Desconhecer a história te faz sentir melhor? Crê que por não conhecê- la não existiu? (p. 160)

Julia Navarro (Madrid, 1953) é jornalista e escritora.  Ela  participou da Feira do Livro de Madri 2010 e escreveu uma dedicatória no meu exemplar de “Dime quién soy”, que me emocionou. Eu acho a palavra “perdedores” muito forte, como se fosse um fardo, destino, karma que não há como fugir:

Fernanda, espero que esta novela te emocione. É uma história de personagens complexos, contraditórios e perdedores. Com afeto. Julia Navarro.

“Dime quién soy” (“Diz- me quem sou”) é o 4º livro de Julia Navarro, que pode ser classificado como gênero histórico, igual aos três anteriores. Em português brasileiro há duas edições disponíveis: “A bíblia de barro” e “A irmandade do Santo Sudário”, ambas pela Ediouro.

O livro emocionou- se sim, Julia. Muito mais do que eu esperava. Chorei até, e olha que são poucos os livros que me fizeram chorar (entre eles “O meu pé de laranja lima”, ainda na pré- adolescência). Como não chorar com as barbáries da guerra e do Holocausto? Perseguição, tortura, morte de gente sem culpa. Famílias de bem, “normais”, que acabaram destruídas, arrasadas, doentes. A guerra civil espanhola, a 2º guerra mundial e a Guerra Fria. Hitler, Mussolini, Franco…encarnações da maldade na Terra. Como lutar contra esses diabos? Eles perderam a guerra, mas os judeus  e opositores perderam muito mais. Franco não, nem a guerra perdeu. Franco só deixou a Espanha quando morreu de velho.

A ficcção misturada com a realidade, passei a ser Amélia Garaoya, Julia. Amelia, a burguesa de família abastada de Madri, loira, frágil, quase etérea, “nem parecia espanhola”.Vivia no Bairro Salamanca em Madri, falava vários idiomas. Por amor, deixou para trás o marido Santiago e Javier, o filho ainda bebê. Ela o amava, mas o pequeno acabava tirando a sua liberdade adolescente de 19 anos. Amelia queria ser livre. Pelo amor de um homem e pelo amor à liberdade, fugiu, foi em busca de um sonho. Mas o comunismo se perdeu, o amor à Pierre, também. O que restou? O fascismo, o nazismo. O pai assassinado, a mãe morta de desgosto. Fome. Dor. Tortura. Tuberculose.

Eu, Amelia, também teria matado o nazista, Julia. Não só um, eu teria matado todos os nazistas. Virei assassina, sem remorço. Eu também apertei aquele gatilho. O problema é justamente esse…que para vencê- los há que se tornar um deles. A pessoa deixa de ser gente, passa a ser um animal instintivo, que ataca para se defender. Amelia virou um animal. Cometeu erros, erros que mataram até quem ela amava.

Relato de Guillermo ao sair do Museu do Holocausto em Jerusalém:

Saí do Museu oprimido, com o estômago dando voltas e uma sensação de náusea. Como foi possível que toda uma nação  tivesse enlouquecido até o ponto de ter assassinado massivamente a milhões de pessoas por ser de uma raça diferente ou por ter outra religião? (p. 905)

Vítimas do Holocausto. Não é de embrulhar o estômago? São fotos de antes da guerra, a do bebê é de 25/06/1922 e a da família é de 1937, são húngaros: Museu do Holocausto (Jerusalém)

O bisneto jornalista reconstrói a vida de Amelia a pedido da sua tia, depois a pesquisa passa a ser paga por parentes que viveram com Amelia, suas primas e uma criada da casa da família de Amelia. Guillermo percorre todos os países em que esteve a sua bisavó, na Argentina e pela Europa em guerra e vai resgatando a história de Amelia Garayoa, desconhecida para a sua família, e descobre que foi uma comunista e espiã do governo inglês e americano.

Eu fiquei feliz demais pelo Egito que conseguiu libertar- se do seu ditador e agora a Nigéria que parece que vai pelo mesmo caminho. O povo no Irã também começou a se manifestar. Quando o povo se reúne nada os pode deter, é uma força invencível. Pena que os judeus não descobriram isso na época do Holocausto, eles nem tiveram tempo e suponho que nunca imaginaram o que os esperava e o que Hitler seria capaz de fazer. Foi tudo tão desumano que fugia ao entendimento das pessoas normais. As descrições das torturas nos livros de Julia Navarro me deixaram angustiada. Horrível pensar que realmente aconteceram.

Espero que em breve tenha uma edição brasileira de “Dime quién soy”, um livro altamente recomendável, extenso, mas que corre fácil e que vai ficando melhor a cada página. A narrativa não cai de ritmo em nenhum momento, um grande feito para um livro com 1097 páginas. Chorei, me emocionei muito e o final ainda conseguiu me surpreender. Todos os meus respeitos e admiração à Julia Navarro, sem dúvida uma grande escritora que entrou para a lista das minhas preferidas.

Julia…não sei se Amelia foi uma perdedora, embora tenha perdido demais. Na minha opinião, foi bem mais uma heroína.

Navarro, Julia. Dime quién soy. Barcelona. Plaza Janés, 4ª edição, 2010. 1097 páginas.

Preço: 23,90, Livraria do El Corte Inglés.

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