Memórias do Subsolo, Fiódor M. Dostoievski


“A melhor definição do homem seria: um sujeito mal- agradecido com um par de pernas.” (p. 94)

Eu acho que a escolha das nossas leituras não são por acaso, há algo de seleção intuitiva, cada livro cai na nossa mão na hora certa ( e quando não é, geralmente a leitura acaba sendo abandonada). Então vamos, “Memórias”…

Não existe derrota pessoal maior do que viver acreditando que o “normal” é o estado de constante dor (emocional, que às vezes passa a ser física também). É uma espécie de vida paralela na própria existência, a fronteira entre esses dois “mundos” ( o do bem- estar e o da dor) é muito sutil, qualquer um pode atravessá- la sem perceber. O subsolo é a consciência, é a camada mais recôndita do ser humano, uma área escondida, mas extremamente povoada e ativa, lá também pode ser um lugar sujo, cheio de bichos tenebrosos, lama, cupins e mofo. No subsolo não entra a mentira, a falsidade, a hipocrisia. Não dá pra enganar a própria consciência, ela sempre vai te contar a verdade (?), que às vezes pode ser muito dura. O excesso de consciência pode nos converter em pessoas doentes. Assim ficou o personagem de Dostoievski em “Memórias do subsolo”, incógnito, sem nome, de uns 40 anos (na primeira parte), magro e baixo, funcionário público e cheio de consciência de si mesmo. Ele sentia- se excluído pelos colegas de trabalho (aos vinte e quatro anos, na segunda parte do livro), sentia um olhar de repugnância vindo deles. Era extremamente tímido e embora fizesse esforços para integrar- se, não tinha êxito, sentia- se invisível, humilhado, derrotado, acreditava ser insignificante como uma “mosca” e odiava os seus opositores. Sua vida era “lúgubre, desordenada e ferozmente solitária”. (p. 109) A melancolia o corroía, ele sentia náuseas e febres.

Dostoievski (Moscovo, 11/11/1821 – São Petesburgo, 09/02/1881)

“Memórias do subsolo” é uma obra importante, porque é o primeiro livro existencialista do mundo (possivelmente). O autor passava por um momento pessoal muito complicado durante a escritura desse livro, a sua esposa estava muito doente e ele mantinha um romance tormentoso com uma jovem chamada “Apolinaria Súslova” (p. 9) o que lhe provocava problemas de consciência:

“(…) deixa- te levar por seu impulso cegamente, ou seja, sem raciocinar e sem procurar uma causa primária; espantando a consciência, ainda que só durante esse instante; tenta odiar o amar, só para não estar de braços cruzados e sem fazer nada. Passados dois dias como muito, começarás a desprezar- se por ter enganado a si mesmo.” (p. 83)

Dostoievski deu ao seu personagem uma noção pessimista da realidade. Era um homem desgraçado, queria vingar- se do mundo pelas suas infelicidades, já que residia no lugar mais escuro da vida, no subsolo. Pensem que isso foi escrito em 1864, ainda nem tinham inventado os antibióticos, mas é super atual:

“O que é que suazivou na gente a civilização? O único que nos acrescentou foi uma multidão de sensações…e decididamente, nada mais. (…) Vocês notaram que os mais sofisticados derramadores de sangue quase sempre foram uns cavalheiros dos mais civilizados (…) Dizem que Cleópatra (desculpem o exemplo escolhido da história romana) gostava de cravar alfinetes de ouro nos seios das suas escravas e encontrava prazer nos seus gritos e convulsões. Dirão que isso ocorria em outros tempos, por dizer de alguma forma, bárbaros; mas também agora vivemos tempos bárbaros (também por dizer de alguma forma) ainda continuam espetando alfinetes; e o homem, ainda que tenha aprendido a ver algumas coisas com mais claridade que nos tempos da barbárie, encontra- se ainda muito longe de habituar- se a agir de acordo com a razão e a ciência.” (p.88)

O que destrói a razão é o sentimento, senão tudo poderia ser matematicamente estudado e planejado, a vida poderia ser prevista, mas “mudam- se os tempos, mudam- se as vontades”. Gente ama, desama, casa, descasa, e casa outra vez, cria e fecha sociedades, muda de casa, de bairro, de cidade, de país, de emprego. Ou não muda nada e permanece com a insatisfação de não ter tentado; e os que são empreendedores e arriscam, também se arrependem de não ter ficado. O ser humano é confuso porque sente:

