“O ar em seu estado natural”, Darlan M. Cunha


(…) ainda se procura pela paisagem na janela, pois viajar

é mais, é cais, mesmo se a noite chegar outra vez”(p. 17)

Darlan Matos Cunha (Medina, Minas Gerais) escreve prosa e poesia. Premiado em concursos literários pelo Brasil e diz que ” o violão é amigo, traço psiquíco”.

Darlan em Minas Gerais, foto do acervo do escritor, Flickr

O escritor tem uma vasta cultura geral, faz mil referências e passeia com bastante desenvoltura pela psicologia, música, arte e a literatura. Na sua obra ele brinca com as palavras e faz uma releitura de versos de canções  do Clube da Esquina, inseridos com muita naturalidade dentro dos seus textos, fazendo brotar sentimentos e recordações através dos seus poemas e de uma esmerada prosa poética. Darlan, morador do bairro Floresta, vizinho ao de Santa Teresa, participou desse ambiente boêmio e muito rico musicalmente.

Darlan e amigos em Minas Gerais, foto do acervo do escritor, Flickr

O Clube da Esquina foi um movimento musical nascido nos anos 60 na capital mineira. Fizeram parte desse movimento o cantor Milton Nascimento, os irmãos Marilton, Márcio e Lô Borges, Flávio Venturini, Vermelho, Tavinho Moura, Toninho Horta, Beto Guedes e  Fernando Brant e outros. Essa turma ganhou recentemente o Museu Clube da Esquina, em Belo Horizonte:

Lô Borges e o governador de Minas Gerais em exercício na época da criação do Museu do Clube da Esquina (2010). Foto: Governo de Minas

Segundo o próprio autor, a foto da contracapa de “O ar em seu estado natural”, foi feita no “Bar do Bolão”, em Belo Horizonte, na Praça de Santa Teresa, onde começou o Clube da Esquina. No bar pode- se ver muitas fotos e recordações, na página 22 o autor faz referência a esse bar por sua deliciosa macarronada.

O Darlan escreve o blog Paliavana. Para quem não sabe, paliavana é um gênero de flor que só se encontra no sul do Brasil e uma espécie dela só nasce em Minas Gerais. Darlan, tal como a paliavana, é dessas espécies raras, que escrevem com alma uma literatura carregada de imagens poéticas muito bem elaboradas. Um escritor com muitos recursos literários que vale a pena conhecer e aprender.

“Fez- se noite em meu viver quando você foi embora para onde o gosto pela procura mantém de pé a criatura.” (p.  48)

Bibliografia do autor:

*ANDA (poemas), Voorara (independente)

*MÍNIMOS CONTOS ORDINÁRIOS. Ed. Voorara (independente)

*ESBOÇOS E REVESES: O SILÊNCIO (poemas). Ed. CBJE, RJ, 2008

Cunha, D. M., “O ar em seu estado natural”. CBJE, Rio de Janeiro, 2010. 75 páginas

Preço: 35 reais

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O apanhador no campo de centeio, J.D. Salinger


“O menino ia pela calçada (…) sem parar de cantar e sussurrar. Cheguei perto para ouvir o que cantava. Cantava essa canção, ‘Se um corpo agarra outro corpo quando vem entre o centeio'” (p.158)*

Eu adoro escritores misteriosos, arredios à imprensa, reclusos, meio egocêntricos e temperamentais. Acabam transformando- se em personagens míticos e atemporais, que fazem da sua vida, sua obra. São qualificativos que podiam ser aplicados ao escritor Jerome David Salinger (New York, 01- 01- 1919- New Hampshire,  21- 01- 2010).

Salinger numa tentativa de agressao a um fotógrafo. Foto Paul Adao

Interessante ver um escritor assim da distância, mas a convivência diária não devia ser nada fácil, como conta a sua filha mais velha Margaret A. Salinger, que escreveu uma biografia sobre a sua vida com o pai escritor, “O guardião dos sonhos”.  Salinger não fica em muito bom lugar: machista, insensível, egoísta, fazia sofrer as mulheres, queria fazer da sua família uma seita e transformar a sua vida num romance. A filha não estranhava que seus personagens acabavam se suicidando. Margareth conta que ele vivia num mundo de sonhos, irreal e transformou a sua infância num pesadelo. Errar para ele era imperdoável e ele era completamente insensível a dor alheia. Segundo Margareth, Salinger era atormentado pela incapacidade de amar e pela depressão pós- guerra. A biografia fica entre a admiração que a filha tinha pelo escritor e o tormento que sofria com o pai insensível e egoísta.

Margareth Salinger, foto: El País

O mítico livro “O apanhador no campo de centeio” (original: The Catcher in the Rye   e em Portugal: À espera no centeio ou Uma agulha no palheiro) conta a história, em primeira pessoa, de Holden Caulfield, um adolescente rebelde de 16 anos, expulso de três colégios e que vai para Nova York viver uma aventura adulta por três dias, às vésperas do Natal. Apesar de rebelde, Holden é sensível, gosta de crianças, não gosta de se aproveitar das garotas. O menino quer ser homem à força, virgem, mas recusa uma prostituta, sente pena da moça. É apegado a sua família, sente falta da irmãzinha e recorda com muito amor do irmão falecido por causa de uma leucemia.

