“Contra o vento”, Ángeles Caso


A escritora Ángeles Caso (Gijón, 16 de julho de 1959) também é jornalista e tradutora. Ganhou com “Contra el viento” em 2009, o importante prêmio literário “Planeta”.

Ángeles Caso na Feira do Livro de Madri 2010, conversou comigo num português fluente, já morou no Rio de Janeiro. ®Todos os direitos reservados

O livro “Contra o vento” (original “Contra el viento”) é baseado em fatos reais. Ángeles teve uma empregada trabalhando na sua casa, que era de Cabo Verde. Ela  ajudou a criar a sua filha. A narradora conta a sua própria história, da sua infância marcada pela depressão da mãe (que foi também sua herança) e da repressão do pai, homem frio e déspota, até a chegada de São a sua casa. Depois passa a contar a história de São e a trajetória das mulheres cabo- verdianas em seu cotidiano difícil, de lutas e dificuldades, de maltratos físicos e humilhações numa sociedade machista, onde as mulheres não têm voz, geralmente não estudam e  são criadas para cuidar dos filhos e servir seus maridos.

O meu exemplar assinado pela autora na Feira do Livro de Madri do ano passado: “Para Fernanda, que me traz saudades do Brasil. Com meus melhores desejos, Angeles Caso”

A personagem São nasceu fruto de um estupro, cresceu sem o amor da mãe e acabou sendo abandonada por ela, que foi tentar ganhar a vida na Europa. A menina ficou com a Jovita, uma viúva que morava sozinha. A mãe mandava dinheiro para os gastos da menina, que pôde estudar, era uma aluna brilhante e sonhava em ser médica. Até o dia que o dinheiro parou de chegar e São teve que interromper os estudos com 12 anos para trabalhar. Muitas foram as dificuldades e acontecimentos, até conseguir chegar em Lisboa, depois no Algarve para trabalhar ilegalmente num bar à beira da praia. São teve uma infância e adolescência muito duras, mas jamais chorou, manteve o sonho de um futuro melhor. A única vez que São chorou desconsoladamente foi a vez que sofreu racismo, livre tradução:

“Era a primeira vez que alguém a xingava por ser negra, a primeira vez que a desprezavam por ter nascido na África. Os que voltavam da Europa não contavam essas coisas. Não explicavam que uma pessoa negra no meio de tantos brancos era igual que levar uma luz permanentemente acesa, e que havia gente que desejava apedrejá- la. Queria regressar a Cabo Verde e ser uma mais, igual a todos, invisível. No momento, não lhe importava mais a miséria, nem tampouco o futuro. Só desejava desaparecer entre a multidão.” (p. 146)

O mais importante desse livro, a meu ver, é a parte da denúncia, de mostrar o que sente uma pessoa menosprezada por sua nacionalidade, sua cor num país estrangeiro. Muitas pessoas, brancas, amarelas ou negras, de diversas partes do mundo que vivem na Europa por motivos variados, podem contar histórias parecidas com as de São. Muita gente sofre preconceito, racismo, xenofobia por causa do seu sotaque, da sua procedência. Como  São, também já sentiram vontade de me “apedrejar” e o meu sentimento foi exatamente como descreveu Ángeles Caso: de tristeza, de desejo de regresso, de dor, de perplexidade, de impotência e de horror. A incapacidade de entender que exista gente que sinta raiva só por você existir. O olhar…os olhares de desprezo machucam mais que mil palavras, embora um punho cerrado também.

Ángeles também fala do maltrato machista, covarde, superior fisicamente, que esmurra até uma mulher grávida. São caiu numa armadilha do amor, que começou doce pra se converter num pesadelo. O amor foi substituído pelo medo e São decidiu sair de Lisboa a Madri, com o pequeno André nos braços.

A narradora acha que a vida é decidida pela sorte ou o azar, que as nossas ações resultam em coisas imprevisíveis, que mesmo fazendo tudo certo, as coisas saem erradas muitas vezes. Que o lugar que se nasce, a condição financeira são coisas ditadas pela sorte e o azar. São é uma dessas pessoas que não têm sorte, por mais que lute, sempre as coisas acabam saindo torcidas. A mulher madrilenha que cresceu numa casa confortável com jardim, que cresceu medrosa e frágil, começou a sentir- forte quando São começou a trabalhar na sua casa. A sua depressão ficou pequena diante das agruras da vida da cabo- verdiana. A amizade entre as duas cresceu e ficou forte, apesar de mundos tão diferentes.

No final do livro a autora cita as suas “personagens reais”, citando seus nomes e sobrenomes, agradecendo por terem “emprestado” parte de suas histórias.

Um livro muito bem escrito, emotivo, com um estilo elegante e uma leitura fluída.

Caso, Angeles. Contra el viento, 9ª edição, Planeta, Barcelona, 2010.

Preço: 21 euros

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