“A trança de Inês”, Rosa Lobato de Faria


“Um não sei quê que nasce não sei de onde

Vem não sei como e dói não sei porquê”

Luis de Camões

Rosa Lobato de Faria nasceu em Lisboa em 1932 e faleceu recentemente, no último 02  de fevereiro aos 77 anos. Estava internada há uma semana por uma grave anemia, consequência de uma cirurgia que sofreu há 6 meses.

Era poeta, escritora, compositora e atriz.  Participou da primeira novela portuguesa “Vila Faia” (1983).

O livro “A trança de Inês” ( 2001) baseado na lenda de “Pedro e Inês”, narra a história de dois apaixonados que desejam, tentam, mas não podem ficar juntos por obra do Destino. São várias histórias simultâneas, os mesmos personagens vivendo em épocas diferentes, reencarnações e recordações dessas histórias que atormentam a Pedro, que está internado num hospício. As histórias acontecem num passado remoto, num passado recente, no presente e no futuro- sim, no futuro. Um amor atemporal, que vence as limitações do tempo.

A autora conta um sonho de Pedro, um sonho místico: ele entra numa sala onde pode escolher o seu Destino, antes de ser enviado para a próxima “viagem” que completaria a sua evolução. Só que nesse lugar não existe a memória, não existe a recordação de nenhum fato, só a intuição. Numa tela começam a aparecer palavras, ele só pode escolher uma, o seu Destino. Entre muitas palavras como “fortuna, poder, altruísmo, mar, música, etc”, sem saber o motivo ele escolhe “paixão”: Inês.

Um romance com clara tendência espírita: “a evolução não passa pelo que se vive mas pela forma como se vive aquilo que se tem que passar” (p. 137).

Nesse romance não- lineal, os diálogos são apresentados ao estilo “saramaguiano”, sem nenhuma pontuação e em letras minúsculas.

A vida de Pedro com Inês no futuro é a mais original e surpreendente. A autora criou uma sociedade muito bem estruturada no ano de 2090, onde as pessoas são  prescindidas em favor da natureza, que deve ser preservada a todo custo, numa sociedade onde o ser humano individualmente não tem valor. Os casais são selecionados por sua genética superior (inteligência, altura, beleza, histórico familiar de doenças, educação, etc) para poder procriar e existe um controle de natalidade rigoroso com o intuito de diminuir a população mundial, pois tanta gente prejudica a natureza.

Pedro escolheu a “paixão” como destino. E você? A gente pode mesmo escolher o nosso destino?

E a Rosa? A Rosa já foi para mais uma “viagem”- espero que o destino “Letras” tenha sido e seja bem feliz.

Faria, Rosa Lobato de, A trança de Inês, Leya, Alfragide, 2001.

UPDATE:  A história de Pedro e Inês que deu origem ao livro, aconteceu em Coimbra, Portugal, entre o rei e a criada nesse casarão na “Quinta das Lágrimas” (fotos de Acyro, do Flickr)