No último fim de semana fiz uma imersão cultural em Alcalá de Henares- a segunda cidade que me sinto melhor na Europa (a primeira é Paris).

A história da Universidad de Alcalá de Henares é muito interessante, é a 4ª mais antiga da Europa, suas atividades começaram em 1239, mas o grau superior só foi implantado em 1499 por um padre franciscano chamado Cisneros, um grande defensor da cultura e da arte. Graças a esse padre a universidade foi conservada e manteve as suas atividades, pois o mandatário político da época queria vender o edifício, recortar a fachada em pedaços e vendê- la para o exterior, prática comum na época. No final, vários vizinhos da cidade compraram os edifícios da universidade, formaram uma fundação de coproprietários, foi assim durante muito tempo passando de geração em geração, até que os herdeiros cederam os edifícios ao governo de Madri, mas com a condição de que os conservassem em perfeito estado.

Os nós na fachada (nos dois lados da porta) fazem referência à ordem franciscana e significam castidade, pobreza e obediência, junto com outros símbolos católicos, como São Pedro e São Paulo segurando uma coluna e no alto, um brasão familiar do político que reinava em Alcalá na época, mostrando as duas forças poderosas, religião e política.

Na Sala do Paraninfo acontecem atos oficiais, formaturas e o famoso Prêmio Cervantes, o mais importante da língua espanhola. Na antessala estão as placas de todos os escritores premiados, como Octávio Paz, Jorge Luiz Borges e o último prêmio Nobel Mario Vargas Llosa. O prêmio é anual e concedido pela trajetória do autor, então geralmente ganham quando estão idosos. É obrigatório recebê-lo em pessoa. Reparem que no ano de 1979 Gerardo Diego e Jorge Luis Borges receberam no mesmo ano, foi uma exceção. Diego estava muito doente, acharam que ele não resistiria até o dia da solenidade, então chamaram a segunda opção: Borges. O que aconteceu? Diego não morreu e Borges já havia sido convocado, tiveram que dar dois prêmios, Borges ficou muito ofendido por ter sido a 2ª opção. No final, Borges morreu primeiro que Diego.

O interior da Sala do Paraninfo está como na época da sua inauguração, exceto o chão que é uma réplica, o resto está tal como em 1499. O chão foi estragado porque durante um período em que a universidade parou com suas atividades, essa sala foi usada como estábulo pelo prefeito da cidade que não era amante das artes.

Nesse púlpito que dá pra a igreja (que está em reforma) era onde os doutorandos apresentavam as suas teses, com um professor- anjo de um lado, que o ajuda e auxiliava, e vários professores que sentavam na sua frente e faziam perguntas dificílimas. Nesse dia tocavam os sinos das igrejas e se o doutorando fosse aprovado era um dia de festa, pois o recente doutor era obrigado a pagar um banquete para a cidade inteira (a maioria dos estudantes era de família nobre e com posses), mas se o aluno fosse reprovado, a população o levava para um desfile de humilhação pública: colocavam no estudante orelhas de burro (de verdade, sangrando) e faziam um corredor para que ele passasse e fosse cuspido até ficar branco. A perda do banquete era imperdoável.

Muitos estudantes ilustres frequentaram essa universidade, como os poetas Quevedo e Lope de Vega. A universidade tinha as suas próprias leis, não estava sujeita às leis da cidade de Alcalá e tinha sua própria cárcere. Ia para a prisão quem não falasse em latim, por exemplo. Quevedo tinha fama de farrista, conta- se que ele sempre saltava pela janela da biblioteca para cair na noite de Alcalá, para beber e namorar. A universidade tinha um regime de internato para rapazes, as mulheres não podiam estudar naquela época. Quevedo voltava bêbado altas horas da madrugada, tentava subir por onde saiu, mas não conseguia e sempre ficava na prisão por esse motivo.

A única mulher a se doutorar nessa universidade no século XVIII foi María Isidra Quintina de Guzmán y la Cerda (1768 – 1803), uma exceção. Ela conseguiu uma permissão do Rei Carlos III para apresentar sua tese, mas sem assistir aulas, ela teve que estudar em casa. Ela só conseguiu ser a primeira acadêmica da Espanha ( e a segunda da Europa, a primeira é uma italiana) porque era de família nobre e com boas relações com o rei. A sua tese foi brilhante, ela foi aprovada e ficou conhecida como a “doutora de Alcalá”. Hoje ela é lembrada com o seu nome numa rua de Madri.

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