Resenha, “Banguê”, de José Lins do Rego


A ideia da morte como renascimento, Bangüê, de José Lins do Rego.

Um dos livros mais completos em termos técnicos e argumentativos, a descrição fiel do Brasil dos engenhos de cana- de – açúcar na visão do fazendeiro, do dono da Casa- Grande; a narrativa contundente convence e nos transporta aos latifúndios do interior do Brasil.

Tempo e espaço do romance: a fazenda Santa Rosa na época pós- colonial brasileira, o personagem Carlos chega à fazenda a qual estava ausente há dez anos. A fazenda do avô Zé Paulino e o estranhamento aos olhos do jovem advogado:  a casa- grande sem luxo algum, muito diferente do que ele contava aos amigos da universidade, o jeito grosseiro do avô, a falta de modos, os escarros, a tosse incessante e os gritos aos trabalhadores, os açoites aos ladrões de galinhas, estavam muito longe do “glamour” e luxo que Carlos gostaria de viver. Para ele “Nada mais triste do que um retorno a esse paraíso desfeito” (pág. 10); tais elementos misturavam- se com a admiração pelo  homem  rude  e forte que o mandou estudar fora e que conseguiu um imenso latifúndio com  a força do seu trabalho, e o respeito dos “cabras” tão fiéis e serviçais que trabalhavam com ele na fazenda.

A apatia total pelas coisas do avô e pelo Direito acabou por deixá- lo encerrado no quarto com seus livros, preguiçoso e lento, sem rumo na vida. Até a chegada de Maria Alice, que era uma conhecida da família, casada, e que precisava recuperar- se de uns problemas nervosos. Carlos e Maria Alice têm a mesma paixão pelos livros, gostam de passear pela fazenda, apaixonaram- se e passaram a dormir todas as noites juntos escondidos do velho Zé Paulino. O marido avisou que vinha buscá- la e ela simplesmente foi embora, deixando Carlos louco e desvairado, correndo pela fazenda, sem dormir e nem comer. É a sua primeira morte:

“Queria dormir. O que eu queria era dormir, cair como uma pedra, ficar morto, sem nenhum sentido desperto”. (pag. 99)

Carlos precisou morrer para renascer, recuperou- se na fazenda do tio até decidir voltar para Santa Rosa e continuar com o legado que havia deixado o seu avô. Agarrou-se no trabalho e conseguiu sobreviver sem Maria Alice que nunca voltou.

A ideia da morte colocada como renascimento aparece explicitamente com a morte de José Paulino:

“De longe, esperava que cavassem sete palmos. Não queria ver o fim. Mas tinha que ver. Todos os parentes ficaram com ele no último encontro. O padre fazia o sinal da cruz. A chuva fina não cessara ainda. Vi o batuque das pás dos coveiros e a queda do caixão no fundo da terra.Tinham plantado o meu avô.” (126)

Uma das ideias mais belas e místicas apresentadas pelo autor é essa de que um corpo plantado possa transformar- se em outra  coisa, como se a vida não acabasse com o corpo físico, transmitindo uma sensação de continuidade dessa mesma vida. O avô enterrado e plantado como uma semente iria gerar um novo Zé Paulino? Tudo o que morre, não morre,  continua vivo, já que só se planta algo que possa nascer (ou renascer).

A mesma ideia foi apresentada por Gilberto Gil com a música “Drão”, composta para a mulher, que fala sobre a  perda do filho do casal num acidente de carro:

Drão! Não pense na separação

O amor da gente é como um grão

Uma semente de ilusão

Tem que morrer para germinar

Plantar nalgum lugar

Ressuscitar do chão”

Carlos morreu pela segunda vez quando seu fiel capataz foi assassinado à foice para defendê- lo, por lutar pelos direitos do dono do engenho. A visão do “negro” morto não o deixava dormir, os olhos de Nicolau o acompanhavam, entrou em paranóia e pensou em fugir, em entregar a fazenda à fábrica e deixar Santa Rosa para trás. A covardia e a vergonha de si mesmo fizeram com que Carlos chegasse ao fundo do poço, mais uma vez, como na época de Maria Alice.

A morte como renascimento também pode ser vista no filme já consagrado “Avatar”, de James Cameron, onde as energias vitais estão implicitamente ligadas à terra, numa árvore, que guarda o segredo da vida e da morte, e que tem o poder de curar e fazer renascer, mostrando que esse pensamento da natureza mística acontece em todos os tempos e passa por todas as artes, seja a música, a literatura ou o cinema.

José Lins do Rêgo usa uma linguagem regional para falar de coisas universais, inerentes a qualquer ser humano: o amor, a vida e a morte, o erotismo, a paixão, o fracasso, as vaidades, o misticismo, o bem e o mal chocando- se em todo momento.  Carlos não pôde e não conseguiu imitar o seu avô, fracassou e precisou construir o seu próprio caminho, enfrentar os seus próprios medos e morrer, para renascer no que ele realmente era, mostrando que é impossível fugir de si mesmo.

Rego, José Lins do. Bangüê, Livros do Brasil, Lisboa.

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