Os números de 2011


Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 40.000 vezes em Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 15 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

Anúncios

Amor de perdição, Camilo Castelo Branco


Considero- te perdida, Teresa. O sol de amanhã pode ser que eu o não veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. (p.123)

Se você gosta de narrativas de amor tipo “Romeu e Julieta”, de histórias de amores impossíveis, você vai gostar desse livro, que está claramente inspirado na obra mais famosa de Shakespeare. Essa é uma edição portuguesa da editora Leya, comprada na Fnac de Lisboa:

Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as contrariedades me não privariam de ti. Só o receio de perder- te me mata. (Simão, p. 123)

Escrita em 1862, Amor de Perdição conta a história de amor entre Teresa e Simão, filhos de duas famílias inimigas, eles tinham só 16 anos quando surgiu o amor . Tudo acontece em Viseu, Portugal, no século XVIII, na época em que os casamentos ainda eram feitos por conveniência. Simão Botelho, um jovem universitário rebelde, conflitivo, filho de um comendador, apaixonou- se pela vizinha Teresa de Albuquerque, uma menina que só tinha duas opções: casar com seu primo Baltasar Coutinho ou ir para um convento, só que ela também apaixona- se pelo vizinho rebelde. Teresa contrariou a vontade do pai, Tadeu de Albuquerque, e decidiu não casar, foi para o convento. Essa parte da história chega a ser cômica: as freiras que têm vocação para tudo, menos para a vida religiosa, surpreendem e enojam Teresa, pois vivem envoltas em fofocas, são adeptas do vinho como “remédio estomacal”,  num ambiente cheio de intrigas e línguas viperinas, nada a ver com a vida cheia de virtudes, caridosa e espiritual que sempre ouviu dizer que havia nos conventos.

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco

(Lisboa, 16/03/1925- São Miguel de Seide, 01/06/1890) 

“Amor de perdição” é um romance romântico, que o autor contou com conhecimento de causa, ele mesmo viveu um amor impossível, apaixonou- se por Ana Plácido que era casada com o brasileiro Pinheiro Alves. Camilo rapta Ana, mas o adultério naquele tempo era crime e os dois foram presos no Porto, onde ele escreveu o romance Memórias do cárcere. Camilo e Ana ficaram juntos, tiveram muitos filhos, daí a produção tão intensa do escritor, que teve que trabalhar muito para sustentar a família numerosa. Camilo Castelo Branco foi o primeiro escritor português a viver exclusivamente de literatura.

O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ela. (p. 123)

Simão amava Teresa com toda a sua alma e estava disposto a morrer por ela, não mediu nenhuma consequência, foi extremamente valente, enfrentou o pai da moça (Um déspota) o prometido de Teresa e com a impossibilidade quebrando seus desejos. Foi preso por um assassinato, ganhou o ódio dos seus pais, ficou sem família, mas sentia- se digno e forte pra enfrentar a morte, já que a vida lhe privou do seu amor.

O destino há- de cumprir- se…Seja o que o Céu quiser. (p. 126)

O ferreiro Joâo da Cruz e sua bela filha Mariana, ajudaram a Simão em seus encontros com Teresa, com dinheiro, além de o terem ajudado a curar- se de um tiro que sofreu numa emboscada com o primo prometido de Teresa e que continuaram ajudando Simão enquanto esteve preso, já que a sua família não quiser saber mais nada dele. A mãe, D. Rita Preciosa, foi impedida pelo marido corregedor a ajudar o filho que havia sido condenado à forca, em sua fúria dizia que a “lei era para todos”. Antonio da Veiga, um tio- avô octagenário usou um argumento muito convincente que obrigou ao corregedor ir ao socorro do filho. Simão era muito forte e mantinha- se forte, mesmo com a condena á forca, mas desabou quando teve certeza que Mariana, a linda e doce Mariana, chorava e queria morrer caso Simão morresse. Por um momento ele esqueceu de Teresa e chorou pelos tristes desígnios da vida e do amor, falou do amor de Teresa e Mariana:

Uma, morrendo amada, outra, agonizando, sem ter ouvido a palavra “amor” dos lábios que escassamente balbuciavam palavras de gratidão. (p. 147)

Simão ficou sem ver Mariana durante sete meses e Teresa estava num convento no Porto. Simão começou a ficar muito confuso e pensava mais em Mariana que em Teresa, e quis partir a cabeça na parede. Mariana ali, sempre a seu lado, e ele não a via. Ele e Mariana sentiam a mesma dor do amor impossível. Ele podia ter ficado com Mariana que era linda e completamente apaixonada por ele, mas quem manda no coração?

Simão preso e Teresa definhando no convento do Porto durante 7 meses, estava doente, tísica e à beira da morte. Seu pai disse que assim era mais digno do que ter desonrado a família. Teresa escreve uma carta belíssima a Simão, romântica até não poder mais, não vou colocar os trechos mais bonitos para vocês ficarem com vontade de ler:

“Que mal fariam a Deus os nossos inocentes desejos?!… Por que não merecemos nós o que tanta gente tem?! (…) O pior sãos as saudades. (…) Ao menos morrer é esquecer.” (Teresa em carta para Simão, p. 153)

Simão envia uma carta de volta, suplicando que Teresa viva, que se agarre ao último fio de vida, pois ele ainda tem esperança de que irão ficar juntos. Será que ficaram? Vou parar de contar, agora é com vocês!

