Lucía Etxebarría: original ou cópia?


Domingo de sol, 34º na capital espanhola. Mil voltas para conseguir estacionar na região do Parque del Retiro e, quase uma hora depois, conseguimos estacionar. A multidão invadiu os stands da Feira do Livro de Madri, parecia um formigueiro, “tantos fãs de literatura assim?”. Um passarinho me soprou que talvez fosse gente em busca dos brindes e muitos curiosos, isso sim. Os autógrafos começaram às 19:00, e eu havia esquecido a minha agenda com o número das “casetas” dos autores que eu queria visitar. Ao ponto de informações e problema resolvido. Objetivo: Lucía Etxebarría.

Lucía Etxebarría nasceu no País Basco, em Bermeo (1966), cidade com um belo porto marítimo e rica gastronomia à base de mariscos e peixes; logo mudou- se para Valência, onde estudou numa escola de freiras.  Depois à Madri, sua residência atual. Tem formação em jornalismo, publicou o seu primeiro livro em 1997, “Amor, curiosidad, Prozac y dudas”, passando pelo ensaio, roteiros de filmes, até o seu último livro “Lo verdadero es un momento de lo falso”.

Lucía Etxebarría escrevendo a dedicatória do meu exemplar de ” Lo verdadero es un momento de lo falso”

A última descrição é a que todo mundo pode encontrar na internet, no seu próprio site, a oficial. As impressões, a maioria negativas, marcaram o breve encontro que  tive com a escritora, confirmando que a intuição é uma poderosa arma, embora empírica, para saber. Não são críticas, são só percepções:  ela aparenta ser mais velha do que é nas fotos dos seus livros, o que me faz pensar que ela tem medo de envelhecer. A Coca- Cola Zero na mesa também indica que tem medo de engordar ou que não é feliz com o seu corpo. Ou seja, a aparência  importa para a escritora feminista. Seu olhar não concordava com o sorriso que esboçava no seu rosto. Ele carregava uma certa amargura, a coisa mais forte que marcou em mim  nesse nosso encontro.

Ela foi de uma gentileza impaciente, quase forçada. Atribuí ao cansaço, mas talvez não tenha sido isso.  Perguntou se eu era brasileira quando disse meu nome, puxou conversa. Perguntou se eu ia voltar, disse que não, que havia casado com um catalão. Não que ela tivesse especial interesse, mas creio que precisa saber algo da pessoa para poder colocar na dedicatória. E começou a escrever no meu exemplar de  “Lo verdadero es un momento de lo falso” (“O verdeiro é um momento do falso”). Curioso título, não? Vamos à dedicatória: “Para Fernanda, que ya se queda y se queda…Porque el amor es lo que tiene. Con muchos besos de L.” ( “Para Fernanda, que já ficou e fica…Porque o amor é assim mesmo. Com muitos beijos de L.”).

Dei um exemplar de ” Ya no sufro por amor” para ela autografar e me perguntou/criticou: “Mas você já está casada, para quê quer esse livro?!” Meio chocada, eu disse que era pra uma amiga do Brasil.

Não sei que tipo de leitora ela pensou que eu fosse. Eu leio de tudo para conhecer, para saber o que fazem os escritores, não necessariamente tomo as histórias para mim, como lições de vida. O livro “Já não sofro por amor” parece ser uma espécie de manual anti- sofrimento. Eu comprei sem conhecer, estava exposto alí na mesa, com outros livros e fui pelo título (e mesmo se fosse para mim, não podem sofrer por amor as mulheres casadas?).A minha amiga do Brasil também é casada, enfim…

Estudando um pouco a vida e obra da Lucía descobri que foi processada e culpada por plágio em 2006, porque transcreveu nesse livro (foto acima) trechos do artigo  do psicólogo Jorge Castelló, “Dependência emocional e violência doméstica.” Lucía reconheceu que copiou e teve que pagar uma indenização de 3000 euros. Há precedentes: em 2001 a escritora foi acusada de copiar do poeta Antonio Colinas e da americana Elizabeth Wurtzel.

Em contrapartida, a escritora ganhou dois prêmios literários importantes, o Nadal e o Planeta, pelos livros “Beatriz  e os corpos celestes” e “A Eva futura, a letra futura”.

Tentei conhecer mais a Lucía e achei essa entrevista no El Mundo de 6 anos atrás. Uma pergunta sobre como sentia- se depois da maternidade, ela declara- se “amargurada” : “yo antes era una neurótica depresiva amargada y frustrada y ahora soy basicamente lo mismo pero cuando estoy con la nena se me pasa y en general se me nota mucho menos” (“Eu antes era uma neurótica depressiva amargurada e frustrada y agora sou basicamente o mesmo, mas quando estou con a menina passa tudo e no geral se nota muito menos”)


Pelo olhar, a leitura da alma.

Nessa entrevista que parece ter sido feita com perguntas dos leitores do jornal, Lucía diz que já teve relações com mulheres, mas não se declara lésbica: “yo nunca me he declrado lesbiana. consulta una hemeroteca, si quieres. tampoco a estas alturas de mi vida te voy a negar que sí que he etnido relaciones con mujeres, porque ya lo sabe medio mundo, pero el tema de mi orientación sexual le corresponde analizarlo a mi terapeuta, a nadie más” (” Eu nunca me declarei lésbica. Consulta os arquivos, se quiser. Tampouco nestas alturas da minha vida não vou negar que tive relações com mulheres, porque meio mundo já sabe, mas o tema da minha orientação sexual correspondente ao meu terapeuta analisar, ninguém mais”).

Muitos blogs não falam bem da escritora, colocando- a como uma pessoa violenta na sua vida pessoal. E há um vídeo de uma mulher, Adoración García, que diz que apanhou da Lucía e foi expulsa do apartamento que tinha alugado da escritora no bairro de Lavapiés em Madri. Acusa a Lucía de ficar com suas coisas pessoais e que ainda foi num programa de tv com um colar que era dela, veja o vídeo.

Acreditem nas suas primeiras impressões. A alma salta pelo olhar- e pelas letras, às vezes… isto é, quando verdadeiro e genuíno. As cópias não valem.

Apesar de tudo, vou ler “Lo verdadero es un momento de lo falso” de uma forma imparcial, porque afinal, é a literatura que nos interessa.


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