“Amar, verbo intransitivo- Idílio”, Mário de Andrade


 idílio
(latim idyllium, -ii, poema pastoril)
s. m.
1. Poesia de assunto pastoril.
2. [Figurado]  Amor simples e puro.
3. Sonho, utopia.*

O amor realizado se torna logo parecido com amizade. (p. 87)

Eu gosto de Mário de Andrade (São Paulo, 9/ 10/ 1893 – São Paulo, 25/ 02/ 1945). Adoro os modernistas brasileiros: fizeram escola, quebraram paradigmas, revolucionaram as Letras e as Artes brasileiras, os reverencio. Precisamos disso, estamos carentes de criações originais nessa geração “copy- paste”. Parece que os ânimos criativos e criadores adormeceram com a facilidade de copiar e repassar. Admiro quem cria, quem gera conteúdo. Eu também posso estar sendo muito injusta, podem existir vários gênios criativos por aí, eu que não conheço.

É preciso exclamar para que a realidade não canse. (p. 26)

O verbo amar de acordo com as normas gramaticais é transitivo, precisa de complemento para ter o sentido completo, mas na obra de Mário esse verbo é autossuficiente, basta- se, é completo de sentido. Escrito entre 1923 a 1926, é um romance transgressor, mostra os bastidores da sociedade paulistana numa linguagem coloquial, transcreve os diálogos e pensamentos dos personagens tal como pensavam, como Laura, a senhora da casa que falava “xicra” (“xícara,” p. 104). Pode ser uma crítica ao (mal) falar do brasileiro (ou não). A história é desenvolvida na primavera, “Dia primeiro ou dois de setembro, não lembro mais.” (p. 20). Elza Fräulein começa a trabalhar na casa de uma família burguesa em Higienópolis, São Paulo. Governanta e professora de alemão de fachada, na verdade sua missão era ensinar as artes do sexo e do amor ao jovenzinho da casa, Carlos, de 16 anos. A intenção era livrar o garoto de comportamentos perigosos, das doenças venéreas, das caça-maridos. Ela foi contratada pelo pai do garoto, Sousa Costa, femeeiro, mulherengo, por isso mesmo, quem sabe, tanta preocupação com o filho.

Um dos primeiros exemplares do livro, presente de Mário para Pio Lourenço Corrêa, com comentários deste.

O narrador dialoga com o leitor, diz que há 50 leitores lendo esta história, 51 com ele, e que essas 50 pessoas imaginaram uma Elza que não foi a mesma que ele imaginou. Brinca com o imaginário do leitor e só depois descreve a alemã.

Fräulein tentava seduzir o menino sem que ele notasse, mas o menino (parecia)  inocente, ingênuo, aluado.

O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. espirituais, pensava. (p. 37).

A alemã era muito unida ao empregado japonês, Tanaka. O que poderia ser um idílio,  era só conveniência. Estavam unidos Por causa das recordações, do exílio e das esperanças. ( p.84)

A narrativa toca num tema sensível, o racismo alemão através do pensamento de Fräulein. Ela coloca a raça dela como superior às outras, mas isso ela guardava só pra ela, comentava entre os amigos alemães, afinal estava entre brasileiros.

“Mário de Andrade (1893-1945) tornou-se o primeiro secretário paulistano de Cultura. Na foto, aparece no Conservatório Dramático e Musical, onde lecionava.” (Veja SP)

Todos os exilados afinal têm direito  a recordações e esperanças. (p. 84)

Mário faz viagens filosóficas, psicológicas sobre a vida, o homem e o amor. Fala de música e literatura , fala de modernistas; também há trechos meio didáticos, como se fosse um ensaio em que ele conta como surgiu a “Elza”. O livro claramente nasceu com a intenção de ser modernista, e é. As interrupções do narrador a todo momento é uma característica.

O que chama- se vulgarmente personalidade é um complexo e não um completo. (p. 59)

Sedução de um menor com o consentimento dos pais, podia? Era assim que acontecia com muitos rapazes ou ainda acontece? Os pais brasileiros ainda levam seus filhos para iniciar vida sexual com prostitutas? Por favor, tomara que não!

Correções de Mário de Andrade para a 2ª edição de “Amar, verbo intransitivo”.

 Mário de Andrade sabia muito de Ciências Humanas e idiomas e fez questão de contar pra todo mundo. Mas ele também devia saber que falsa modéstia é brega. Mário, segundo o jornalista Jason Tércio que escreveu a biografia de Mário prestes a ser lançada(?), diz que o escritor era homossexual, grande bebedor, usava cocaína. Na verdade, a vida pessoal dos escritores não importa nada mais como curiosidade, a obra sim é o que nos interessa.

Eu não vou contar sobre como aconteceu e nem como acabou o “idílio” entre Elza e Carlos, isso é com vocês! Livro considerado o primeiro realmente modernista da literatura brasileira. Vai pra sua lista?

ANDRADE, Mário. Amar, verbo intransitivo- Idílio, Agir, Rio de Janeiro, 2008.

* Priberam

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