Viver em paz é, por acaso, tão absurdo? (p. 69)

O salão da princesa Mathilde, de Giuseppe de Nittis, 1883.

Victor Hugo (Besançon, 1802- Paris, 1885) era escritor de prosa e verso, dramaturgo, ensaísta, político, artista visual, ativista dos direitos humanos e escritor de destaque no Romantismo francês. O seu livro mais conhecido é “Os Miseráveis” (1862). Os críticos dizem que a sua obra é essencial para a compreensão do século XIX.

O ensaio “Elogio de Paris” é um texto que foi encomendado para a Exposição Universal de Paris de 1867. É uma declaração de amor à Paris, mas sem ocultar todas as suas mazelas e guerras ao longo de sua história, “Paris cresceu entre a guerra e a fome” (p. 31). O passado hostil e violento sofreu uma purificação, foi queimado com a Revolução Francesa. Victor Hugo mostrou ser um profundo conhecedor da cidade, contando sobre personalidades, lugares e fatos às vezes chocantes, às vezes curiosos. Victor Hugo contou que foi em Jerusalém que um mártir disse pela primeira vez a famosa frase, “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”(p. 72) que foi usada como lema da Revolução Francesa. Ele defende o pensamento, a Filosofia como meio de crescimento e repudia a guerra. Ele profetiza que Paris será essa grande nação que servirá de modelo de paz e civismo. Será algo mais que uma nação, será a civilização. (p.18) Um continente fraternal, tal é o futuro. (p.22)

Abaixo uma pequena seleção de fatos e frases interessantes do livro:

– “Paris é um microcosmo da história universal”. (p. 24)

– Luis IX construiu igrejas, Santa Catalina, entre outras, a pedido dos sargentos de armas, onde a assembléia de barões e bispos se converteu em parlamento, e onde Carlomagno, na sua sala eclesiástica, perto de Saint- Germain- des- Prés, proibiu aos religiosos de matar. 

Celestino II foi ali nessa escola baixo a tutela de Pierre Lombard. O estudante Dante Alighiere hospedou- se na rua Fouarre… (p. 31)

– Os impostos eram tão excessivos que o povo tratava de contagiar- se com a lepra para não pagá- los. (p. 33)

– Tudo o que está feito já está morto se nos devolve vivo como ensinamento. Mas, sobretudo, não escolham. Contemplem à sorte. (p. 34)

– (…) em 1650, o primeiro presidente do Parlamento de Paris, Gilles le Maistre, montado numa mula, seguido por sua mulher em uma carroça, e sua criada numa burra, para ver pela tarde enforcar o povo que havia sido julgado pela manhã. 

(…) abaixo do nível do Sena, um calabouço chamado “A Ratoeira”, por causa dos ratos que roíam vivos aos prisioneiros”. (p. 35)

– Que precipício é o passado! Um descenso lúgubre! Dante teria pensado. (p. 51)

– A função de Paris é dispersar ideias. Sacudir sobre o mundo um inesgotável punhado de verdades. (p. 75)

Rabelais, Molière y Voltaire, a trindade da razão, que nos perdoem a frase, Rabelais, o Pai, Molière, o filho, Voltaire o espírito, essa triple gargalhada, alegre no século XVI, humana no século XVII, cosmopolita no século XVIII, é Paris.” (p. 76)

Um dia, Paris já não quis aos soldados, daí surgiu a cura.” (p. 77)

O que completa e coroa Paris é o literário. A luz da razão é necessariamente a luz da arte. Paris ilumina en dois sentidos: por um lado, a vida real, por outro a vida ideal. Por que esta cidade vive imersa no belo? Porque está imersa no verdadeiro. (p. 80)

– Que é a Revolução Francesa? Uma vasta purificação. Havia uma peste: o passado. A fogueira queimou esta podridão. (p. 91)

Um livro para entender porquê Paris é Paris. Victor Hugo escreveu esse texto na Hauteville House, casa onde viveu durante o seu exílio (1856- 1870), em Saint- Pierre- Port, Guernesey, Inglaterra.

Hugo, Victor, Elogio de París, Gadir, Madrid, 2011.

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