“Perto do Coração Selvagem”, Clarice Lispector


“Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando- os de lado, murchos, cheios de passado. (…) Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos, que não precisam de passado nem futuro para existir.” (Clarice Lispector)

A escritura de Clarice é composta por senhas, mensagens, enigmas…sobre a sua própria vida?

Não sei se foi sorte ou infortúnio poder escorregar tão profundamente no mundo interior, no mais profundo da alma humana, como fez Clarice Lispector. Nossa escritora ucrano- brasileira, inaugurou um jeito diferente de escrever no Brasil: a literatura psicológica. Desde o seu primeiro livro, “Perto do coração selvagem”(publicado em 1943) escrito aos 20 anos, Clarice correu o risco de ficar presa numa zona com difícil retorno. E talvez tenha ficado. Não podemos julgar a sua personalidade apenas por sua obra, mas existem depoimentos que comprovam o mau estado de ânimo de Clarice Lispector durante a sua vida, um deles:

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

(Caio Fernando de Abreu, Porto Alegre, 22 de dezembro de 1979, em uma carta dirigida ao amigo e jornalista José Márcio Penido, trecho retirado do site http://www.releituras.com)

Na linha dos grandes escritores, a genial Clarice Lispector escreveu  “Perto do coração selvagem”, com uma entrega total, sangue e dor, com uma força criativa abismal para uma menina de apenas 20 anos. Muitas vezes duvidei que tenha sido ela mesma a escritora desse livro, pela pouca maturidade e vivências que pode ter uma jovem dessa idade. No entanto, Clarice não era uma pessoa comum e não deve ter sido uma jovem das mais simples. Possivelmente, Clarice tenha nascido escritora, e nesses casos raros, a experiência não conta muito, já que em seu mundo psicológico ela conseguia recriar experiências absolutamente reais, que nos identificamos e que nos provocam facilmente um estado de catarse. No caso desse livro, em tão tenra idade, Clarice conseguiu imitar a vida. Ela mesma fala algo sobre o “gênio”, sobre certa cegueira que é necessária para o artista conseguir enxergar certas coisas. Será que foi uma reflexão que fez sobre si mesma? Cito:

Não é o grau que separa a inteligência do gênio, mas a qualidade. O gênio não é tanto uma questão de poder intelectivo, mas da forma por que se apresenta esse poder. Pode- se assim ser facilmente mais inteligente que um gênio. (p. 119)

Joana é uma jovem personagem com uma vida dramática, órfã de pai e mãe, que acaba indo viver com seus tios, os quais não se identifica e acaba se fechando. Ainda entrando na adolescência, apaixona- se pelo seu professor, muito mais velho e casado. A história é narrada em tempos diferentes, Joana menina e Joana mulher. A Joana adulta é casada com Otávio, onde cria um mundo psicológico para tentar ser feliz, entre o conflito do amor e ódio vai oscilando, tentando encontrar uma paz impossível. Paz que não encontrou também na vida pessoal.

 Na época da escritura de “Perto do coração selvagem”, Clarice vivia um conflito muito grande, um amor impossível: apaixonou- se pelo escritor mineiro Lúcio Cardoso, homossexual assumido, segundo a biografia de Clarice escrita pelo jornalista norte- americano Benjamin Mose. Casou- se no mesmo ano da publicação dessa sua primeira obra (1943) e já divorciada nos anos sessenta, envolveu- se com o escritor Paulo Mendes Campos, casado. Clarice amou Paulo até o fim dos seus dias, segundo Mose, que acredita que os desamores de Clarice aumentaram o seu poder de criação.

Será a sua obra reflexo de si mesma? Clarice era uma escritora entregada…seus livros, seu espelho? Difícil não sentir vontade de decifrar Clarice.

9789727085743

Lispector, Clarice.Perto do coração selvagem. Relógio D’água, Portugal, 2000.

Preço: 13 euros

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