Aznar perdeu a compostura


Se os políticos de um país representam o seu povo, então…

Esse episódio de falta de educação e agressividade aconteceu na Universidade de Oviedo, quando o ex- presidente da Espanha foi dar uma conferência, onde colocou o atual presidente como um “pirômano que está incediando o país”. Alguns estudantes interromperam a conferência aos gritos de “assassino, terrorista”, fazendo alusão à guerra do Iraque. E na saída, não ocorreu nada melhor ao ex- presidente estirar seu dedo com um sorriso de raiva (in)contida, como um menino brigando no pátio da escola.

As universidades devem ser espaços de livre pensamento e da democracia, portanto o ex- presidente deveria ter sido respeitado, os os estudantes deveriam ter rebatido Aznar com ideias e argumentos, e não com gritos e xingamentos.  Mas pior que isso foi a atitude de Aznar, vulgar, grosseira, mal educada. Um homem com sua trajetória política, ex- presidente de um país importante na Europa, fazer esse gesto…

Creio que a crise financeira e política na Espanha está fazendo com que caiam as máscaras e junto com elas, a hipocrisia (e a compostura). A leitura desse gesto vai além do próprio insulto. A agressão surge quando os argumentos falham, quando a palavra já não é suficientemente forte para convencer. Essa agressão do presidente espanhol é um tapa na cara dos espanhóis que se viram reflexados nele: “somos assim intolerantes?”. A cara de satisfação do presidente é mais obscena que o próprio gesto. Usando contra ele mesmo a sua frase mais conhecida: “A Espanha vai bem”, bem mal…

Anúncios

Resenha, “Banguê”, de José Lins do Rego


A ideia da morte como renascimento, Bangüê, de José Lins do Rego.

Um dos livros mais completos em termos técnicos e argumentativos, a descrição fiel do Brasil dos engenhos de cana- de – açúcar na visão do fazendeiro, do dono da Casa- Grande; a narrativa contundente convence e nos transporta aos latifúndios do interior do Brasil.

Tempo e espaço do romance: a fazenda Santa Rosa na época pós- colonial brasileira, o personagem Carlos chega à fazenda a qual estava ausente há dez anos. A fazenda do avô Zé Paulino e o estranhamento aos olhos do jovem advogado:  a casa- grande sem luxo algum, muito diferente do que ele contava aos amigos da universidade, o jeito grosseiro do avô, a falta de modos, os escarros, a tosse incessante e os gritos aos trabalhadores, os açoites aos ladrões de galinhas, estavam muito longe do “glamour” e luxo que Carlos gostaria de viver. Para ele “Nada mais triste do que um retorno a esse paraíso desfeito” (pág. 10); tais elementos misturavam- se com a admiração pelo  homem  rude  e forte que o mandou estudar fora e que conseguiu um imenso latifúndio com  a força do seu trabalho, e o respeito dos “cabras” tão fiéis e serviçais que trabalhavam com ele na fazenda.

A apatia total pelas coisas do avô e pelo Direito acabou por deixá- lo encerrado no quarto com seus livros, preguiçoso e lento, sem rumo na vida. Até a chegada de Maria Alice, que era uma conhecida da família, casada, e que precisava recuperar- se de uns problemas nervosos. Carlos e Maria Alice têm a mesma paixão pelos livros, gostam de passear pela fazenda, apaixonaram- se e passaram a dormir todas as noites juntos escondidos do velho Zé Paulino. O marido avisou que vinha buscá- la e ela simplesmente foi embora, deixando Carlos louco e desvairado, correndo pela fazenda, sem dormir e nem comer. É a sua primeira morte:

“Queria dormir. O que eu queria era dormir, cair como uma pedra, ficar morto, sem nenhum sentido desperto”. (pag. 99)

Carlos precisou morrer para renascer, recuperou- se na fazenda do tio até decidir voltar para Santa Rosa e continuar com o legado que havia deixado o seu avô. Agarrou-se no trabalho e conseguiu sobreviver sem Maria Alice que nunca voltou.