“Bom, senhores. E por que não deitamos abaixo essa passividade, para todos os logaritmos irem ao inferno e finalmente podermos viver de acordo com a nossa vontade?” (p. 90)

Não temos liberdade para ser o que queremos ser ou o que somos, estamos sempre baixo regras alheias: do governo, da escola, dos nossos pais, esposas ou maridos, namorados e namoradas, chefes, condomínio, religião- tudo isso jogado pra nossa própria consciência. Quem dita o que é certo ou errado? Certeza que nem eu nem você. Não somos livres, mas ser livre também pode ser muito perigoso.

“De onde tiram todos esses sábios, que o homem precisa de uma vontade normal, uma vontade virtuosa? De onde tiram que o homem precisa indispensavelmente de uma vontade proveitosa? O homem precisa unicamente de uma vontade ‘autônoma’, custe a esta o que custe, e lhe traga as consequências que lhe traga.” (p. 90)

Quase sempre as nossas vontades estão mascaradas por conveniências, imposições ou falta de opção, por caminhos escolhidos por serem os mais fáceis, por comodismo, por preguiça, por medo, por dinheiro e status social, escolhemos os caminhos que, aparentemente, possam nos proporcionar mais vantagens. As nossas escolhas, muitas vezes, não são os nossos desejos reais. Assim surge um ser humano frustrado, infeliz, incompleto. Fazer “o correto” pode ser muito aborrecido e escolher “fazer o que quiser” pode ser uma faca de dois gumes: o seu bem- estar x a dor alheia ou a sua dor x o bem- estar alheio. Sacrificar ou sacrificar- se? O nosso livre- arbítrio só vai funcionar quando “criarmos algo parecido a uma tabuada”. (p. 92) O personagem acredita que isso não existe, nunca existirá.

Desse romance psicológico, concluo que na vida é mais feliz quem consegue ficar fora desse “subsolo”, quem não fica muito tempo preso aos problemas de consciência, quem consegue se soltar das amarras dos sentimentos mais profundos e das regras da falsa moral, porque, na verdade, no mundo não há moralidade, já que “ Todo homem honesto de nosso tempo é, e deve ser, servil e covarde. (…) Isto é assim, e assim é como está constituído.” (p. 111)

Os colegas de escola do personagem sem nome (de tão insignificante que era) estes sim, com nome e sobrenome, o desprezavam porque era um simples funcionário público mal vestido, feio e sem família importante. Nas sociedades de um modo geral, a pessoa vale o peso do que possui ( ou o que aparenta possuir).

 O ideal seria cada um ter o direito de desejar pra si mesmo o que quisesse, até as coisas mais estúpidas, que não nos trouxessem nenhum tipo de vantagem, porque isso pode ser mais vantajoso que outra coisa, depende do valor que você dá às coisas. E geralmente tais vantagens são medidas pelo que trará mais prosperidade e o personagem considera isso um equívoco, compara a prosperidade com um “Palácio de Cristal”, uma frágil e limitante prisão. Dostoievski cita a Heine, que dizia que toda autobiografia não é verídica, porque todo homem mente sobre si mesmo, inclusive cita a Rousseau, que mentiu ao falar de si mesmo nas suas confissões, por vaidade. Uma pessoa pode cometer crimes por vaidade. Levar o subsolo na alma não é fácil.

Todos os homens guardam entre suas recordações algumas coisas que não as revelam a qualquer pessoa, só aos amigos. Também há outro tipo de coisas que o homem não revela aos amigos, tão só para si mesmo e em segredo. Finalmente, há coisas que o homem teme revelar inclusive a si mesmo, e todo homem formal dispõe no seu interior de uma boa quantidade desse tipo de coisas.” (p. 103)

Qual o seu segredo?

Um livro que dá um tapa na cara da hipocrisia.

Dostoievski, Fiódor. Memorias del subsuelo. Madrid. Cátedra, 2011. 198 páginas

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4 Comments »

  1. Um livro pavoroso, que a mente intrincada do Dostoiévski colocou pra fora, e assim foram todos os livros dele – livros os quais o próprio Freud ficava com um pé atrás, para lê-los.

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