“Iaiá Garcia”, Machado de Assis


“(…) essa mulher vale mais que seu destino e a lei do coração é anterior e superior às outras leis (…) escuta a voz de Deus e deixa aos homens o que vem dos homens.” (p. 86)

Que  Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21/06/1839 – Rio de Janeiro, 29/ 09/ 1908) foi um dos maiores escritores da língua portuguesa, todos sabemos. Eu só não sabia muito da sua vida pessoal: foi casado com Carolina Novais Machado de Assis, portuguesa, por mais de 30 anos. Segundo as biografias espalhadas pela internet, Carolina era de família nobre, culta e era ela que corrigia os textos de Machado. Até que ponto ela “mexeu” nos textos do escritor? Foi por causa dela, dizem, que ele conheceu escritores do mundo todo e que pôde publicar seus livros. Xiiiii! Machado era Machado mesmo ou Machado era Carolina? Ou os dois? Pensem que no século XIX o machismo predominava, as mulheres tinham um segundo plano. Dúvida plantada. A sua linguagem primorosa terá sido escrita a quatro mãos? Possivelmente, estou blasfemando…tomara! Mas sempre é bom duvidar das coisas sacramentadas. Não toda, mas pelo menos a segunda metade da sua obra deve ter tido interferências de Carolina, segundo relatos de amigos do casal. Carolina e Machado:

Fotos: ABL

Bem, mas vamos com Iaiá Garcia (a Lina, “Iaiá” era seu apelido), filha de Luís Garcia, um funcionário público viúvo, muito reservado e antissocial, amigo da também viúva Valéria Gomes, uma das poucas amizades que mantinha. Ela é mãe de Jorge,  apaixonado por Estela, filha de um ex- empregado da família. Depois da morte de sua mãe, Estela foi viver na casa de Valéria, que a educava. Valéria, descontente com esse romance entre seu filho e Estela,  pois considera a moça inferior, prefere que o filho vá para a guerra do Paraguai com a intenção de separá- los. Jorge, num trecho romântico vai até a casa de Estela para despedir- se antes de ir para a guerra (p.84):

“- Embarco amanhã para o sul. Não é patriotismo que me leva, é o amor que lhe tenho, o amor grande e sincero, que ninguém poderá arrancar- em do coração. Se morrer, a senhora será o meu último pensamento; se viver, não quero outra glória que não seja a de me sentir amado. Uma e outra coisa dependem só da senhora. Diga- me; devo morrer ou viver?”

O pai de Estela, Sr. Antunes, enviava cartas a Jorge quando ele estava na guerra, verdadeiros “epitalâmios” (hinos nupciais), tentava convencer o jovem que sua filha era uma boa opção. Jorge continuava amando Estela e sentiu necessidade de contar sobre esse amor a alguém. Escreveu ao pai de Iaiá Garcia: Luis Garcia. Começaram o trocar cartas, onde Luis dava conselhos ao rapaz e o fazia refletir sobre sua condição de homem e soldado. Numa das cartas, já no final, depois de dar notícias da mãe de Jorge, contou que havia “contraído segundas núpcias com a filha do Sr.Antunes”. A mãe de Jorge, Valéria, foi a madrinha. Estela havia casado com o pai de Iaiá Garcia depois de todas as artimanhas de Valéria, inclusive foi ela que pagou o dote da moça. Jorge odiou a todos, a guerra acabou,  sua mãe faleceu e depois de quatro anos ele voltou ao Rio de Janeiro.

O coração humano é a região do inesperado.” (p. 63)

O engraçado desse livro é que nas 100 primeiras páginas, Iaiá praticamente não aparece, já que na primeira parte do livro ela ainda era menina. Iaiá ajudou a unir seu pai e Estela, de quem gostava muito. A união de Estela e Luis foi “uma viagem com os olhos abertos e o coração tranquilo”. Ambos conscientes que esse casamento por conveniência os faria bem.

A obra de Machado de Assis é dividida em duas fases: a primeira, romântica e a segunda, realista. Iaiá Garcia (1878) é o último livro da sua fase romântica. Interessante ler os usos e costumes da época, o contexto histórico e social, um retrato da sociedade carioca do século XIX, incluindo fuxicos, intrigas e romances por conveniência. A incerteza do que iria acontecer no Brasil por causa da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), a guerra contra o Paraguai e como iria ficar as fronteiras e a questão da navegação entre os países. Outras curiosidades, como os nomes dados às refeições naquele tempo, que eram diferentes e que pode provocar estranhamento no leitor atualmente, veja:

Almoço: era o nosso café- da- manhã, refeição feiita por volta das 8 horas.

Jantar: é o almoço, refeição feita por volta das 14 horas naquele tempo.

Merenda: uma refeição leve, geralmente no final da tarde.

Ceia: a última refeição do dia, por volta das 21 horas.

Machado cita uma revista, o Almanaque de Laemmert (p. 64), que fazia muito sucesso entre os anos de 1844 e 1889, que tinha um formato de livro com várias seções com temáticas diversas e bastante extenso. O anúncio abaixo* é de uma edição de 1880, página 870:

O romance romântico tem uma teia amorosa interessante, envolvente. Parece uma dessas novelas da Globo, só que bem escrita, sem possibilidade de saber logo no início o final da história. Não desista nas 100 primeiras páginas, o melhor vem depois. Como foi o reencontro de Jorge e Estela? Como foi o encontro de Jorge e Iaiá? O enredo é imprevisível, uma das coisas bacanas. Não consegui adivinhar o que aconteceria no final. Não vou contar mais, agora é com vocês!

Eterno! Sabes quanto durou essa eternidade de alguns anos. É duro de ouvir, minha filha, mas não há nada de eterno neste mundo; nada, nada. As mais profundas paixões morrem com o tempo. (p. 208)

Assis, Machado de, Iaiá Garcia. L&PM, Porto Alegre, 2011. 219 páginas

*Fonte: http://www.jangadabrasil.com.br/