Cheiro de Amor e Almir Serra no Brazilian Day Madrid


O Brazilian Day aconteceu ontem (25 de setembro) no Parque de Aluche,  um bairro periférico de Madri. Pastéis fritos na hora, coxinhas, esfihas, cocadas e outras guloseimas típicas brasileiras, além do Guaraná Antarctica. Música brasileira, com exceção da péssima banda espanhola de rap, “La Excepción”, que ficou fora de lugar, já que era um festival de música brasileira. Acho que foi a forma que usaram para agradar também aos espanhóis. O problema é que a banda trouxe um tipo de público desagradável para a festa familiar que estava acontecendo: a aura de maconha ficou insuportável e tivemos que mudar de lugar algumas vezes. No mais, a festa aconteceu num ambiente de paz e alegria, a praça lotada de brasileiros, principalmente.

Um cantor que eu não conhecia e gostei muito, Almir Serra:

Vídeo com umas das músicas que mais gosto, “Você”, do Tim Maia, versão de Almir Serra:

Cheiro de Amor, com Aline Rosa, chegou pra encerrar a festa, pra matar (ou piorar) as saudades da Bahia:

Vídeos do show (perdoem a péssima gravação, mas era impossível manter a câmara parada), um trechinho da abertura da Cheiro de Amor:

A música “Esperando na janela”:

Você é a escada da minha subida
Você é o amor da minha vida
É o meu abrir de olhos do amanhecer
Verdade que me leva a viver
Você é a espera na janela
A ave que vem de longe tão bela
A esperança que arde em calor
Você é a tradução do que é o amor

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Cheiro de Amor no Brazilian Day em Madri


Amanhã, domingo (25), acontecerá uma festa principalmente para os residentes brasileiros em Madrid, o Brazilian Day, no Parque de Aluche. A atração principal é a banda baiana “Cheiro de Amor”.

A festa começa às 15:00 e vai até 00:30, além de música brasileira, também haverá comidas típicas. A entrada é grátis, mas quem quiser ficar na área vip, terá que pagar de 120 a 150 euros.

Vinho com poesia


 “Os vinhos são como os homens: com o tempo, os maus azedam e os bons apuram.” Cícero

Eu sou praticamente leiga em vinhos, sou do tipo que compra pelo rótulo, pela garrafa (os vinhos que têm o fundo côncavo são os melhores, vinhos com denominação de origem certificada, fora os selos que garantem a qualidade), pelo teor alcóolico (procuro sempre os mais baixos) e também pelo nome. E comprando pelo nome, comecei a observar que existem rótulos com títulos bem interessantes, inclusive com poemas:

Os vinhos Albariños são da Galícia, e os galegos, além do espanhol, falam também o galego- português. Virando a garrafa, olha a surpresa, um poema lírico trovadoresco de Martín Códax, século XIII:

Fácil de entender, não? Muito parecido com o português.

Martin Códax foi um trovador galego, escreveu cantigas de amigo no tempo em que as poesias eram feitas para serem cantadas. Códax provavelmente era de Vigo. Ele nos deixou sete cantigas encontradas, por acaso, na  biblioteca pessoal de Paulo Vindel em 1914. O pergaminho estava dentro de um livro do filósofo Cícero. Pouco se sabe quem foi o trovador, mas sua obra lírica galaico- portuguesa é de grande valor histórico. No pergaminho de Codáx, além dos poemas, também estão as partituras musicais. As mesmas notas estão reproduzidas na rolha do vinho Códax:

Abaixo uma cantiga de amigo, cantada por um grupo galego que leva o mesmo nome do trovador:

É ou não é um vinho com poesia? Agora falta provar.

Alma do vinho assim cantava na garrafa:
“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que se abafas,
Um cântico em que só há fraternidade e luz!”
(Charles Beaudelaire, do poema L Âme du Vin)

Claraboia, José Saramago


“Claraboia” (palavra que perdeu o acento depois da reforma ortográfica) é o segundo romance de José Saramago, escrito há 40 anos, assinado por um pseudônimo e que nenhuma editora quis publicar. A  Editorial Caminho lançou o romance agora, eis a sinopse escrita pela editora:

A ação do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respetiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respetivo filho – nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respetiva mulher e uma “mulher por conta” no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respetiva filha no início da idade adulta.

O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.

O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate – debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis– com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante?

Quer comprar? Pré- venda na Livraria Bertrand e FNAC. O livro começará a ser vendido a partir do dia 17 de outubro.

“Trabalhos forçados”, Daria Galateria


Vários escritores consagrados não conseguiram sobreviver só de literatura e tiveram que fazer outros trabalhos, “Trabalhos forçados”, de Daria Galateria (Roma, 1950), reuniu num livro os ofícios que tiveram vários deles:

Jack London: caçava baleias

Boris Vian: trompetista

Collete: vendedora de bijouterias e antirrugas

Charles Bukowski: carteiro

Dashiell Hammett: detetive particular

Veja o vídeo:

Esses não estão no livro: José Saramago foi metalúrgico, auxiliar administrativo e corretor de seguros antes de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. E Paulo Coelho foi ator, jornalista e compositor das músicas de Raul Seixas antes de ser o escritor brasileiro mais conhecido no mundo atualmente.

