Não vim no mundo para ser pedra. (Macunaíma, p. 208)

Macunaíma, publicada pela primeira vez em 1928, é uma obra tão conhecida que mesmo sem ter lido nenhuma linha, a impressão que fica é que já conhecemos a história toda. Não façam isso, porque ler esse livro vai te surpreender, enriquecer e prometo que você não vai se aborrecer em nenhuma linha, além de dar boas risadas. Macunaíma foi mais uma comprovação de que ler os clássicos jamais é perder tempo, foi todo um aprendizado. Mário de Andrade conseguiu escrever uma obra diferente de tudo o que existia até então, é super original, não lembra a nada escrito. anteriormente. No princípio pode provocar um certo estranhamento, porque o texto está cheio de palavras em tupi- guarani, mas a nossa intuição consegue perceber o significado das palavras pelo contexto, você não vai precisar consultar a todo momento o glossário no final do livro,  irá memorizar e ficará craque nesse idioma original do Brasil, afinal é o idioma de Macunaíma, ele aprendeu português e brasileiro, então nada mais justo que aprendamos o “dele”, que também é nosso, não é?

Mário de Andrade (São Paulo, 9 de outubro de 1893 – íbid., 25 de febrero de 1945) poeta, ensaísta, novelista e musicólogo.

Cândido Portinari, Antônio Bento, Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco, em 1936.

O subtítulo do livro já começa com uma contradição “O herói sem nenhum caráter”, na verdade ele é um anti- herói, porque faz coisas absurdas, judia e ama ao mesmo tempo as mulheres, come sem trabalhar, xinga, entra em briga, prega peça em todo mundo, mas ele tem alguns dons mágicos e uma sorte fora do normal, é preguiçoso, mas consegue tudo o que quer. Macunaíma é o cão, ele dá nó em pingo- d’água, ele transa até com a Mãe do Mato, com a esposa do irmão, ele é terrível, mas ainda assim é adorado por todo mundo.

Quadro “Mário na rede”, de Lasar Segall, 1930

Macunaíma é uma obra genial, Mário de Andrade criou um personagem sui generis,  único na sua espécie, impossível existir alguém como ele na vida real. O escritor construiu uma narrativa do gênero fantástico, surrealista, com elementos absurdos, sobrenaturais, resgatou lendas e superstições, e inventou muitas, tudo isso permeado com muito humor. Macunaíma tinha acabado de ser cagado por um urubu enquanto dormia embaixo de uma árvore:

Então passou Caiuanogue, a estrela- da- manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu pra ela que o carregasse pro céu. Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito. – Vá tomar banho! ela fez. E foi- se embora. Assim nasceu a expressão ‘Vá tomar banho’ que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus. (p.86)

Trecho do filme “Macunaíma”, uma adaptação de 1969 feita por Joaquim Pedro que consegue ser mais absurda que o livro. No vídeo mostra a cena de Macunaíma (Grande Otelo) nascendo.

Macunaíma vivia na mata- virgem com seus irmãos Jiguê e Maanape, mas sabiam até inglês. Sabiam também encantamentos, eram curandeiros, caçadores e conviviam com lendas vivas como o Curupira. Macunaíma “brincava” (termo maroto que o escritor utilizou para as relações sexuais do índio) com muitas mulheres e depois ia pra rede, dormia muito, era muito preguiçoso. Num dia qualquer acabou se apaixonando, isso numa atmosfera fantástica e absurda, vai para São Paulo com os irmãos em busca de Ci, seu amor. Na cidade Macunaíma ficou surpreso com as máquinas, com os ruídos da cidade, conheceu as doenças “dos brancos” como o sapinho que pegou de uma mulher logo que chegou em São Paulo, conheceu a macumba num terreiro do Rio de Janeiro, onde bebeu muita cachaça e transou até com Exu. Macunaíma queria se vingar de Venceslau Pietro Pietra, Exu condeceu e fez coisas horríveis com o gigante comedor de gente. Venceslau começou a estrebuchar lá no palácio da rua Maranhão em São Paulo. Exu saiu do corpo da polaca e o terreiro voltou ao normal, todo mundo começou a comer, beber, dançar:

 “(…) os macumbeiros, Macunaíma, Jaime Ovalle, Dodô, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Antônio Bento, todos esses macumbeiros saíram na madrugada.” (p. 83)

Dá pra levar a sério o senhor Mário de Andrade?! Todos os nomes citados eram de pessoas reais, amigos do escritor.

