O Alienista, Machado de Assis


Joaquim Maria Machado de Assis ( Rio de Janeiro, 21/06/ 1839 – Rio de Janeiro, 29/ o9/1908) foi o grande prosista brasileiro do período realista. Machado pertencia à uma família humilde, perdeu a mãe quando criança e foi criado pela madrasta, uma mulata, tal como o seu pai. O seu gênio criativo não foi afetado apesar da saúde frágil: tinha epilepsia e era gago. Durante a sua infância vendeu doces num colégio junto com a sua madrasta. Exemplo de que a literatura salva. As Letras o retiraram do morro, da pobreza, do preconceito. O seu talento o tornou imortal e perdemos a chance de ganhar um Nobel de Literatura com Machado, esse grande mestre do nosso idioma.

“O Alienista” entra na categoria de conto, por sua extensão. A história é narrada com muita graça e originalidade. Tanto a forma, quanto o conteúdo demonstram esmero na linguagem e a superioridade do escritor, muito acima da média. Usa uma ironia fina, inteligente, na medida. O Alienista, psiquiatra, homem sério das ciências, na faixa dos quarenta anos. Simão Bacamarte, casou- se com uma viúva de 25 anos, dona Evarista da Costa e Mascarenhas. Escolheu a mulher como esposa, porque “reunia as condições  fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava apta para dar- lhe filhos robustos, sãos e inteligentes” (p. 4). Só que não tiveram filhos.

Simão Bacamarte consegue com a ajuda do governo de Itaguaí, fundar um hospital psiquiátrico, um hospício. Sua maior motivação é estudar os casos de loucura. Na sua vida cotidiana vai encontrando “loucos” por todas as partes e os vai levando para a “Casa Verde”, que vai ficando lotada de gente conhecida na cidade…o poeta, o albardeiro, um senhor que ganhou na loteria e perdeu tudo, a senhora que foi reclamar, todos estavam ensandecidos e assim iam sendo levados para a Casa Verde. A partir daí a cidade se revoluciona, a “revolução dos Canjicas”, liderada pelo barbeiro ávido pelo poder, que destitui o governo vigente e pede a cabeça de Simão Bacamarte. “Onze mortos e vinte e cinco feridos”. (p. 63) Repetia uma e outra vez o Alienista. Declarou que o barbeiro Porfírio também estava doido. Ele também foi ingressado na Casa Verde com outros cinquenta aclamadores do novo governo…e assim foram sendo internados todos os que iam contra a ciência e a Simão Bacamarte. “Tudo era loucura”. (p. 67) Até as namoradeiras.

Talvez o que nos quis dizer Machado é que o mundo é um grande hospício, que em menor ou mais grau, todos temos algo de loucura em nossa personalidade. Completamente de acordo.

Você pode ler a obra toda de Machado de Assis, grátis aqui.

Assis, Machado. O alienista. Alma azul. Coimbra, 2005. 92 páginas.

Preço: 14, 56 euros – Livraria La Central (Museu Reina Sofia, Madri)

 

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2 Comments »

  1. Consta que Rui Barbosa disse que “chegará o dia em que se terá vergonha de ser honesto.” Caraca. Pois bem. O recentemente falecido ex vice presidente José Alencar disse: “Eu não tenho medo de morrer, não; eu tenho medo é da desonra.” Caramba. Segura, peão ! Dias Gomes disse que “o Brasil é um país que desmoraliza o Absurdo.” Ixe, ó xente, uai, barbaridade, chê !

    Tudo isto aí acima desemboca aqui como explicação e introdução acerca do motivo de eu gostar do Machado – o de Assis, o Joaquim Maria: é que eu sou humoroso, além de amoroso, e gosto demais de rir com os mil estrupícios e estropícios diários do povão, da simploriedade que grassa em todos os níveis intelectuais e financeiros, etc. E em certos livros do Machado Cosme Velho a gente ri um bocado, porque lá estão bem mostrados os muros e os becos psíquicos… hehe. É de se notar que o poeta foi um dos ‘convocados’ para integrar as fileiras da casa verde.

    Mil e duas vezes muito obrigado, Fernanda Jimenez, por esta postagem.

    Darlan M Cunha

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