Resenha: “O leitor de Julio Verne”, Almudena Grandes


“O leitor de Julio Verne” (original “El lector de Julio Verne”) recém lançado na Espanha, é uma história que acontece na Serra Sul da Andaluzia em 1947, num povoado de pouco mais de 3 mil habitantes, Fuensanta de Martos, a terra natal dos meus sogros.

 Fuensanta de Martos vista de uma das montanhas onde se escondiam os guerrilheiros fugitivos da ditadura. Todos os direitos reservados, proibida a reprodução sem prévia autorização®

A história é quase totalmente verídica, a maioria dos personagens são reais, alguns inventados, mas baseados em gente real. Almudena Grandes (Madri, 7 de maio de 1960) conta sobre o período de pós- guerra na Serra Sul da Andaluzia: comunistas X ditadura do General Francisco Franco. A Espanha havia perdido a democracia, os comunistas, socialistas, republicanos, homossexuais e ateus, eram perseguidos, torturados, presos, fuzilados na época de Franco. A oposição era considerada “bandoleira”, gente fora da lei, pois criam uma guerrilha de resistência contra a ditadura. Os comunistas revidavam e também matavam os guardas civis. Muitos “franquistas” eram também socialistas e republicanos, que se escondiam baixo a farda de polícia civil para preservar a vida dos seus familiares e a sua própria.

Fuensanta de Martos, Todos os direitos reservados, proibida reprodução sem prévia autorização®

O “bandoleiro” mais famoso era o “Cencerro” (Tomás Villén Roldán, Jaén, 1903) que era um político socialista perseguido pelo governo de Franco. Criou uma guerrilha mítica, tratava bem aos seus sequestrados, seus golpes financeiros eram perfeitos, sua rede espalhada por toda a província e sua habilidade para escapar da Polícia Civil o transformou numa lenda em Andaluzia, era respeitado e temido. Foi traído por um dos seus comparsas, a Polícia Civil conseguiu localizá- lo e começou a dinamitar algumas casas. Segundo o livro, não permitiu ser preso pela polícia, antes disso deu um tiro na cabeça junto com o companheiro José Crispin Pérez:

Os cadáveres de Tomás Villén Roldán e José Crispín Pérez estavam juntos, encostados na parede do fundo da caverna. Os dois abraçaram- se antes de suicidarem- se disparando um tiro na fronte com as últimas balas que lhes restavam. (p. 69)

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A versão oficial foi que a Polícia Civil atirou nos dois homens. Seus cadáveres foram expostos publicamente no Castelo de Locubín, e fizeram uma festa para celebrar a morte do guerrilheiro, dançaram em cima do cadáver de Crispín. Eu creio na versão do livro, a do suicídio. Cencerro tinha duas filhas, Rafaela, de 20 anos e Virtudes, de 17 anos, cavaram com as suas próprias mãos a tumba do seu pai no lugar dos enforcados, fora dos muros do cemitério. (p. 85)

“Cencerro”, o mítico guerrilheiro “Tomás Villén Roldán”

O romance é narrado sob olhos de Nino (Antonino Pérez, o “Canijo”, apelido em espanhol para gente muito baixinha, na vida real seu nome é “Cristino”) um garoto de 9 anos, filho de um guarda- civil que herdou o mesmo nome. A família morava no quartel de Fuensanta de Martos. Nino, sua irmã de 5 anos, Pepa, e a irmã mais velha, Dulce, sofriam muito porque ouviam os sons da tortura que acontecia frequentemente no quartel. Depois das torturas, a mãe e as duas crianças tinham que conviver com as esposas e filhos dos torturados, seus vizinhos. Sentiam vergonha, pena: Mãe saiu em cima a hora, e nos levou à igreja quase correndo, para não ter que cumprimentar nenhum conhecido. (p. 83)

O livro está repleto de mostras de machismo, numa Espanha bruta, violenta, sem lei. As mulheres que tiveram seus maridos mortos ou presos pela ditadura criavam seus filhos sozinhas, subsistiam vendendo ovos, trançando palha, mas essas atividades eram ilegais para elas e muitas vezes eram presas, violadas e torturadas. Essa parte da história é real, assim aconteceu.

Almudena conta como surgiu a ideia desse livro. Ela, o marido e Cristino (Que é conhecido pelos meus sogros como “Tino”) viajaram de carro em 2004 para o Marrocos. A escritora chorou muito quando viu aquelas paisagens, porque sua avó e bisavó tiveram que fugir da guerra da Espanha com filhos pequenos e foram a pé até o Marrocos. O clima emotivo propiciou confissões entre os viajantes e Cristino acabou contando a sua história de infância em Fuensanta de Martos.

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Nino era baixinho, seus pais achavam que ele não poderia ser guarda civil pela baixa estatura e providenciaram que aprendesse datilografia para poder fazer trabalhos administrativos no futuro. “As Loiras”, uma família de mulheres vítimas da ditadura, que perderam pai, maridos e irmãos na guerra, eram inimigas anti- franquistas, mas eram elas que detinham a cultura e o conhecimento. Dona Elena, professora e viúva de um médico preso e morto por ser ateu, foi a tutora de Nino às escondidas. Foi ela que mostrou o mundo da literatura ao menino, que emprestou toda a sua coleção de Júlio Verne ao garoto e que lhe ensinou datilografia.

Cristino Pérez saiu do “pueblo”, conseguiu fugir do seu destino quase certo de ser também polícia civil como o seu pai. Com muita dificuldade, conseguiu entrar na faculdade de Psicologia. Filiou- se ao partido comunista de Córdoba, foi preso depois de quase 20 anos de militância, quando já era professor universitário na área de Psicologia, ainda hoje é catedrático na Universidad de Córdoba.

Veja a biografia de gente valente (em espanhol), gente que deu a vida por uma causa, pela liberdade que a Espanha só conseguiu depois da morte do ditador Francisco Franco em 20 de novembro de 1975.

Almudena Grandes, foto de divulgação: http://www.almudenagrandes.com

“O leitor de Julio Verne” não é uma obra- prima da literatura, não tem grandes recursos literários, mas a história é boa, de leitura fácil, provavelmente será um best- seller na Espanha. Esse livro ainda não foi traduzido para o português, o que deve acontecer em breve.

Grandes, Almudena. El lector de Julio Verne. Barcelona. Tusquets, 2012.