“José e Pilar” ou “Pilar e José”?


“José e Pilar” é um documentário de Miguel Gonçalves Mendes lançado em 2010, Fernando Meirelles é um dos produtores, no filme aparece a bela cena em que Saramago, emocionado, chora ao assistir “Blindness” em 2008. Gravado durante os anos de fevereiro de 2006 até  finais de 2008 ( o escritor faleceu em junho de 2010). Começa com a criação de uma biblioteca em Lanzarote (ilha espanhola em que residia Saramago e a esposa Pilar del Rio, jornalista espanhola). Nesse período o escritor escreveu “A viagem do elefante”, que foi interrompido com cinquenta e poucas páginas por uma doença grave, que quase o levou à morte.

O filme é chato, aborrecido, lento, sem nenhum recurso cinematográfico interessante para torná- lo mais atraente. As únicas partes realmente interessantes são as opiniões do escritor sobre a vida e a literatura, o demais sobra. Sobra a esposa que quer aparecer mais que o escritor Nobel da Literatura, sobra a esposa prepotente e manipuladora, que leva o marido idoso à estafa com viagens intermináveis e uma agenda impossível para qualquer pessoa, quanto mais uma pessoa de 84 anos naquela época.

Vemos Saramago completamente esgotado, pálido, cansado, em momentos quase não lhe saía a voz. Eu assisti ao vídeo chocada, com pena do escritor que tinha que cumprir aquela agenda criada pela esposa déspota, fria a calculista. Tão fria que não pôde interromper a sua agenda para ir ao enterro da sua própria mãe em 2007. Foi depois de MESES  à cidade de sua mãe, onde cantou no cemitério, como se fosse uma festa.

Os dois únicos netos não aparecem no filme e a filha tem uma participação mínima e faz uma reclamação sobre o tratamento que o pai recebia em Portugal e de não haver um museu sobre o seu pai em Portugal, o que é desmentido no próprio filme já que Saramago é recebido com pompa de rei em Lisboa pelo primeiro ministro José Sócrates.

A mulher oportunista casou oficialmente com o idoso Saramago, quando este parecia nem ter mais vontade própria, parecia uma marionete na mão de Pilar, que comandava e programava tudo, Saramago tinha sua vida completamente controlada por Pilar del Rio, que passa uma imagem prepotente, de uma frieza chocante e uma antipatia inerente, que contrasta com a doçura de Saramago, do frágil Saramago que aparece no vídeo. Inclusive as cartas dos leitores, era ela que abria e rasgava o que achava que não interessava antes de chegar às mãos do escritor. José parecia apaixonado e deixou-se manipular. Como ele mesmo escreveu em “Claraboia”: “Da Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos”.

Pilar del Rio lamenta no Twitter que o documentário “José e Pilar”, não tenha sido indicado aos Oscar. Ela considera que seria um “ato poético apresentar esse filme”. Então a Academia e eu vimos filmes diferentes, pois de poesia tem muito pouco.

José Saramago podia ter passado muito bem sem esse documentário, pois ele já é imortal, sua literatura jamais vai desaparecer. O vídeo parece uma promoção a Pilar del Rio, que inclusive ganhou uma rua com seu nome na cidade natal de Saramago, Azinhaga. Ela quis mostrar nesse filme como era importante na vida do escritor, mas acho que o tiro saiu pela culatra, terminei o vídeo horrorizada com a esposa déspota, que levou Saramago aos eventos em cadeira de rodas depois da doença grave, sendo que ele nem conseguia falar. Ela mesma diz no vídeo, enquanto ele estava no hospital, que o ritmo acelerado havia trazido consequências para sua saúde e que “só por cima do cadáver dela” que isso voltaria acontecer. E foi o homem sair do hospital e voltar tudo na mesma. O dinheiro e fama foram irresistíveis demais. Ela estirou a corda até o final, até a estafa, até a morte. Isso é amor? Saramago disse que não teve férias por mais de 20 anos (quase o período inteiro junto a Pilar). Em São Paulo, já no final da sua vida, Pilar del Rio aparece tirando a pressão do marido, querendo passar a imagem de uma excelente e cuidadosa esposa. Na minha opinião, ela teria sido uma excelente esposa, ficando em sua casa, cuidando realmente do marido velho, cansado e doente, fazendo- o desfrutar dos seus últimos dias de vida, sem tanto trabalho. Ela, uma jornalista desconhecida da Espanha, que foi encontrar o escritor em Lisboa para “conhecê- lo”, não tinha entrevista nenhuma em mãos. Uma jornalista sem entrevista. O que ela foi fazer lá? Ela era quase 30 anos mais jovem que Saramago e fez com que ele seguisse seu ritmo. Sim, Pilar…era hora do Saramago “colocar uma manta nas pernas” e descansar, olhar a bela paisagem de Lanzarote ou de Lisboa, escrever e nada mais, y no seguir con tus caprichos de ‘niña’ consentida. No vídeo também aparece a criação da Fundação Saramago, que o próprio diz que “não pintava nada”, ele não podia assinar nada, perdeu o direito sobre as suas próprias coisas, Pilar passou a ter o domínio sobre todo o legado de Saramago e “amarrou” tudo muito bem para continuar vivendo do escritor mesmo depois da sua morte. A mulher de personalidade forte, dominante, que colocou o dinheiro e fama acima de tudo, como se vê no documentário.

Tirem as suas próprias conclusões. Eu achei tudo muito triste. Vejam o trailler:

Saramago durante o vídeo disse que a vida é “nascer, crescer e morrer”, ele era ateu, mas no início e fim do vídeo diz a frase: “Pilar, nos vemos em algum outro lugar”, deixando a impressão de um reencontro pós- morte. Manipulação ou contradição?