O lugar do imigrante na Espanha: o último da fila

A maioria dos imigrantes na Espanha trabalha em serviços que os espanhóis não querem  fazer: nas colheitas, matadouros e na construção civil, além de serviços de limpeza, o cuidado de pessoas idosas, doentes ou crianças; portanto, a imigração nunca tirou emprego dos espanhóis como  afirmam   em vários foros espanhóis, opiniões visivelmente racistas e xenófobas. Com a crise econômica mundial, que afetou forte a Espanha,  com uma taxa de desemprego e recessão galopantes, a falta de opção de emprego começou a fazer com que os espanhóis procurassem empregos antes impensáveis. E a única saída para a imigração é o aeroporto, como estou presenciando aqui diariamente, amigos e conhecidos voltando aos seus países natais ou indo para países da  Europa mais ricos. Imigrante vai aonde oferecem trabalho, não compete e nem tira trabalho de ninguém.

A questão da imigração sempre esteve nos meios de comunicação da Espanha e ultimamente ainda mais, porque a “bendita” crise  arrebentou para o lado mais fraco. As prefeituras da cidade catalana de Vic e a cidade madrilenha de Torrejón de Ardoz, iam deixar de “empadronar” (uma espécie de CPF) os imigrantes ilegais e os que vivessem em casas com menos de 20 metros quadrados, numa tentativa de que abandonassem o país de forma voluntária, já que essas pessoas não teriam mais direito às creches, escolas e assistência médica. A desculpa é que em momentos de crise as prefeituras não podem dar essas ajudas sociais a esse coletivo, ou seja: as pessoas pobres, sem trabalho e sem dinheiro e que não nasceram na Espanha, mas que permitiram antes que ficassem, porque interessavam de alguma forma (na Espanha o imigrante ilegal ganha a residência com 3 anos no país).

E os Direitos Humanos? Os Direitos Humanos só para os espanhóis… Como disse o “senhor” Josep Anglada, político xenófobo catalão à uma repórter marroquina do programa “Fresa Ácida”, da Telecinco, “não somos iguais: você é moura e eu sou espanhol”.

Partindo dessa base de desigualdade, o senhor Anglada fomentou na cidade catalana de Vic a ideia de retirar (primeiro) todos os direitos básicos dos imigrantes ilegais: médico e escola.  Suas principais “vitímas” são os imigrantes de origem marroquina. Incomoda vê- los andando pela cidade, suas roupas, véus e costumes. Nesse interessante artigo de Manel Garcia Biel, ele conta que na cidade de Vic, tradicionalista e conservadora, houve demanda de trabalho do tipo que os espanhóis não querem fazer, portanto com essa demanda imigraram árabes e sul- americanos para fazer os trabalhos duros e sujos, na contrução civil e matadouros. Biel  diz que esses trabalhadores “indesejados, mas necessários, não desaparecem depois da jornada de trabalho, e que a presença deles nas ruas incomoda”.

Mais que uma questão financeira, é uma questão racial. A crise financeira foi usada como desculpa para que tomassem essas medidas xenófobas, arraigadas em muitos espanhóis que têm que “suportar” dividir calçada com índios da América- do- Sul, os mulatos do Caribe, os chineses, os negros do deserto e mouros de Marrocos. “Mouros” dito sempre com tanto desprezo.

O Apartheid na Espanha já está instaurado há muito tempo. Os espanhóis têm vergonha de se misturar com imigrantes. Na escola da minha filha, na hora de buscar as crianças, os espanhóis ficam na linha de frente, os imigrantes atrás. Há uma linha invisível, mas que sabemos que existe e que não devemos ultrapasar,  que pode ser sentida nessa sociedade onde os ideais franceses de “Liberté, égalité, fraternité” (Liberdade, igualdade e fraternidade) são só utopia, e quem viva diferente é  uma (grata) exceção e que confirma a regra. Mas o imigrante  “normal” sabe:  nosso lugar aqui na Espanha é esse,  no final da fila.

2 comentários sobre “O lugar do imigrante na Espanha: o último da fila

  1. Nossa Fer, nem imagininava quão dura era a vida de um imigrante num país que “não é o seu”, ou o quanto são maltratados ou desprezados.

    Você escreve muito bem, adorei conhecer seu blog.

    Beijo

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  2. Minha amiga Sandra passou um sufoco enorme em Portugal. Horrível isso, esse preconceito ridículo. Até aqui no Brasil a coisa pega; os nordestinos sofrem um verdadeiro ostracismo em outros estados. Ai, nossa civilização é incivilizada mesmo. Uma pena. Todas as pessoas são mundos!!

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