As aventuras loucas dos três irmãos são narradas com uma riqueza lexical extraordinária, faz descrições da fauna e flora brasileira impressionantes. Mário de Andrade era enciclopédico numa época em que não existia Internet, muito menos o deus Google. A linguagem imita o falar coloquial, o que também é inovador, já que no princípio do século passado existia uma preocupação por parte da maioria dos escritores  com “o bem falar”. E como Mário de Andrade foi um grande poeta, podemos ver também esse dom na obra, Macunaíma cantava assim (p. 88):

“Quando eu morrer não me chores,
Deixo a vida sem sodade;
– Mandu sarará, 
Tive por pai o desterro,
Por mãe a infelicidade, 
– Mandu sarará, 
Papai chegou e me disse:
Não hás de ter um amor!
– Mandu sarará, 
Mamãe veio e me botou
Um colar feito de dor,
– Mandu sarará, 
Que o tatu prepare a cova
Dos seus dentes desdentados
– Mandu sarará, 
Para o mais desinfeliz
De todos os desgraçados,
– Mandu sarará…”
 

Até Macunaíma sabia que existe um “brasileiro falado e um português escrito”, ele estudou e foi aprendendo as duas variantes e escreveu até uma carta, quase um tratado, em português formal contando sobre a cidade de São Paulo, suas gentes e costumes. Ironia ácida (no capítulo IX).

Uma corrente moralista que não entende nada de Literatura, gente que quer meter o bedelho onde não lhe corresponde, quer proibir livros como “Macunaíma” nas escolas. A proibição desta obra e de outros clássicos da literatura brasileira seria subestimar a inteligência dos alunos, além de privá- los de conhecer livros como esse, uma das melhores obras do Modernismo brasileiro, que rompeu moldes, inovou e criou um personagem ao avesso, rompeu o estereótipo do índio “bonzinho”, subestimado, domesticado, subjugado, pouco inteligente e selvagem, mostrado até em manuais escolares de História em outros tempos. Na época em que Mário escreveu esse livro (1928) ainda não existia a preocupação de ser tão politicamente correto como a sociedade atual anda exigindo, o que acho necessário em sociedade, mas não na literatura ou qualquer tipo de arte. Deixo uma reflexão: a Arte não deve estar fora disso, não deve ter liberdade de expressão? Ou a Arte também tem que se moldar às condutas oportunistas de políticos e moralidades tão voláteis que regem a sociedade? Vamos queimar livros? Espero que não haja retrocessos e que não seja instaurada outra vez a censura, rogo aos senhores e senhoras do Ministério da Educação do Brasil que isso não aconteça. Qualquer tipo de fanatismo é péssimo, inclusive o de ser politicamente correto a níveis extremos, porque provoca cegueira.

Se Macunaíma conseguiu o seu objetivo de encontrar Ci, seu amor? Só lendo pra descobrir!
Andrade, Mário de. Macunaíma- o herói sem nenhum caráter. Antígona, Lisboa, 1998.

Livraria Pasajes, Madri: 17 euros.

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11 comentários »

  1. Só prá contrariar eu vou não dar deixar uma resposta mas uma pergunta: uns acham que só respostas já é suficiente. Há quem considere as perguntas mais importantes que as respostas. A escolha é sua?
    Queria saber qual a diferença entre um herói sem nenhum caráter e um herói mal, ou, mau, caráter.
    A probabilidade de eu voltar para este site e achar a resposta pra minha pergunta é de uma forma coerente, inteligente, abrangente é mímina. Não porque as pessoas não são coerentes, inteligentes, abrangentes, mas porque diante de tantos posts como eu vou encontrar a resposta, ou, respostas num “mar oceano” de respostas e mais respostas que podem logo de cara ou não me satisfazer quanto a coerência, abrangência e inteligência?

  2. só queria confirmar, ele vai a São Paulo em busca da Muiraquitã, uma pedra que Ci havia dado a ele antes de morrer e subir ao céu em forma da estrela Beta da constelação Centauro.

  3. Obra magnífica, panorama do Brasil feito por um gênio da Literatura, que não se ateve ao seu sofá para escrever a obra mas, saiu viajando pelo Brasil e tendo contato com o povo para só depois retratar suas impressões. Sempre me emociono lendo a obra e percebendo como trata de temas contemporâneos. “Pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são”.

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