Livro “O caderno de Maya”, Isabel Allende


Sinopse: Maya Vidal, americana de 19 anos, filha de um chileno e de uma dinamarquesa, criada com muito amor pelos avós paternos, Nini e Popo, num casarão em Berkeley. Com a morte do avô, que era tudo pras duas, a avó caiu numa depressão e a garota se revoltou com a perda do avô. Más companhias a fizeram cometer atos delinquentes, a conhecer as drogas e a prosmiscuidade. Acabou num centro para menores. Fugiu desse centro em Oregon e foi a pior decisão da sua vida. Chegou em Las Vegas, acabou trabalhando para um traficante de drogas e falsificador de dinheiro, logo assassinado por dois dos seus “colaboradores”, Maya teve que fugir. Virou mendiga e viciada em drogas. Sua avó a mandou para a ilha de Chiloé no Chile, para fugir dos traficantes. Na casa de Manuel Arias, descobriu a si mesma, o amor e o desamor, o misticismo do povo chileno, a história da sua família, além da história da ditadura no Chile, comandada pelo terrível general Pinochet.

Isabel Allende, uma leonina de 2 de agosto de 1942 (Lima, Peru)* radicada na Califórnia, filha de um diplomata e parente do ex- presidente chileno (seu pai era primo de Salvador Allende) foi casada duas vezes e tem um casal de filhos.  Ficou mundialmente famosa logo com seu primeiro livro “A casa dos espíritos” (1982); seu último livro foi lançado em maio desse ano, “El cuaderno de Maya”, onde tive a oportunidade de pegar o meu exemplar autografado na Feira do Livro de Madrid, veja o vídeo aqui. A escritora está muito bem com seus 69 anos:

Nesse livro Isabel contou o horror da ditadura chilena, cruel e assassina, que durou quase 20 anos (1973 até 1998) e que matou mais de 3000 adversários políticos, fora os desaparecidos e exilados, tragédia que tocou a família Allende com o suicídio do presidente socialista, lutou até o final, preferiu tirar a própria vida a entregar- se.

Os leitores chilenos podem não ficar muito contentes com Isabel Allende por causa de algumas descrições físicas do povo e costumes:

“No Chile as classes sociais dividem o povo, como as castas na Índia ou a raça nos Estados Unidos (…) as “chilotas” (da ilha de Chiloé) são gordas, baixas, com traços indígenas, desgastadas pelo trabalho e as penas”. (p. 214)

Ela descreve o interior do Chile como um lugar rudimentar, onde vida e morte são baseados na superstição, mas que ao mesmo tempo o povo tem a “esperteza” de se caracterizar de índios para conseguir ganhar dinheiro dos turistas e até uma velhinha de mais de 100 anos planta maconha no quintal.

Creio que as questões raciais apresentadas no livro podem ser lidas como ironias, como críticas. Existe a evidente superioridade européia e norte- americana diante dos “pobres índios da América do Sul”. Maya Vidal foi conhecer a mãe dinamarquesa e a narradora- personagem cita suas impressões acerca de sua mãe:

“Creio que o meu aspecto foi um secreto alívio para minha mãe, porque eu não apresentava evidência dos gens latino- americanos do meu pai e num aperto poderia passar por escandinava”. (p. 414)

Ela cita o Brasil algumas vezes, o futebol, Pelé e fala do país como sendo um destino paradisíaco para os bandidos fugirem, tal como pretendia o traficante da história.

O tema principal gira em torno das drogas e todas as consequências ruins que a dependência pode trazer. Há vinte e cinco anos, Isabel casou- se com um americano que tem três filhos biológicos e um adotado, e os três biológicos tiveram problemas com as drogas, por isso ela conta com muita propriedade e verdade todos os processos sofridos através da sua personagem Maya.

É uma narração correta, Isabel escreve bem (com exceções, frases que acho que sobraram) mas não entrou para os meus livros preferidos, porque não conseguiu me comover e não gostei da mensagem final, como se por ser jovem, todos os crimes acabam sendo perdoados ou desaparecem, o que está muito longe da realidade.

Allende, Isabel. El cuaderno de Maya. Plaza Janés, Barcelona, 2011. Preço: 23,90 euros

*Por um equívoco, eu havia atribuído a nacionalidade chilena à autora, mas ela nasceu no Peru.