O livro rejeitado de Saramago: “Claraboia”


             Claraboia: s. f. Parte envidraçada de um telhado para entrar claridade.

José Saramago (Azinhaga, 1922- Lanzarote, 2010) foi o único escritor em língua portuguesa a ganhar um prêmio Nobel de Literatura.

Veja a sua obra completa e biografia no site da Fundação José Saramago, que é transcrito literalmente na orelha da edição póstuma de “Claraboia” e que vem com uma falha ao não citar a primeira esposa, Ilda Reis, mãe de sua única filha, Violante (só cita Pilar del Rio). Saramago casou- se com apenas 22 anos de idade (1944) e o casamento durou 26 anos, até 1970. Em 1972, nasceu a primeira neta, Ana, e em 1984, seu neto, Tiago; O escritor estava com Ilda na época da escritura desse livro, e  uma das personagens, a “Claudinha”, é datilógrafa como era Ilda.

A ironia da história é que Saramago criou um personagem em “Claraboia”“Carmen”,  casada com um português, ela é uma espanhola mal humorada, mal educada, amargurada e desequilibrada emocionalmente, e que tem uma incapacidade para aprender a língua portuguesa; Saramago cita o provérbio: “Da Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos” (p. 120), e no final, casou- se com a espanhola Pilar del Rio, 28 anos mais jovem, era uma fã que pediu para conhecer o escritor. Hoje ela faz parte da Fundação José Saramago, traduziu vários livros de Saramago para o espanhol e atualmente viaja bastante fazendo palestras, apresentações de livros e também apresentando o recente documentário “José e Pilar”, que merece um post só pra ele (em breve). A casa em que Pilar morou com o escritor nos últimos 18 anos na Espanha, virou museu. Pilar del Rio tem uma conta de Twitter, mas não é muito acessível, eu mesma fiz alguns questionamentos que ficaram sem resposta.

Na autobiografia de Saramago, obviamente contada na sua própria voz é mais interessante e não omite nada de essencial, veja.

“Claraboia”, segundo romance de Saramago (o primeiro foi “Terra do pecado”, escrito em 1947, com apenas 25 anos, o nome original era “Viúva”, mas a editora Minerva mudou o nome)  finalizado em 5 de janeiro de 1953, foi rejeitado pelas editoras, imagino o motivo: Portugal vivia naquela época a ditadura de Salazar (1926 a 1974, uma das mais longas da história) e as ditaduras pregam “a moral e os bons costumes”, havia censura e não preciso dizer muito mais que isso. A narrativa de “Claraboia” desenvolve- se num prédio da classe média portuguesa e conta a vida de seis famílias, onde vivem pessoas aparentemente “normais”, no entanto, neles guardam os pensamentos e desejos proibidos dos vizinhos. Saramago mostra todas as suas mazelas, infelicidades, sonhos, relações matrimoniais penosas, a luta pela sobrevivência diária, e algo mais: relações incestuosas. Uma mãe que sente uma espécie de atração pela filha e duas irmãs apaixonadas entre si e que chegam ao ponto de tocar- se. O narrador indiscreto observa e revela os sentimentos de uma das irmãs depois de reprimir a carícia da outra: “Imóvel, de olhos fitos no teto, as fontes latejando, resistia, obstinadamente, ao despertar da sua fome de amor, também recalcada, também escondida e frustrada.” (p.188)

A espanhola Carmen e seu marido Emílio levam uma vida matrimonial angustiosa, tal como o jornalista Caetano e Justina. Caetano é um verdadeiro sádico com a esposa, que perdeu a filha de apenas 8 anos e vive em luto eterno:

Já lhe tirara tanta coisa, amor, amizade, sossego, e tudo o mais que pode tornar suportável, e quantas vezes, desejável, a vida conjugal. Quase chegou a lamentar ter perdido tão depressa o hábito de a beijar ao entrar e sair de casa, só para o poder fazer agora.” (p. 245)

Também havia uma outra vizinha, a prostituta Lídia, mantida num apartamento pelo amante Paulino Morais, rico e seboso.

E “Honorato”, pseudônimo que Saramago usou para esta obra, um escritor “subversivo”, um herege, que maculou as relação familiares da conservadora sociedade portuguesa de meados dos anos 50 e foi rejeitado com seu “Claraboia”, publicado 50 anos depois, graças à “democracia” e “liberdade de expressão” (sim, com aspas); Saramago também falou de política na voz do sapateiro Silvestre, felizmente casado com a doce Mariana, ele havia sido um revolucionário socialista quando jovem, e num diálogo com Abel, jovem que alugou um quarto na casa deles, Silvestre repreende o jovem sem ideais, que vivia sem comprometer- se com nada, repassou a sua experiência:

“Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança.” (p. 219)

As ditaduras reprimem e censuram qualquer forma de ideal de Liberté, égalité, fraternité, e quem pensa diferente, possivelmente terá problemas. Será isso que aconteceu?

O título do livro me chamou muito a atenção, Claraboia, uma espécie de telhado de vidro com a função de iluminar. Seria alguma mensagem subliminar? Quando à forma narrativa, esse livro difere do estilo saramaguiano que estamos acostumados, sem pontos nem vírgulas, onde repiração acontece naturalmente sem a intromissão de sinais gráficos. Nessa obra há um estilo gramatical muito mais acadêmico, “correto”, menos criativo e inovador que as obras escritas posteriormente.

Algumas frases interessantes do livro:

“Diz- me lá, se sabes, o que é o bem e o mal. Onde começa um e começa o outro?” (p. 90)

“Quanto mais forte for o desejo de felicidade, mais infeliz serás. A felicidade não é coisa que se conquiste. (p.111)

“O Beethoven também era feio, não teve nenhuma mulher que o amasse, e foi Beethoven.” (p. 134)

“No meu entender, as mulheres bonitas não querem amar, querem ser amadas.” (p. 134)

“- Está tudo tão mau por aí. Só ouço é gente queixar- se.

– É da situação internacional…” (p. 148) *

“Ter não é possuir. Pode ter- se até aquilo que não se deseja. A posse é o ter e o desfrutar o que se tem.” (p. 167)

“Esforcei- me. E se não o consegui ficou, ao menos, o esforço.” (p. 219)

“Nenhum poeta, como nenhum homem, seja ele quem for, é simples e natural.” (p. 267)

“Assistir é nada. Presenciar é estar morto.” (p. 268)

“Tudo o que não for construído sobre o amor gerará o ódio! (…) Mas talvez tenha que ser assim durante muito tempo…O dia em que será possível construir sobre o amor não chegou ainda…” (p. 398)

O livro passa com a média 5, raspando, não tem nada de excepcional. Será por isso que Saramago nunca o retirou da gaveta até a sua morte? Sendo pelo motivo que fosse, a viúva, que não aparenta nenhum pudor em explorar a obra do escritor vivo ou morto, se encarregou de publicar rapidamente logo após o falecimento do Nobel da Literatura.

Saramago, José. Claraboia, Lisboa, Caminho, 2011.

Preço: 18, 50 euros (na Wook, agora por 16,65)

*Sempre temos a impressão que as coisas no passado eram melhores. É só uma miragem.

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