades da janela que dava ao pátio, gritava: “viva a República!(…) Adeus companheiro, adeus, amigo. Te vingaremos. No entanto, pouco a pouco, esses gestos foram apagando- se , fizeram- se escuros como foi escurecendo a alvorada.” (p.65)

Juan passou uma segunda vez pelo tribunal, dessa vez para ser interrogado pela mãe do coronel sobre o seu filho fuzilado, que não era um preso de guerra, mas sim um assassino e ladrão, por isso foi preso e condenado à morte. Juan não contou a verdade, inventou uma história piedosa e dessa forma, conseguiu manter- se vivo. Voltou à cela mais uma vez, nessa que ninguém voltava com vida. Juan era enfermeiro e o colocaram numa cela com outro preso para que o mantivesse vivo até o dia seguinte, dia do seu fuzilamento. Era o redator- chefe de um jornal socialista. Quem tem culpa de uma guerra senão os próprios implicados? Diálogo entre os dois (p. 83):

– Somos um povo maldito, não acha?

– Não. creio que não somos um povo maldito. Isso seria colocar a culpa em outros.

Juan escrevia uma carta ao seu irmão, carta essa que nunca conseguia terminar e que provavelmente, seu irmão nunca receberia (p. 86):

Continuo vivo. Não quero contar o tempo e nem falar- te do que passa ao meu redor (…)

Entre os presos havia um homem envelhecido e sempre calado, com uma enorme cicatriz no rosto, era Carlos Alegria (o personagem do primeiro conto). Ele começou a gritar e chamar os carceleiros, como nunca havia feito antes. Os guardas chegaram com seus fuzis, empurrando- o. Alegria conseguiu arrancar o fuzil do guarda, apontou a arma contra a própria cabeça. Não aguentava mais o sofrimento (p. 90):

“Disparou para romper aquele silêncio, para pagar a sua dívida.”

Juan também cansou, cansou de mentir para continuar vivo. Cansou de mentir ao coronel e sua mulher sobre o filho bandido do casal, fazendo- o passar por herói. Um dia ele disse toda a verdade, preferiu morrer.

A quarta e última história, “Quarta derrota: 1942 ou Os girassóis cegos”: há três narradores nessa história: o padre, Lorenzo adulto e um narrador- observador. O cenário é o da pós- guerra na Espanha, onde a escassez de alimentos e o medo pairavam no ar. Um padre que era professor de uma escola infantil confessa numa carta; Lorenzo, que foi seu aluno, recorda sua infância difícil, onde era perseguido pelo professor (p. 112):

” Mas de todas as recordações, a que prevalece é a que eu tinha um pai escondido no armário.”

 O padre Salvador apaixonou- se pela mãe do seu aluno rebelde, que recusava- se a cantar o hino da Espanha, uma ode ao fascismo do General Franco. O sacerdote confessa:

 “Reverendo padre, estou desorientado como os girassóis cegos.” (p. 105)

“Agora compreendo a frase de Eclesiastes: o olhar de uma linda mulher sem virtude, queima como fogo. Eu ignorei então que assim nasceu o meu desvario.” (p. 113)

Ricardo Mazo, pai de Lorenzo, era um clandestino no seu próprio apartamento. Evitava aparecer nas janelas. Ele queria fugir para a França, mas sua filha mais velha Elena (lembram da Elena do segundo conto?!) fugiu com um poeta adolescente no final da guerra e jamais souberam nada dela. Elena, a mãe, temia que o marido desaparecesse como a filha. Viviam entre sussurros e na penumbra. O padre começou a perseguir Elena, descobriu tudo sobre a família, que o desaparecido Ricardo era professor de literatura e anti- fascista, que a filha havia desaparecido, que as crianças nunca tinham sido batizadas: uma família atéia e comunista. A polícia começou a interrogar Elena e seu marido escondido sofria.

Que alguém queira  me matar não pelo que eu fiz, mas pelo que eu penso…e, pior, se quero pensar o que penso, terei que desejar que morram outros pelo que pensam. Não quero que nossos filhos tenham que matar ou morrer pelo que pensam. (p. 129)

O padre foi o algoz dessa família.

De verdade, de verdade…ninguém ganhou a guerra civil espanhola. Todos foram perdedores. A guerra continuou mesmo depois do fim da guerra. Começou o pior: a perseguição e morte de pessoas pelo que pensavam e essa é a pior forma de prisão e condena. É inacreditável que isso tenha acontecido há tão pouco tempo na Espanha…

O livro ganhou uma versão muito boa para o cinema na Espanha em 2008, com bastante êxito de bilheteria, dirigida por José Luis Cuerda:

Um livro com histórias dramáticas, mas que o escritor não apela, não usa o dramatismo exagerado pra chocar, as imagens que o autor usa são exatas, o poder da sua narrativa enxuta, perfeita, faz todo o trabalho. As histórias se entrelaçam magistralmente. Este livro é uma obra- prima, recomendo! É bonito, é bonito demais ver um livro bem escrito.

Méndez, Alberto. Los girasoles ciegos, Anagrama, Barcelona, 2009. 156 páginas

PS:eu li uma edição em espanhol, as traduções dos trechos retirados da obra são minhas, portanto, você pode encontrar diferenças em edições em português.

PS2: fiquei pensando na forma depois da leitura do livro…creio que é um romance, apesar dos textos serem separados por títulos diferentes. Os personagens das quatro histórias fazem parte da lógica universal do livro. É um texto único, apesar de dividido.

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