A ideia da morte colocada como renascimento aparece explicitamente com a morte de José Paulino:

“De longe, esperava que cavassem sete palmos. Não queria ver o fim. Mas tinha que ver. Todos os parentes ficaram com ele no último encontro. O padre fazia o sinal da cruz. A chuva fina não cessara ainda. Vi o batuque das pás dos coveiros e a queda do caixão no fundo da terra.Tinham plantado o meu avô.” (126)

Uma das ideias mais belas e místicas apresentadas pelo autor é essa de que um corpo plantado possa transformar- se em outra  coisa, como se a vida não acabasse com o corpo físico, transmitindo uma sensação de continuidade dessa mesma vida. O avô enterrado e plantado como uma semente iria gerar um novo Zé Paulino? Tudo o que morre, não morre,  continua vivo, já que só se planta algo que possa nascer (ou renascer).

A mesma ideia foi apresentada por Gilberto Gil com a música “Drão”, composta para a mulher, que fala sobre a  perda do filho do casal num acidente de carro:

Drão! Não pense na separação

O amor da gente é como um grão

Uma semente de ilusão

Tem que morrer para germinar

Plantar nalgum lugar

Ressuscitar do chão”

Carlos morreu pela segunda vez quando seu fiel capataz foi assassinado à foice para defendê- lo, por lutar pelos direitos do dono do engenho. A visão do “negro” morto não o deixava dormir, os olhos de Nicolau o acompanhavam, entrou em paranóia e pensou em fugir, em entregar a fazenda à fábrica e deixar Santa Rosa para trás. A covardia e a vergonha de si mesmo fizeram com que Carlos chegasse ao fundo do poço, mais uma vez, como na época de Maria Alice.

A morte como renascimento também pode ser vista no filme já consagrado “Avatar”, de James Cameron, onde as energias vitais estão implicitamente ligadas à terra, numa árvore, que guarda o segredo da vida e da morte, e que tem o poder de curar e fazer renascer, mostrando que esse pensamento da natureza mística acontece em todos os tempos e passa por todas as artes, seja a música, a literatura ou o cinema.

José Lins do Rêgo usa uma linguagem regional para falar de coisas universais, inerentes a qualquer ser humano: o amor, a vida e a morte, o erotismo, a paixão, o fracasso, as vaidades, o misticismo, o bem e o mal chocando- se em todo momento.  Carlos não pôde e não conseguiu imitar o seu avô, fracassou e precisou construir o seu próprio caminho, enfrentar os seus próprios medos e morrer, para renascer no que ele realmente era, mostrando que é impossível fugir de si mesmo.

Rego, José Lins do. Bangüê, Livros do Brasil, Lisboa.

Dia dos namorados de 1987- 2010


Um anúncio da Apple mostra vários Ipods Touch formando um coração, com o apelo publicitário: “Amor é coisa de dois (toques). O presente perfeito para São Valentim!”.  Isso na Apple Espanha. A partir dessa imagem lembrei dos meus tempos de “namorada”.

Quando eu tinha 15, 16 anos lá pelos ano de 86, 87,  que presentes disponíveis e bacanas haviam para presentear aos namorados (no caso das meninas)? Fitas- cassete, discos de vinil, perfumes do Boticário, calculadoras científicas, camisas, carteiras, livros, relógios, tênis (nem coloquei o Atari, porque era tão caro que a maioria não ia dar isso mesmo). Ter um reprodutor de vídeo em casa era um luxo.

Propaganda do Atari com o Pelé

Agora penso na sorte que têm as adolescentes de hoje, com um leque enorme de opções, além das anteriores, as novas tecnologias: porta- retratos digitais, Ipods, cds, dvds, e- readers, vídeo- games, games, gadgets de todos os tipos, e  os notebooks que existem até de 250 euros. Ah, e sem esquecer dos telefones celulares e do novo Ipad.

Coisas para todos os bolsos. Mas nem é de valor monetário que quero falar. A intenção é mostrar como as coisas podem mudar em questão de 20 e poucos anos. E fica sempre aquela incógnita do que virá, como estarão as coisas daqui a vinte anos… Como será o anúncio da Apple no Dia dos Namorados em 2030? Até onde podemos chegar?