Magnólia, Marcia Tiburi


“Literatura fragmentada” ou “Manual de frases de efeito” poderia ser o título do livro da filósofa, artista plástica e professora Marcia Tiburi (Vacaria, 6 de abril de 1970). Você pode começar do meio, do final, pode começar por qualquer parte do livro que não faz diferença, são frases soltas, desconexas e sem sentido global. O romance não- romance parece uma tentativa de imitação de Clarice Lispector, que poderia entrar na categoria de romance psicológico- se fosse um romance em primeiro lugar. Em “A paixão segundo G.H.” de Clarice existe uma barata, no de Marcia, um besouro.

Cada início de capítulo, ela coloca tópicos como um resumo de tudo o que vem depois, uma forma inovadora, que é bastante interessante, mas a falha realmente acontece no conteúdo inconsistente para o gênero a que se propõe, o livro estaria mais apropriado na categoria de contos curtos.

O livro não diz, não me disse nada.

“Breu” (p. 247). Resumo.

Tiburi, Marcia. Magnólia. Bertrand do Brasil, Rio de Janeiro, 2005. 249 páginas.

A Universidade de Alcalá de Henares, Espanha


No último fim de semana fiz uma imersão cultural em Alcalá de Henares- a segunda cidade que me sinto melhor na Europa (a primeira é Paris).

A história da Universidad de Alcalá de Henares é muito interessante, é a 4ª mais antiga da Europa, suas atividades começaram em 1239, mas o grau superior só foi implantado em 1499 por um padre franciscano chamado Cisneros, um grande defensor da cultura e da arte. Graças a esse padre a universidade foi conservada e manteve as suas atividades, pois o mandatário político da época queria vender o edifício, recortar a fachada em pedaços e vendê- la para o exterior, prática comum na época. No final, vários vizinhos da cidade compraram os edifícios da universidade, formaram uma fundação de coproprietários, foi assim durante muito tempo passando de geração em geração, até que os herdeiros cederam os edifícios ao governo de Madri, mas com a condição de que os conservassem em perfeito estado.

Os nós na fachada (nos dois lados da porta) fazem referência à ordem franciscana e significam castidade, pobreza e obediência, junto com outros símbolos católicos, como São Pedro e São Paulo segurando uma coluna e no alto, um brasão familiar do político que reinava em Alcalá na época, mostrando as duas forças poderosas, religião e política.

Na Sala do Paraninfo acontecem atos oficiais, formaturas e o famoso Prêmio Cervantes, o mais importante da língua espanhola. Na antessala estão as placas de todos os escritores premiados, como Octávio Paz, Jorge Luiz Borges e o último prêmio Nobel Mario Vargas Llosa. O prêmio é anual e concedido pela trajetória do autor, então geralmente ganham quando estão idosos. É obrigatório recebê-lo em pessoa. Reparem que no ano de 1979 Gerardo Diego e Jorge Luis Borges receberam no mesmo ano, foi uma exceção. Diego estava muito doente, acharam que ele não resistiria até o dia da solenidade, então chamaram a segunda opção: Borges. O que aconteceu? Diego não morreu e Borges já havia sido convocado, tiveram que dar dois prêmios, Borges ficou muito ofendido por ter sido a 2ª opção. No final, Borges morreu primeiro que Diego.

O interior da Sala do Paraninfo está como na época da sua inauguração, exceto o chão que é uma réplica, o resto está tal como em 1499. O chão foi estragado porque durante um período em que a universidade parou com suas atividades, essa sala foi usada como estábulo pelo prefeito da cidade que não era amante das artes.

Nesse púlpito que dá pra a igreja (que está em reforma) era onde os doutorandos apresentavam as suas teses, com um professor- anjo de um lado, que o ajuda e auxiliava, e vários professores que sentavam na sua frente e faziam perguntas dificílimas. Nesse dia tocavam os sinos das igrejas e se o doutorando fosse aprovado era um dia de festa, pois o recente doutor era obrigado a pagar um banquete para a cidade inteira (a maioria dos estudantes era de família nobre e com posses), mas se o aluno fosse reprovado, a população o levava para um desfile de humilhação pública: colocavam no estudante orelhas de burro (de verdade, sangrando) e faziam um corredor para que ele passasse e fosse cuspido até ficar branco. A perda do banquete era imperdoável.

Muitos estudantes ilustres frequentaram essa universidade, como os poetas Quevedo e Lope de Vega. A universidade tinha as suas próprias leis, não estava sujeita às leis da cidade de Alcalá e tinha sua própria cárcere. Ia para a prisão quem não falasse em latim, por exemplo. Quevedo tinha fama de farrista, conta- se que ele sempre saltava pela janela da biblioteca para cair na noite de Alcalá, para beber e namorar. A universidade tinha um regime de internato para rapazes, as mulheres não podiam estudar naquela época. Quevedo voltava bêbado altas horas da madrugada, tentava subir por onde saiu, mas não conseguia e sempre ficava na prisão por esse motivo.

A única mulher a se doutorar nessa universidade no século XVIII foi María Isidra Quintina de Guzmán y la Cerda (1768 – 1803), uma exceção. Ela conseguiu uma permissão do Rei Carlos III para apresentar sua tese, mas sem assistir aulas, ela teve que estudar em casa. Ela só conseguiu ser a primeira acadêmica da Espanha ( e a segunda da Europa, a primeira é uma italiana) porque era de família nobre e com boas relações com o rei. A sua tese foi brilhante, ela foi aprovada e ficou conhecida como a “doutora de Alcalá”. Hoje ela é lembrada com o seu nome numa rua de Madri.