O apanhador no campo de centeio, J.D. Salinger


“O menino ia pela calçada (…) sem parar de cantar e sussurrar. Cheguei perto para ouvir o que cantava. Cantava essa canção, ‘Se um corpo agarra outro corpo quando vem entre o centeio'” (p.158)*

Eu adoro escritores misteriosos, arredios à imprensa, reclusos, meio egocêntricos e temperamentais. Acabam transformando- se em personagens míticos e atemporais, que fazem da sua vida, sua obra. São qualificativos que podiam ser aplicados ao escritor Jerome David Salinger (New York, 01- 01- 1919- New Hampshire,  21- 01- 2010).

Salinger numa tentativa de agressao a um fotógrafo. Foto Paul Adao

Interessante ver um escritor assim da distância, mas a convivência diária não devia ser nada fácil, como conta a sua filha mais velha Margaret A. Salinger, que escreveu uma biografia sobre a sua vida com o pai escritor, “O guardião dos sonhos”.  Salinger não fica em muito bom lugar: machista, insensível, egoísta, fazia sofrer as mulheres, queria fazer da sua família uma seita e transformar a sua vida num romance. A filha não estranhava que seus personagens acabavam se suicidando. Margareth conta que ele vivia num mundo de sonhos, irreal e transformou a sua infância num pesadelo. Errar para ele era imperdoável e ele era completamente insensível a dor alheia. Segundo Margareth, Salinger era atormentado pela incapacidade de amar e pela depressão pós- guerra. A biografia fica entre a admiração que a filha tinha pelo escritor e o tormento que sofria com o pai insensível e egoísta.

Margareth Salinger, foto: El País

O mítico livro “O apanhador no campo de centeio” (original: The Catcher in the Rye   e em Portugal: À espera no centeio ou Uma agulha no palheiro) conta a história, em primeira pessoa, de Holden Caulfield, um adolescente rebelde de 16 anos, expulso de três colégios e que vai para Nova York viver uma aventura adulta por três dias, às vésperas do Natal. Apesar de rebelde, Holden é sensível, gosta de crianças, não gosta de se aproveitar das garotas. O menino quer ser homem à força, virgem, mas recusa uma prostituta, sente pena da moça. É apegado a sua família, sente falta da irmãzinha e recorda com muito amor do irmão falecido por causa de uma leucemia.

Brigas, sexo (ou a falta de), bebida, cigarro, música, a mentira e a solidão são ingredientes do “O apanhador”, que tem uma forma de narrativa muito interessante: o jovem solta uma frase,mas na verdade está pensando outra coisa. Salinger destapa o que dizemos e o que pensamos na verdade; o que está bem visto dizer socialmente e o sentimos realmente, e isso é fascinante! A linguagem é bastante coloquial e cheia de gírias repetitivas e típicas da adolescência.

Edições em vários idiomas. Foto: El País

Um exemplar desse livro estava no bolso do sobretudo do assassino de John Lennon na hora do crime.O assassino declarou que no livro havia um sinal de que ele devia matar o ex- Beatle. Mark Chapman, tinha problemas psicológicos, já havia tentado suicidar- se e quis imitar a vida de Holden Caulfield.  A partir desse fato o livro começou a ser visto com um certo tom sombrio, obscuro. Penso que o psicopata pode ter sido influenciado pelo trecho em que Holden se imagina com uma bala no ventre depois de uma briga com o ascensorista do hotel em que está hospedado, e ferido, sangrando, atira seis vezes no homem.

Podem ler o livro online (português de Portugal), versão para imprimir.

Versão espanhola que eu li:

Salinger, J.D. El guardián entre el centeno. Alianza, Madrid, 2010. 279 páginas.

Preço: 8,50 Casa del Libro

*Poema de Robert Burns, que inspirou o título da obra.

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