“A náusea”, Jean- Paul Sartre


Algo me aconteceu, não posso continuar duvidando. Veio como uma doença, não como uma certeza ordinária nem como uma evidência. Instalou- se pouco a pouco, eu me senti estranho, algo incomodado, nada mais (…). E agora cresce. (“A náusea”, p. 17)

Jean- Paul Sartre ( Paris, 21/06/1905 – Paris, 15/ 04/ 1980) existencialista e marxista- humanista (correntes de pensamento que também sou simpatizante) marido da filósofa Simone de Beauvoir.

Fumava cachimbo, o que produziu o escurecimento dos seus dentes. Sartre fumava, mas não só: também experimentou uma droga extraída de uma espécie de cactus chamada “mescalina”; aconteceu em 1929, mesmo ano em que conheceu a sua futura esposa Simone. A mescalina é um alucinógeno, causa efeitos como a sinestesia, é estimulante, provoca gargalhadas, potencializa os sentimentos, a introspecção, mas também tem efeitos negativos muito ruins como a depressão, paranóias, insônia, náuseas, alucinações, pânico, entre muitos outros. “A náusea”! Sartre contou numa entrevista, que ao consumir essa droga, viu caranguejos e que eles o perseguiam. Em “A Náusea”, ele fala dos tais caranguejos e outros seres (não usem drogas, crianças!):

Deixei cair meu braço ao largo das costas da zeladora e logo vi um jardim com árvores baixas e largas dos quais se penduravam imensas folhas cobertas de pelos. Formigas, centopéias e larvas corriam por todas partes. Havia animais mais horríveis ainda: seus corpos eram uma fatia de pão de forma tostada colocadas debaixo de pombas; caminhavam de costas com patas de caranguejo. (p. 101)

As drogas foram consumidas também por outro escritor que defendia seu uso para fins de “expansão da mente”, Aldous Huxley, contemporâneo de Sartre, além de ser viciado, era defensor do consumo de LSD (não foi boa ideia, morreu por causa dela).

Para estimular a sua imaginação, use o amor, a literatura, a música…o próprio Sartre cita Ella Fitzgerald, sugerindo o poder de cura que a música pode exercer sobre as pessoas. Enquanto tocava no bar “Some of these days”, Roquentin sentiu- se melhor, a Náusea o abandonou:

Não sabemos se Sartre escreveu “A náusea” baixo o efeito de algum alucinógeno, mas o fato é que o livro é impressionante. Impressiona por causa das perfeitas descrições do personagem Antoine Roquentin passando mal, são vertiginosas. Roquentin, um escritor de 30 anos, depois de viajar muito pelo mundo, decide morar na cidade (imaginária) de Bouville, de repente começa a sentir- se estranho e começa a agir, a mudar de hábitos e pensamentos por causa do que sente. Enxerga as pessoas deformadas, tem vertigens, a sua percepção da realidade e das pessoas muda. É um homem solitário, seus únicos interlocutores são Anny, sua ex- namorada, uma zeladora a qual mantêm relações sexuais e o Autodidata, que é um personagem sem nome próprio, mas sabemos que é um leitor ávido, ele lê pela ordem alfabética dos autores na biblioteca da cidade; homossexual e pederasta; Roquentin o vê tocando meninos na biblioteca, acabou aí a amizade e o Autodidata foi expulso da biblioteca.

Com os sentimentos à flor- da- pele, Roquentin passa a vivenciar sensações físicas que mudarão o sentido da sua vida. É o Existencialismo de Sartre gritando, pedindo a liberdade do “ser”. O homem só é homem com o seu conjunto de emoções, com suas idiossincrasias, a vida só tem sentido assim.

Nunca senti como hoje a impressão de carecer de dimensões secretas, de estar limitado no meu corpo, aos pensamentos leves que sobem como bolhas. Construo minhas recordações com o presente. Em vão trato de alcançar o passado: não posso escapar. (p. 62)

Sartre fala sobre uma verdade curiosa: a vida é menos interessante que a ficção. O dia a dia mata a aventura, além de tudo ser muito parecido, sem novidades. Quando a pessoa vive, não acontece nada. A decoração muda, o povo entra e sai, e isso é tudo. Nunca há começos. Os dias se sucedem aos dias sem tom nem som, numa soma interminável e monótona. Mas ao contar a vida é diferente, tudo muda; (p. 71) Todas as dificuldades dos personagens “parecem ser mais preciosas que as nossas, estão douradas pela luz das paixões futuras.” (p. 72) E pelo fim. Sabemos qual será o fim da história, controlamos o futuro.

“A Náusea”, que primeiro foi chamado de “Melancolia”, foi o primeiro romance filosófico de Sartre, começou a escrevê- lo em 1931 com 26 anos, a versão definitiva saiu em 1938.

Sou livre: não me resta nenhuma razão para viver, todas as que provei soltaram- se já e eu não posso imaginar outras. (p. 248)

Sartre, Jean- Paul. La Náusea, Madrid, Alianza Editorial, 2011.