“Orfanato portátil”, Marcelo Montenegro


Esse frio na barriga onde mora/ o que não sei dizer. (Teleférico de ternuras, p. 21)

O livro chegou da minha terra, São Paulo, enviado pelo meu tio poeta, outrora revolucionário, Normando Leão, que apresentou-me o escritor Marcelo Montenegro (São Caetano do Sul, 1971): “está oxigenando a literatura pátria”. Oxigênio, é isso. Eu que andava desencantada com a pós- modernidade “copy & paste”, esse livro me fez suspirar: há esperança. Saí dos Correios e comecei a folhear na Calle Alcalá mesmo, andando. No primeiro quarteirão, o livro já tinha me aprisionado, tive que sentar. Sentei num banco em frente a esta farmácia e só saí do transe na última folha. “Orfanato portátil”, e quem não leva consigo para todos os cantos a sua solidão, as suas fragilidades e os seus medos?

Vi uma moça entrar na farmácia meio desorientada e pensei que se ela estivesse lendo, quem sabe, esqueceria do mundo e da sua vertigem, da vertigem do mundo- a literatura salva.

O livro é composto por 31 poemas, com prefácio de Angélica Freitas (jornalista e poeta). O que esse livro tem de especial? A gente se lê nele, há uma identificação com o Eu poético, então há emoção (das mais variadas). Os poemas são escritos com bom gosto, numa linguagem atual, mas sem ser vulgar. Não vou fazer análise estilística do poema, só vou dar uma amostra de uns versos de “Espantalho descarado” (p. 13), o cuidado na escolha das palavras, a  rima, o jogo de palavras, a troca de “estante” por “instante”,  brincadeira semântica perfeita!

ando assim
tipo um erro flácido ambulante
sem êxito, hesitante
disco riscado
fora de catálogo
no pó do instante.

Abaixo, um poema conceitual, concreto, visual, que pode ser lido de várias maneiras, palavras convulsas, aparentemente desconectadas, mas que são carregadas de sentido numa forma de apresentação fragmentada, própria dos nossos tempos, um grito, “Eletrodos de Eros” (p. 37):

 
 
O meu exemplar com dedicatória:
 
 

O ruído dos dias e dos pensamentos. A contradição do ser humano, a descoberta das fragilidades, como no poema “Parmegiana Song” (p. 47), Me sofistico, desvendo os nós/ Do meu próprio avesso.

Fora os já citados, outros preferidos: “Buquê de presságios” (p. 11), “Fissura” (p. 63) e   “Guardando a tralha” (p. 53): Há um deus maluco embaralhando as cartas.

Montenegro, Marcelo. Orfanato portátil. Anna Blume, 2º edição, São Paulo, 2012. 76 páginas

Blog do Marcelo Montenegro.