O império do efêmero, Zygmunt Bauman (conferência, Madrid, 2010)


Estamos vivendo a era do passageiro. Quase nada é feito para durar, tudo passa veloz e acaba caindo na insignificância.  Todo mundo tem pressa, urgência, ninguém entra mais em labirintos, a preferência é pelos atalhos. Chega- se antes, mas não se aprecia a paisagem, o caminho. A aprendizagem, que só o tempo proporciona fica prejudicada. Os bons pratos precisam de tempo para serem degustados, mas o fast- food prevalece. Até as pessoas são descartáveis na hora das relações de trabalho. A balança é descompensada e sofre o lado mais fraco. A troca é injusta, desigual. Quantos precisam sofrer para um só ficar rico?

Reflexões depois de assistir a conferência “Desigualdade na era moderna líquida”, do filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman (19-11-1925, Póznan- Polônia) catedrático emérito das universidades de Leeds e Varsóvia, que impressiona pela vitalidade, memória e lucidez aos seus 85 anos. Foi um imenso prazer ouvir Bauman por quase uma hora, que em pé, expôs seus pensamentos acerca das mudanças e das desigualdades nas relações sociais contemporâneas.

 Zygmunt Bauman na Universidad Complutense de Madrid (Campus Somosaguas), Espanha, 10-12-2010 (foto: Fernanda Jiménez)

Na Europa, as desigualdades entre pobres e ricos estão aumentando, nos países em vias de desenvolvimento está acontecendo o contrário, segundo Bauman. As dificuldades fiscais, as exigências dos trabalhadores e sindicatos,  acabam fazendo com que as grandes empresas “peguem seu notebook e celular e se mudem de país”. Mudam para outro lugar onde os empregados trabalhem mais, sem reclamar, por muito menos e os governos colaborem com incentivos e baixos impostos. Por isso, citei à princípio a “balança descompensada”, o trabalhador é descartável, tudo é muito fácil para o empregador no mundo globalizado e pior para o empregado, frágil, desprotegido e prescindível nesse processo todo.

(foto: Fernanda Jiménez) 

Zygmunt Bauman surpreendeu no final da sua conferência citando José Saramago e declarando- se apaixonado pela obra do escritor português. Disse que descobriu Saramago depois do seu falecimento e ficou fascinado pelo escritor humanista. Leu uma cita do livro- diário de Saramago, “Cadernos”, que faz uma série de questionamentos sobre a situação de exploração, miséria, humilhação, dor de muitas pessoas para enriquecer apenas uma. “Até quando?!”