Brigas, sexo (ou a falta de), bebida, cigarro, música, a mentira e a solidão são ingredientes do “O apanhador”, que tem uma forma de narrativa muito interessante: o jovem solta uma frase,mas na verdade está pensando outra coisa. Salinger destapa o que dizemos e o que pensamos na verdade; o que está bem visto dizer socialmente e o sentimos realmente, e isso é fascinante! A linguagem é bastante coloquial e cheia de gírias repetitivas e típicas da adolescência.

Edições em vários idiomas. Foto: El País

Um exemplar desse livro estava no bolso do sobretudo do assassino de John Lennon na hora do crime.O assassino declarou que no livro havia um sinal de que ele devia matar o ex- Beatle. Mark Chapman, tinha problemas psicológicos, já havia tentado suicidar- se e quis imitar a vida de Holden Caulfield.  A partir desse fato o livro começou a ser visto com um certo tom sombrio, obscuro. Penso que o psicopata pode ter sido influenciado pelo trecho em que Holden se imagina com uma bala no ventre depois de uma briga com o ascensorista do hotel em que está hospedado, e ferido, sangrando, atira seis vezes no homem.

Podem ler o livro online (português de Portugal), versão para imprimir.

Versão espanhola que eu li:

Salinger, J.D. El guardián entre el centeno. Alianza, Madrid, 2010. 279 páginas.

Preço: 8,50 Casa del Libro

*Poema de Robert Burns, que inspirou o título da obra.

Resenha: Diz- me quem sou, de Julia Navarro


Desconhecer a história te faz sentir melhor? Crê que por não conhecê- la não existiu? (p. 160)

julia

Foto: Fernanda Sampaio

Julia Navarro (Madrid, 1953) é jornalista e escritora.  Ela  participou da Feira do Livro de Madri 2010 e escreveu uma dedicatória no meu exemplar de “Dime quién soy”, que me emocionou. Eu acho a palavra “perdedores” muito forte, como se fosse um fardo, destino, karma que não há como fugir:

dedicatória

Foto: Fernanda Sampaio

Fernanda, espero que esta novela te emocione. É uma história de personagens complexos, contraditórios e perdedores. Com afeto. Julia Navarro.

“Dime quién soy” (“Diz- me quem sou”) é o 4º livro de Julia Navarro, que pode ser classificado como gênero histórico, igual aos três anteriores. Em português brasileiro há duas edições disponíveis: “A bíblia de barro” e “A irmandade do Santo Sudário”, ambas pela Ediouro.

O livro emocionou- se sim, Julia. Muito mais do que eu esperava. Chorei até, e olha que são poucos os livros que me fizeram chorar (entre eles “O meu pé de laranja lima”, ainda na pré- adolescência). Como não chorar com as barbáries da guerra e do Holocausto? Perseguição, tortura, morte de gente sem culpa. Famílias de bem, “normais”, que acabaram destruídas, arrasadas, doentes. A guerra civil espanhola, a 2º guerra mundial e a Guerra Fria. Hitler, Mussolini, Franco…encarnações da maldade na Terra. Como lutar contra esses diabos? Eles perderam a guerra, mas os judeus  e opositores perderam muito mais. Franco não, nem a guerra perdeu. Franco só deixou a Espanha quando morreu de velho.

A ficcção misturada com a realidade, passei a ser Amélia Garaoya, Julia. Amelia, a burguesa de família abastada de Madri, loira, frágil, quase etérea, “nem parecia espanhola”.Vivia no Bairro Salamanca em Madri, falava vários idiomas. Por amor, deixou para trás o marido Santiago e Javier, o filho ainda bebê. Ela o amava, mas o pequeno acabava tirando a sua liberdade adolescente de 19 anos. Amelia queria ser livre. Pelo amor de um homem e pelo amor à liberdade, fugiu, foi em busca de um sonho. Mas o comunismo se perdeu, o amor à Pierre, também. O que restou? O fascismo, o nazismo. O pai assassinado, a mãe morta de desgosto. Fome. Dor. Tortura. Tuberculose.

Eu, Amelia, também teria matado o nazista, Julia. Não só um, eu teria matado todos os nazistas. Virei assassina, sem remorço. Eu também apertei aquele gatilho. O problema é justamente esse…que para vencê- los há que se tornar um deles. A pessoa deixa de ser gente, passa a ser um animal instintivo, que ataca para se defender. Amelia virou um animal. Cometeu erros, erros que mataram até quem ela amava.

