Escritor brasileiro contemporâneo: Darlan de Matos Cunha


Nem todos os escritores têm a facilidade da palavra. Parece uma sentença absurda em se tratando justamente disso, de escritores. Muitos trabalham muito para escolher a palavra certa, a metáfora justa, a emoção correta.

Não é o caso do escritor mineiro Darlan de Matos Cunha, filho de Maria José Matos Cunha e Elviro Ferreira Cunha, onde as letras escorregam fácil e explodem em textos ricos em figuras e imagens, tanto na prosa como na poesia.

Ele tem editado um livro: “Esboços e Reveses: O Silêncio”  (Câmara Brasileira de Jovens Escritores, Rio de Janeiro, 2004)  escrito em tao só quatro dias e é uma jóia da poesia brasileira contemporânea. Darlan fala de alma, sentimento em  uma viagem interior escrita com muita erudiçao e elegância:

ANATOMIA DE UMA ESPERA
tropeça em avarias o silêncio
escondendo algo
foge com as montanhas
o amor, vá
(você) fundo, se
nem remorso há com que lembrar de tal
fome, agora
repousas ao lado
meu, querendo ambos mais do sal
do que do mar

…………………………………………………………………………..

Aqui um texto publicado hoje no seu Flickr, onde ele une fotografia e textos:

NOVAS NOTÍCIAS DO CÉU… DA BOCA*

Preciso dos teus pés e das tuas mãos e do teu tronco
para amassar o barro com que concretizar as verticais
da casa, preciso dos teus olhos, para ferver com eles
o rumor mais tenaz que houver contra esta edificação
à alegria destinada, por isso e por mais é que necessito
sejam de duro metal os pregos para pregar em nós a ilusão
tão necessária a quem vive na brisa sempre verde e azul
do bemquerer, sim, necessito urgente que me tragas
certa água (não a das lágrimas, por salgada e, portanto,
corrosiva) para imantar com ela o bolo de barro da sala
e da varanda de onde se poderá ver o mundo exterior,
e dele inferir, talvez, mais lições de como não ser igual

a ele, o mundo exterior, é isso, preciso de fato da tua boca
com gritos metuendos ou sussurrando bolas de algodão doce
com que encher travesseiros e colchão, a faca mais afiada
fazendo ecos nas cenouras e batatas, pepinos e palmitos,
ecos de peixe e salsa, coentro e manjericão, alecrim e ovos
de codorna, sim, cá estamos que te esperamos para o fino
som da bossa, nova é a arquitetura que aqui farei vigir,
aqui é o novo mundo muito além do brave new world, já
começa o estalar dos brotos, em surdina medram as plantas,
são delicadas as vozes, guturais, a madeira para o assoalho
é a mesma das estantes onde muitas histórias descansarão
no dorso de alguma canção espalhando-se pela casa que
a partir de hoje (ou já faz tempo ?), tu e eu, construímos,
mas preciso dos teus haveres, das tuas colagens, arbítrios
e devassas, necessito daquela loucura inerente aos que amam,

e todo o cabedal feminino faz-se necessário para se vestir
de fato uma casa, preciso que os pássaros e répteis e besouros
que convoquei aqui estejam, sem falta, devemos obrar juntos
para a felicidade geral, e já a saparia e as rãs garantiram
presença, um bando de borboletas enviou-me tela a óleo
e escultura em baixo-relevo, madeira pura de amor deslavado,
tudo isso e mais para que a casa se faça mais que sonho, nada
de se parecer com o que está num poema que li (fiz ?), falando
da naturalidade desfeita pela usura, ora, a casa está quase
pronta, falta ainda um nexo para cada palavra interditada
logo à porta (não se admitirá sobre o dorso da alegria as patas
da alergia), o samba é bemvindo, de leve, a boca boa do rumor
feito de seda e caipirinha, benvindas a esta casa as águas

de março e a marca do sol subindo nos urros da vizinha, suco
de açaí, abacate talhado ao meio e comido com açúcar, limão
e gula, nada de lavoura arcaica e seu copo de cólera (a não ser
os livros homônimos), essa é a casa, sou o cara, és o som
que, tanto lá nas bandas brasilienses quanto nas dunas
de jericoacoara, assanha os cabelos da alvorada e dorme
com a noite, ou seja, dorme natural, natural, como se espera
de uma flor oblíqua ou, melhor dizendo, mais dissimulada
do que a machadiana, absurda como a gargalhada fecunda
de macunaíma (eu, macunaíntimo de mim, procuro lições),
a vida aqui e ali, sempre aberta em leque, como uma canção
de minas, um leito de rio arrastando e guardando lembranças,
flor de trapézio, florama, florália, florestrábica, flormana, flor
ou hera subindo nas paredes do coração da novíssima casa

que para a minha futura solidão, ou sensatez, construí,
quase toda pintada de amarelo – cor do dia, cor claro-enigma.

* inhttp://www.flickr.com/photos/darlanmc/3810247019/

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4 Comments »

  1. Muito obrigado, Fernanda

    por sua extrema gentileza, por levar a minha modesta Literatura a outras pessoas e lugares. Se não fosse por nada, sabedor que sou do quanto gostas do significado mais profundo e largo da palavra Beleza, eis-me aqui na tua Página, junto, e logo depois, do inenarrável Fernando Sabino, cujo livro O Grande Mentecapto é “a” doçura, leveza, picardia, mil risos e, também, reflexão não somente sobre a era colonial brasileira.

    Novamente, grato e honrado.
    Darlan M Cunha

  2. Bom saber disso. Estou meio por fora da literatura brasileira atual, infelizmente. Tenho lido mais as novidades estrangeiras, que são as que tenho mais acesso por cá. Vou ao Brasil por esses dias e procurarei conhecê-lo. Um abraço.

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