Susana Herrero Gásquez: “La ventana del ángel”


“A janela do anjo”, um belo título com teor esotérico que me chamou a atenção na última Feira do Livro de Madri (ver autora). Susana, muito simpática, autografou o meu exemplar  e eu fui para casa carregada de bons pressentimentos em relação ao livro.

A narrativa começa com um rapaz, Álvaro, que entra em coma depois de pular no mar  na cidade de Santamirela, suponho que fictícia, já que não aparece no mapa da Espanha. Fica nesse estado de coma durante 7 meses, tempo que perde seu trabalho, sua namorada Laura e sua mãe de um enfarte. O personagem acredita ter sido a sua mãe que o trouxe de volta à vida. Fica meses sem ver a Laura, ela estava sentindo- se mal por não tê- lo esperado e um dia escreve uma carta, marcam um encontro. Quando estava atravessando a rua é atropelada e entra também em coma.

A partir daí começam os clichês e a história perde totalmente a credibilidade.  Álvaro vai para os Estados Unidos, pois acredita que pode despertar Laura do coma como fez sua mãe com ele, num instituto do sono de muito prestígio. A autora peca quando tenta explicar termos científicos dos quais parece não entender bem. Sobre Psicologia, Susana coloca uma frase na boca de um psicólogo, que faria Freud se revirar no túmulo: “Somos muitos que temos esses sonhos que são sinais divinos” (p. 112). Sonhos, “sinais divinos”? Um médico tradicional nunca diria isso.

A primeira parte do livro é interessante, pois a autora narra muito bem os costumes espanhóis, a gastronomia e a linguagem coloquial, como fala mesmo o povo espanhol na rua, com bastante realismo. Há um excesso nos cumprimentos, nas despedidas,  diálogos desnecessários, que dão a impressão que estão só para estirar a história.

A autora tenta nos convencer que Álvaro tem um poder mental incrível, que é uma pessoa especial e diferente, mas não consegue. A narrativa passa a ser penosa e difícil de ler. Quando um livro entra em descrédito, fica difícil seguir em frente com a leitura, mas eu insisti. Passei por páginas e páginas chatíssimas e repetitivas sobre como os cientistas preparavam e monitoravam os sonhos de Álvaro.

Alguém duvida que Álvaro conseguiu despertar Laura do coma? Álvaro, o “anjo”.

“La ventana del ángel”, Susana Herrero Gásquez

Preço: 20 euros

Se eu recomendo? Minha resposta: é problema seu.

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Lev Tolstoi: “A morte de Ivan Ilitch”


Impressionante e intenso livro condensado em apenas 91 páginas desse gênio da literatura russa e mundial, Lev (ou Liev, Leo, León, Leão) Tolstoi (1828-1910) mais conhecido pelos romances “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”.

António Lobo Antunes escreveu o prefácio dessa edição da Leya e se declara completamente maravilhado com a obra, que já leu mais de 30 vezes e confessa que lerá “até o fim dos seus dias” (p. 5).

O livro começa com o velório do personagem e logo vem a apresentação da vida de Ivan Ilitch, que é um cidadão comum, trabalhador, casado e pai de dois filhos,  com problemas como todo mundo, dos mais tristes aos mais cotidianos. De repente a dor, a descoberta da doença misteriosa, sem nome, até o seu final. Todas as suas sensações e medos são descritos de forma magistral que nos fazem sentir a sua agonia. O sofrimento de Ivan é também o nosso. Passamos a partilhar o seu medo, que vai do desespero à esperança muito rápido. A dor física inferior a dor da alma: a solidão, a vontade de um abraço que nunca chega , a insensibilidade da família que vai ao teatro enquanto Ivan geme de dor. A doença que incomoda a mulher e os filhos, que têm pena, mas ao mesmo tempo querem se livrar de tudo aquilo.  Os anos de luta,  e agora a certeza da morte próxima. A saúde alheia que ofende, que machuca. A confusão e a busca de respostas.

A hora da morte é solitária, embora rodeada de pessoas. As recordações da infância e a busca de sentido para tanta dor, Ivan se pergunta se viveu como devia ter vivido, foi feliz? A resposta pode ser muito triste.

Sentimentos que esperamos não passar, mas que é comum para todos (a morte), contados de uma forma que nos deixa com um nó na garganta e lágrimas insistentes nos olhos. Depois de tudo, de tanto sofrimento, a morte deixa de parecer tão ruim.

A morte é “luz”.

Tolstoi, L. A morte de Ivan Ilitch, Portugal, Leya, 2008.

Preço: 5,95 euros

“Sherezade ya no danza”, Sandra García Colina


“O que veio primeiro, o desenho ou o texto?”, essa foi a pergunta que fiz para Sandra García Colina,  escritora/ artista plástica nascida no País Basco, Bilbao (1973). Seriam muitas outras perguntas, mas nosso encontro  marcado no Parque del Retiro foi cancelado pela escritora e essa pergunta foi respondida via Facebook.:

Primero vinieron algunos de los relatos, no todos, porque son una descripción vital, como un camino que ha ido parejo.
La pintura es la fotografía de la vida que Sherezade quiere tener, en algunas ocasiones y en otras los cuadros reflejan la sensibilidad y fuerza de una mujer valiente.
No hay una correspondencia cronológica entre relatos y cuadros. Son dos escenarios diferentes y , al mismo tiempo, complementarios.
Podríamos decir que son como la música y la partitura de la vida de Sherezade.

Primeiro vieram alguns dos relatos, não todos, porque são uma descrição vital, como um caminho que veio em dupla. A pintura é a fotografia da vida que Sherazade quer ter, em algumas ocasiões, em outras os quadros refletem a sensibilidade e a força de uma mulher valente. Não existe uma correspondência cronológica entre relatos e quadros. São dois palcos diferentes e, ao mesmo tempo, complementários. Poderíamos dizer que são como a música e a partitura da vida de Sherazade.”

Sandra publicou “Sherezade ya no danza” (Sherazade já não dança”) seu primeiro livro que foi lançado na última Feira do livro de Madri, um belo impulso para uma escritora novata. Contos, mas que poderiam estar reunidos em uma única narrativa, pois a personagem é a mesma e os textos são suficientemente coesos, interligados para estarem juntos num único texto.

O livro é muito breve, breve demais: 57 páginas compostas por 21 micro- contos e 24 reproduções em preto e branco de quadros ( em cores) pintados pela escritora/pintora. O cenário dos textos e imagens acontecem na Turquia, uma Sherazade que dança, que vende o seu corpo, mas que não gosta, quer se libertar e se liberta. Textos que falam de amor e desamor, de sonhos e busca pela felicidade.

Quando vi esse título pela primeira vez, “Sherezade ya no danza”, a impressão que me passou foi de que seria uma obra de cunho feminista, que trouxesse alguma novidade à respeito da atual situação da mulher na sociedade contemporânea. Estava enganada, não há teoria feminista alguma, é um livro carregado de misticismo, que inclusive cita termos como “dívidas kármicas” (pág. 53) ou “karmicamente” (pág. 52) mostrando que a autora (supostamente) acredita em destino e na pré- determinação dos acontecimentos.

No Facebook da artista é possível ver na sua galeria os quadros originais, coloridos. Uma pena no livro não terem reproduzido em cores, pois perde muito as imagens em preto e branco. Os quadros mostram cenas típicas do deserto com uma Sherazade que lembra uma sereia, muito feminina e sensual com suas curvas e cabelos longos. Uma escritora que é uma excelente artista plástica.

Colina, S. G., Sherezade ya no danza, Madrid, Sial, 2010.

Preço: 15 euros

Compra online: Livraria Proteo.