Relato de Guillermo ao sair do Museu do Holocausto em Jerusalém:

Saí do Museu oprimido, com o estômago dando voltas e uma sensação de náusea. Como foi possível que toda uma nação  tivesse enlouquecido até o ponto de ter assassinado massivamente a milhões de pessoas por ser de uma raça diferente ou por ter outra religião? (p. 905)

Vítimas do Holocausto. Não é de embrulhar o estômago? São fotos de antes da guerra, a do bebê é de 25/06/1922 e a da família é de 1937, são húngaros: Museu do Holocausto (Jerusalém)

O bisneto jornalista reconstrói a vida de Amelia a pedido da sua tia, depois a pesquisa passa a ser paga por parentes que viveram com Amelia, suas primas e uma criada da casa da família de Amelia. Guillermo percorre todos os países em que esteve a sua bisavó, na Argentina e pela Europa em guerra e vai resgatando a história de Amelia Garayoa, desconhecida para a sua família, e descobre que foi uma comunista e espiã do governo inglês e americano.

Eu fiquei feliz demais pelo Egito que conseguiu libertar- se do seu ditador e agora a Nigéria que parece que vai pelo mesmo caminho. O povo no Irã também começou a se manifestar. Quando o povo se reúne nada os pode deter, é uma força invencível. Pena que os judeus não descobriram isso na época do Holocausto, eles nem tiveram tempo e suponho que nunca imaginaram o que os esperava e o que Hitler seria capaz de fazer. Foi tudo tão desumano que fugia ao entendimento das pessoas normais. As descrições das torturas nos livros de Julia Navarro me deixaram angustiada. Horrível pensar que realmente aconteceram.

Espero que em breve tenha uma edição brasileira de “Dime quién soy”, um livro altamente recomendável, extenso, mas que corre fácil e que vai ficando melhor a cada página. A narrativa não cai de ritmo em nenhum momento, um grande feito para um livro com 1097 páginas. Chorei, me emocionei muito e o final ainda conseguiu me surpreender. Todos os meus respeitos e admiração à Julia Navarro, sem dúvida uma grande escritora que entrou para a lista das minhas preferidas.

Julia…não sei se Amelia foi uma perdedora, embora tenha perdido demais. Na minha opinião, foi bem mais uma heroína.

Navarro, Julia. Dime quién soy. Barcelona. Plaza Janés, 4ª edição, 2010. 1097 páginas.

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Preço: 23,90, Livraria do El Corte Inglés.

Moacyr Scliar


O médico e escritor Moacyr Jaime Scliar (Porto Alegre, 23/03/1937) está passando por uma fase complicada de saúde, está internado no Hospital das Clínicas em Porto Alegre.

Scliar é o sétimo ocupante da cadeira nº 31 da Academia Brasileira de Letras, com mais de 70 livros publicados e muitos prêmios literários. Também é colunista da Folha de São Paulo.

Foto: Folha de SP

Uma entrevista concedida ao programa Roda Viva da Tv Cultura, de 17 de agosto de 2010, programa que o escritor se declara  fã e que sente muita alegria em participar. Um dos jornalistas  na “roda” é o escritor e amigo, Inácio de Loyola Brandão, com a participação também do chargista Caruso:

E aqui uma música que Scliar cita no seu texto “As memórias do amor”, uma música que ele considera uma das possíveis respostas para a pergunta “O que é o amor?”, John Denver e Plácido Domingos, “Perhaps Love”:

O amor, tema recorrente nos seus contos, como em “A mulher dos meus sonhos” (leia na íntegra) onde Scliar aconselha a sonhar, “encomende o seu sonho”, para não acontecer o ocorrido com o personagem, que simplesmente deixou de acreditar, desistiu de encontrar a mulher dos seus sonhos :

Silenciosamente entrou no quarto, olhou para a mulher: era linda. E então avistou, sobre a mesa de cabeceira, um papel cuidadosamente dobrado. Não precisava abri-lo para saber o que ali estava escrito: “Quero encontrar o homem dos meus sonhos”.
Com um suspiro, deitou-se. E, tendo tomado um sonífero, adormeceu. Um sono bruto, pesado. Um sono sem sonhos.

Espero que Scliar se recupere e continue sonhando, vivendo e amando por muito tempo.

UPDATE: hoje, 27-02-2011, o meu querido escritor decidiu descansar…Descanse em paz, Moacyr!

 

 

Padaria/confeitaria brasileira em Madri: Trigo de Oro


❝Não é possível pensar bem, amar bem e dormir bem se não se tiver jantado bem.❞ Virgínia Woolf

Uma forma gostosa de matar um pouco as saudades do Brasil:

A padaria Trigo de Oro é da mineira Solange, que explica com muita simpatia e aquela habitual hospitalidade brasileira, como são elaboradas as guloseimas da sua padaria/ confeitaria, junto com Roberto:

Tudo feito com coração sai gostoso, né?

Provei coxinhas, esfihas, pão-de-queijo, kibe, torta de morangos, beijinho…pois é, comi isso tudo sim! Tudo muito gostoso e bem- feito.

Coxinha com marca registrada.

Ainda faltam muitas coisas para provar na Trigo de Oro, como os bombons de morangos que parecem ser divinos. E aí, vamos comigo?

Trigo de Oro

Calle Paseo de las Delicias, 113

Madrid- Madrid

Web: http://www.trigodeoro.com/tienda/