Só no final do livro que descobrimos que o narrador é o sobrinho de Simão, filho do seu irmão Manuel. Leitura super recomendada, o livro não é nada monótono, tem um ritmo bem legal, emocionante e escrito num português luso rico, com os diálogos “de época”, mas muito naturais, entramos na história e passamos a fazer parte dessa linda e extremamente triste história de amor.

A desgraça afervora ou quebranta o amor? (p. 197)

Eu não escrevo mais poemas


Sempre existe uma imagem para todos os nossos pensamentos:

A menina no bosque, Vincent Van Gogh

Eu não escrevo mais poemas, mas esse surgiu agora na minha cabeça, prontinho:

A laranjeira

A laranja tão ácida desprezei.

Cerrei meus olhos de dor,

Joguei as sementes no vento,

que a terra ávida tragou.

Caminhei para lugar nenhum, tropecei.

Caí na sombra daquela árvore que plantei

(ao acaso)

Outros colhiam a fruta doce,

que eu não provei.

Madrid, 21-01-2012

A redoma de vidro, Sylvia Plath


                        A ideia do suicídio é um potente meio de conforto: com ela superamos muitas noites más. (Friedrich Nietzsche)

Um dos livros mais complicados que li na minha vida, não porque seja uma leitura difícil de entender, rebuscada, mas no sentido da temática: a depressão e o suicídio.

O romance autobiográfico (mas não totalmente, pois os nomes de pessoas e lugares foram modificados, o termo mais adequado seria “Roman à clef”) da poetisa americana Sylvia Plath (Boston, 27/10/1932 – Primrose Hill, Londres, 11/02/1963), “A redoma de vidro” (em Portugal “A Campânula de Vidro” e na Espanha “La campana de cristal”) publicado pela primeira vez em 1963 sob o pseudônimo de Victoria Lucas, narra a sua própria história em duas épocas: num período em que foi estagiária numa revista feminina em Nova York e durante a sua depressão/distúrbio bipolar e tentativa de suicídio em Massachusetts.

A personagem principal, Esther Greenwood, uma estudante universitária brilhante, que conta as suas aventuras e noitadas por Nova York com suas amigas Doreen e Betsy, pessoas que admira, mas que não se sente identificada; também não se identifica com o estilo de vida nova yorquino, que não a estimula, a aborrece, o que ela deseja mesmo é ser escritora. Ela conta sobre o drama da intoxicação alimentar que sofreu num jantar da revista em que estagiava, da tentativa de estupro que sofreu, do seu desejo de ter sua primeira experiência sexual, do medo da gravidez, do casamento e de uma futura vida como esposa e mãe. Tinha medo de casar com a pessoa errada. Em muitos momentos cita seu namorado Buddy Willard, um futuro médico que contraiu tuberculose e que depois descobriu ser um hipócrita.

Quando voltou para a casa dos seus pais em Massachusetts para passar o verão, sua mãe  deu a notícia de que não foi aceita para um curso de redação que ela desejava muito, ficou muito decepcionada e começou a fazer reflexões sobre o seu futuro, queria fugir dos estereótipos impostos às mulheres, decidiu que iria escrever um romance, mas admitiu que não tinha experiência para escrever um livro. Começou a ter dificuldades para dormir e a partir daí descreve todos os processos labirínticos da depressão, que ela descreveu com a metáfora da “redoma de vidro”, como se estivesse em uma vida paralela, presa, não podia sair. Esther foi diagnosticada como doente mental e começou a levar eletrochoques. Ela decidiu que não queria mais passar por isso, seu estado piorou, e surgiram as ideias suicidas, começou a escolher a melhor forma de sair da vida. Tentou o afogamento, cortar os pulsos e a intoxicação com ansiolíticos falida. Ela consegue recuperar- se em outra clínica diferente da primeira com a ajuda financeira de Philomena Guinea, escritora e sua mentora.

O suicídio de Sylvia Plath acontece aos 30 anos, quando já era mãe de dois filhos e separada pelas infidelidades do poeta inglês Ted Hughes. A poetisa teve o cuidado de vedar a porta do quarto em que os filhos pequenos dormiam para que o gás não os matasse, deixou a janela aberta, leite e biscoitos. Na foto abaixo, Sylvia e os filhos Frieda e Nicholas:

Foto de Sylvia Plath e o marido Ted Hughes, que trocou Plath pela também poetisa Assia Wevill, que morreu da mesma forma que Sylvia, suicidou- se com gás, que também matou a sua filha de apenas 4 anos.

Sem dinheiro, sem sucesso profissional e amoroso, adoece outra vez e usa gás de cozinha para suicidar- se. Possivelmente Sylvia sofria de transtorno bipolar, fosse hoje, poderia ser facilmente controlado. O drama da depressão foi herdado pelo filho caçula de Plath, Nicholas, que suicidou- se no Alasca em 2009, não era casado e nem tinha filhos. Era um solitário professor universitário que não conseguiu vencer a depressão. Na foto Sylvia e Nicholas, ambos com um triste final:

Esther ou Sylvia não conseguiu encontrar o seu lugar no mundo, não conseguia ser o que era e não aguentou com o peso da vida imposta, acabou prisioneira na sua caixa de vidro, onde tudo via, sabia, sentia, mas não conseguia encontrar a porta de emergência, perdeu- se em si mesma em busca de uma perfeição impossível.

Está sendo produzido agora o filme baseado em “A redoma de vidro” (“The Bell Jar”). Julia Stiles é a produtora e protagonista da história. Uma nova versão para o filme rodado em 1979, estrelado pela atriz Marilyn Hasset.